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Uma estranha noção de democracia

Março 3, 2015

O artigo de Duarte Marques no expresso d’hoje contém tudo o que de mais rafeiro existe nos políticos do PSD. A expressão delator aplicada a Tsipras, remete de facto para aquilo que referi no post anterior: um fascismo de gabinete tão seguro de si mesmo quanto petulante mediante o escrutínio público. Ora, devíamos ter por assente o princípio que não se pode delatar acções decididas por procedimentos democráticos em instituições legitimadas para e por esses mesmos procedimentos. Não há delação quando se revelam coisas ao público que são decididas e debatidas em órgãos cujos representantes são legitimados por esses públicos para lhes servirem de porta-vozes. O que Tsipras fez foi tornar transparentes os mecanismos de dissimulação dos entorses a esses procedimentos. Neste sentido, é Duarte Marques que é o pior deles todos; ou melhor, só não o é, porque há muitos como ele.

Considero que uma análise realista e criteriosa deve ser feita ao processo de mudança na Grécia, inclusivamente mostrando zonas em que o bloqueio a essa mesma mudança se torna patentemente visível. Mas considero de um cinismo execrável dizer que o governo do Syriza enganou os gregos por lhes ter prometido um domínio do possível diferente do existente. Simplificando, por ter lutado, e continuar a lutar, por mudanças fundamentais que vão para além de compromissos pontuais e de cedências estratégicas. Estas últimas são a condição sine qua non de nadar num mar de tubarões. Com efeito, o pior de todos não é Tsipras eleito democraticamente e plebiscitado pela vontade do povo. O pior de todos é quem não atende a essa mesma vontade, e à revelia dessa vontade constituinte impõe a violência das suas soluções. Dir-me-ão pragmaticamente: mas a Grécia deve dinheiro a toda a gente e o desgoverno de sucessivos mandatos levaram a uma situação catastrófica da qual não se pode arrepiar caminho. Essa é a retórica de muitos gregos críticos do Syriza que acusam, tal como Duarte Marques, o partido de vender ilusões. Mas nós como portugueses, sacrificados nas aras das negociatas desta camarilha, sabemos bem que as soluções encontradas foram sempre para protecção de alguns (poucos e não necessitados) em desfavor doutros (muitos e necessitados). Por isso quem traiu foi os Duartes Marques que sentam os seus nédios traseiros nas cadeiras do parlamento.

A retórica da traição quadra bem com uma lógica despótica que saiu das cortes e dos tronos e se instalou nos gabinetes dos Duartes Mendes que por aí pululam. O que é traição é desvelar os maquiavelismos que por lá se jogam – não o facto de Portugal e Espanha andarem a querer bloquear a Grécia. Isso já não é traição. Namorar a Alemanha às escondidas para depois receber umas palmadinhas nas costas dos seus banqueiros (mais tarde um pontapé no cu), utilizando a Grécia como bode expiatório, para isso já não se aplica a palavra traição. E veja-se como a argumentação rasteira perde o pudor perante a mais escorreita das lógicas institucionais. Para Duarte Marques o Syriza leva a Conselho de Ministros o que deve ser votado no Parlamento – o programa assinado com o Eurogrupo – e isso constitui um crime de lesa confiança. Isto dito por um deputado dum partido que se serviu diligentemente da maioria absoluta para aprovar tudo o que quis e pôde. Nesta situação nem sequer é discernível a diferença entre levar a votação ao parlamento ou firmar as decisões no Conselho de Ministros. Não é, porque não há diferença.

Mas diz mais Duarte Marques. Numa reiteração do paternalismo alheio, mimetismo provinciano da sombra augusta de Schauble, que teve a sua formulação caseira no apelidar de “crianças” o governo grego pelo nosso primeiro-ministro, vem o deputado dar lições de moral ao Syriza perante o seu eleitorado. E diz esta pérola: “ (…) não é correcto, nem honesto, defender medidas que não encontram enquadramento ou legalidade no quadro europeu.” Significará porventura que a legalidade do quadro europeu está inscrita na pedra como a palavra de Deus passada a Moisés? Achará o deputado que essa mesma legalidade não é fruto de acordos, guerras, negociações, consensos, que lhe dão a feição intemporal quando congeladas no olhar presente? E porque razão não é “honesto” – veja-se o peso da palavra moralista – defender soluções contrárias ao quadro europeu vigente? Deveremos acatar, como fez o partido do seu deputado, as imposições do “quadro legal europeu” mesmo que este nos seja prejudicial? Sim, devemos, sobretudo quando estas nos favorecem e ao programa ideológico que decidimos nomear de “correcto”.

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