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Meet the UKIPPERS

Março 12, 2015

A maioria das críticas àquilo que se convencionou chamar de retórica anti-imigração partem do princípio que esta reacção resulta da dificuldade de incorporação dos muçulmanos na Europa.  Aliás, esgotam o assunto no confronto entre nacionalismos emergentes e a sua incompatibilidade com o Islão. O Islão parece assim ter-se tornado o erzats quer do discurso populista com tonalidades fascizantes quer do discurso de esquerda com tonalidades emancipatórias. Todos os caminhos vão dar ao Islão, assim se poderia resumir o encontro de retóricas. É certo que em países onde esta retórica mais adeptos granjeou pelo lado racista – França, Holanda, Dinamarca – o Islão e os muçulmanos parece constituir o centro da comoção generalizada. De tal forma que o discurso do inimigo dentro de nós substitui facilmente o tropos dos bárbaros à porta da Linha de Poitiers, porque efectivamente seja qual for a maneira como se constrói o Islão, ele já não se encontra à porta.

Todavia, estaríamos enganados se víssemos a retórica anti-imigração como algo que não tem alternativa senão eleger como objecto a irredutibilidade do Islão aos valores europeus. É isso que mostram as recentes declarações da conselheira do UKIP britânico ao eleger como objecto do seu racismo o “preto” ou, como ela coloca a questão, “people with negroid features”. A sua imediata exoneração do cargo e expulsão do partido, as declarações veementes de Nigel Farage, o líder do UKIP, não nos devem fazer esquecer que o que espanta nesta articulação é que ela dá voz ao velho racismo biológico de antigamente, enquanto pronunciamentos contra o Islão são sempre reduzidos ao território do embate de valores.

Sendo pouco provável que a conselheira do UKIP nunca tenha expressado as suas opiniões no seio do partido, quanto mais não seja em conversas casuais com os seus correligionários, o alvoroço provocado pelas suas declarações deve ser compreendido mediante a contenção de danos das coisas incómodas que se tornam públicas. Foi a publicitação de uma tal ocorrência, o facto do seu vídeo se ter tornado viral, que levou à sua expulsão. Caso contrário, supõe-se que nada aconteceria. Mas as declarações interessam a outro nível, um nível que as torna coincidentes com a retórica da boa vs a má imigração, o esquema maniqueísta neoliberal que preside a muito do pensamento integracionista da europa actual. A conselheira começa por introduzir a temática dizendo que nada tem contra os paquistaneses, que são muito simpáticos, e que até tirou fotografias ao lado dum casal que trabalha nos correios – boa imigração. Porém, quanto aos “negroes”, aí é diferente, sente desconforto, nunca se sentiu à-vontade, como ela diz, e chega mesma a tecer uma explicação psicanalista sobre se esse desconforto não seria por qualquer coisa que teria acontecido na sua infância. Por conseguinte, paquistaneses sim; negroes, dificilmente. Perante a expulsão, mostrou-se a conselheira indignada, justificando-se dizendo que se limitara a expressar um sentimento pessoal, e como poderia ser isso censurável? Afinal, não fizera mais do que exercer a sua liberdade de expressão.

Este episódio algo caricato – como é que uma conselheira de um partido se deixa apanhar numa escorregadela tão flagrante? – mostra que a retórica anti-imigração tem outros pressupostos que vão para além da incompatibilidade com o islão. Recupera o velho racismo da pele, da distância social, e mostra como este subsiste e se encontra mal resolvido, apesar de nos sucessivos inquéritos lançados pelos organismos internacionais as pessoas mostrarem-se consistentemente menos racistas no registo flagrante. Mostra igualmente que o flagrante é uma categoria desapropriada, porque as pessoas aprenderam a manipular a norma anti-racista e a aplicá-la ou cancelá-la consoante se trata de boa ou má imigração. Suponho que se a conselheira tivesse emitido uma opinião menos abonatória sobre os instintos facínoras dos muçulmanos, ninguém se preocuparia em demasia. Mas como usou a velha construção do racismo biológico, all hell broke loose!

O Ukip tem visto vários dos seus membros envolvidos em escândalos de natureza racista. Claro que o facto de a norma ser levada bem mais a sério na Inglaterra do que, por exemplo, em França, ajuda ao destaque que é dado a estes casos, e contextualiza a revolta moral que eles suscitam na esfera pública (basta ver as redes sociais). Torna-se no entanto evidente que o racismo da conselheira ultrapassa uma fronteira porque é exposto, embora quando velado na retórica anti-imigração seja mais aceitável. Torna-se também evidente que quando o Ukip dirige os seus ataques para a imigração enquanto problema social e de valores – a crise do emprego, etc – o que se encontra subjacente é o old style racism do “não consigo sentar-me perto dum preto”, como diz a conselheira.

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