O que é que se passa com esta gente?

             

Na Madeira conseguiram fazer algo inacreditável: escolheram alguém ainda pior que Jardim. É certo, a escolha não era muita. Mas aquilo, aquela espécie de mafioso de série b com intonações monárquicas, não dá para acreditar! Será que os madeirenses acharam, bom o Jardim era fraquito, não era suficientemente arrogante, nem antidemocrático, nem malcriado, nem chico-esperto, nem nepotista… Não, isto tem que ser elevado, um upgrade na trampa política é o que isto precisa – devem ter pensado os madeirenses. E se assim o pensaram, melhor o fizeram. É verdade que na Madeira os órgãos de comunicação social estão todos na mão do psd; é verdade que as prebendas que Jardim foi distribuindo ao longo de sucessivos mandatos dão para garantir uma corte de suínos bem alimentados e obedientes que plebiscitam e plebiscitarão o psd pelos próximos cinquenta ou mais anos. Mas que diabo, aquela gente não tem o conceito mínimo de organização democrática? Nem sequer a porra da rotatividade eles acham que vale a pena tentar?

Em França, a UMP fez o pleno. Roubou quase trinta circunscrições ao PS e elegeu Sarko, para reaparecer em gáudio na cena política, apesar, ou por causa, de ser um mafioso corrupto. Lá como cá, a corrupção, o enriquecimento ilícito, o tráfico de influências, deixa o eleitorado completamente indiferente. A derrota para esquerda, por seu lado, é estrondosa, com até o partido comunista a perder para a UMP uma das mairies. Nesta altura, eu teria gostado imenso de ver uma vitória retumbante de Marie Le Pen. Teria sido perfeito, mil vezes preferível a ver Sarko a ser incensado como a grande esperança política da nação. Mil vezes. E sinceramente não sei o que é melhor para o futuro da Europa: se a FN a travá-la se e a UMP a acelerá-la numa direcção cada vez mais neoliberal e injusta. Já não sei, confesso.

A questão é mesmo esta: será que apenas na Grécia os cidadãos não devem ser dados como inimputáveis?

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A320

No filme Relatos Selvajes de Dámian Szifron, a primeira história da tapeçaria de episódios é sobre um homem que se suicida num avião, ao tomar à força os comandos do mesmo, levando consigo para o sono derradeiro os passageiros. Neste caso o efeito é cómico, porque Gabriel Pasternack, o músico falhado, consegue atrair todos aqueles a quem odeia para dentro da infortunada aeronave e despenhar-se com eles. No caminho, mata os pais com quem mantém uma relação mal resolvida, dirigindo o avião para o lar de terceira idade onde estes se encontram sentados pacatamente no jardim.

Que o episódio possa ser utilizado como motivo de humor negro, não retira um grão à tragédia dos Alpes. Mas as semelhanças são assinaláveis. Também Gabriel, o personagem, sofre de uma depressão da qual se anda a tratar com um psiquiatra que ele também atraiu para o avião no intuito de o matar. Agora que os contornos da sinistra história do A320 que se despenhou nos Alpes começam a ser desvendados, surge a uma claridade desnuda a foco da investigação. Respiram os RPs da gigante Lufthansa que afinal não foi falha técnica. Bem sei, isto é demasiado cínico para ser proferido assim perante a enormidade da tragédia – uma profanidade. Contudo, ainda ontem assisti a alguém defender que a tese do suicídio tinha sido avançada demasiado depressa e que por trás da pressurosa revelação do procurador francês estaria a mão enorme da imponente Airbus. Polémicas, enfim. Mas quem o disse não era um velho roto e bêbado, mas um abalizado homem da indústria da aviação. Por mim, fico pela tese do suicídio. Sempre é uma explicação. E para o que não tem explicação, teremos que arranjar deuses.

Antecedentes de casos assim, existem. E os jornais que gostam de esmiuçar o miolo do horror, depressa alinhavaram listas compendiadas de semelhantes exercícios suicidários: em Moçambique, no Egipto, etc. Diz-me alguém, perante a pergunta, Mas porque não se matou ele sozinho, que a morte solitária é difícil. Não é que a pessoa que o disse alguma vez tenha experimentado a morte, nem acompanhada nem solitária. Pensa ela que Lubitz se comportou como uma criança grande, e como uma criança que insiste que os adultos lhe dêem atenção, também este quis mergulhar no precipício sabendo-se acompanhado da família. Estranha reflexão. Talvez tenha razão; pelo menos assevera que acompanha espíritos e que gosta de os ver partir em sossego.

A morte e o mestre

Morreu o Herberto Helder. Um nome tão aliterado, só poderia albergar um homem único. Morreu o maior poeta ainda ontem vivo. Não apenas o maior poeta português ainda ontem vivo – o maior poeta, ponto, ainda ontem vivo.

Reproduzo aqui um post que publiquei pela ocasião da Morte sem mestre, o livro que já lhe adivinhava a morte.

A morte sem mestre é o livro mais seco de Herberto Helder. Entenda-se aqui seco como esquemático, em esqueleto, e não com qualquer conotação afectiva. É também um testamento de alguém desiludido com o passar do tempo; do seu e do país. Olhar desencantado sobre a idade e a vida do poeta, onde nem a poesia, por mais conscientemente bela que seja, resgata o aproximar da morte. Foi tudo em vão? – perguntar-se-á Herberto Helder em vários momentos deste seu livro. Nós sabemos que não. Mas o poeta (o maior dos vivos) insiste em colocar uma cáustica dúvida sobre um sentido benigno que a criação – a única passível desse nome: a da nomeação poética – pudesse ter atribuído à sua vida. Um testamento suicidário por vezes. Mas esta morte possui uma beleza da economia poética que roça o trágico. Estamos afastados da carga por vezes vertiginosa de atributos, de prolixas modelações poéticas que faziam por vezes o verso ajoujar perante uma saciedade nunca adquirida. Agora tudo é directo: não tenho dinheiro para comprar mais gás – que cara que está a morte. Retrato de um país, também, que se confunde com a degenerescência do poeta; retrato de um país onde a morte se tornou excessivamente cara. E com a morte, ou a sua proximidade, vem o declínio sexual (ou será a inversa?). Perante a côna (assim mesmo escrita, com o acento que lhe dá o declive de raiva perante a sua, agora, inacessibilidade) são as mulheres de Herberto, outrora sempre chamas vivas e alojadas na casa do amor, que são destituídas do seu lugar intemporal. Porém, que beleza sôfrega alberga este cenário de desolação. Se a morte o espera, aguarda-a também Herberto Helder, prestando-lhe esta (quiçá última!) homenagem ao incluí-la, quase domesticada, na sua fala. Que venha a morte – diz-nos Herberto Helder. – Que venha, porque eu já a escrevi.

Deixemos antes Herberto Helder falar de outros tempos em que se sonhava eterno:

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
– E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
– Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. – Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
– Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
– não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito

nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. – E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno

Cabras montesas

O que me irrita no acórdão do Tribunal de 2ª instância no caso do recurso apresentado pelo advogado de Sócrates, não é que este pareça ter sido elaborado “por um colectivo de pastores”, como disse, muito apropriadamente, Rodrigo Moita de Deus. O que me irrita é o preciosismo desse colectivo a transformar a formulação do ditado popular, numa fórmula que entenderam como gramaticalmente correcta. Os juízes agarraram no ditado “Quem cabritos vende e cabras não tem, dalgum lado lhe vem” e transmudaram-no para “Quem cabritos vende e cabras não tem, dalgum lado lhe vêm”. Isto mostra bem que não se pode confiar na justiça portuguesa, quando esta nem sequer consegue reproduzir um ditado. A primeira grande falha dos juízes é não respeitarem a rima: cabras não tem/dalgum lado lhe vem. O que é que vem? Os cabritos? Não, porra – o guito, a narta. Que colectivo de estúpidos é que poderia achar que “aquilo” que responde ao “lhe vem” fossem cabritos? Há uma lógica na rima.

Ora, uma tal deturpação seria de somenos, não se desse o caso de os ditados serem uma espécie de cláusula moral do direito costumeiro: Quem com ferros mata, com ferros morre; Quem cala, consente; Quem anda à chuva molha-se – e por aí afora. Como se pode confiar em juízes que pretendem deturpar formas primitivas dos princípios regulamentares?

Stand-up

 Rábula de Gervais “The Bible”

No circuito norte-americano da stand-up comedy existe uma repetição a cujo cânone os comediantes têm que se agarrar. Por isso não é raro ver as mesmas piadas repetidas, com ligeiras modificações, mas as mesmas situações, puns e efeitos, ora em torno da masturbação, ora da droga e do álcool, ou das namoradas e mulheres. Estes três grandes temas cobrem prety much o circuito das superstar de stand-up actual: Louis C.K., Chris Rock e Asis Anzari, por esta ordem. Desapareceram de cena a piada política, económica  – para além das sistemáticas alusões a estar falido, embora ganhem milhões – ou nacionalista, ou seja, fazer pouco do país onde se nasceu, obtendo o efeito de chamar a atenção para essa mesma ligação, e finalmente, o gozo com a religião que catapultou gente como os Monty Python para o sucesso universal. A este propósito há uma excepção que brilha no firmamento da comédia: Ricky Gervais. A ascensão meteórica de Gervais no mundo assassino do circuito norte-americano é notória a diversos títulos. Primeiro, porque por diversas vezes lhe vaticinaram o fim depois de piadas ao cristianismo que exibem o seu ateísmo com uma desfaçatez numa América do In God we trust, que dir-se-ia que apesar da sua arte funambular se despenharia a qualquer altura. Segundo, porque Gervais ataque as vacas sagradas impiedosamente, não recorrendo a tipos vagos que ocupam o humor da maioria – o bêbado, o pedófilo, o gordo – mas chamando nomes aos bois e fazendo-os berrar como na matança do porco. Contudo, é também notória a plasmação constante dos motivos mais habituais da comédia norte-americana nas piadas de Gervais. Se há algo que surge repetido nos três grandes nomeados atrás, procurando um efeito garantido – que o tem – é o simular uma felação. Ora Gervais não o fazia anteriormente, nem durante o Office, nem nas suas aparições no circuito britânico; não quer dizer que não fizesse piadas em torno do assunto. Fazia. Mas a simulação em palco de uma felação é algo que surge reiteradamente em Ansari, Louis C.K, e Rock… e agora em Gervais. Ficará para análises futuras do humor perceber por que razão a felação ocupa um tal lugar no panorama actual da stand-up? Curiosamente, são os homens que a simulam, e nunca as mulheres; embora não exista uma única mulher de vulto no meio. Mas o gesto preenche bem uns trinta por cento do material, se estendermos o critério não apenas à sua simulação gestual, mas também a alusões ao acto no texto de cada um dos episódios relatados.

Gervais destaca-se ainda por outra razão. Ao gozar literalmente com várias vacas sagradas é o que mais se aproxima de um bobo da corte. Aliás, a sua relação com o firmamento de Holliwood é praticamente decalcada da relação do bobo com Lear, na peça de Shakespeare. O Knave da corte de Lear é na maioria dos casos a voz dissonante, e nesse sentido também a mais honesta. Mas isso era função comum dos bobos; a especificidade shakesperiana é que Lear parece apenas guardar reais sentimentos pelo seu bobo, mesmo que por vezes ameaça dar-lhe com o chicote. Gervais funciona como o fiel knave de Lear; de facto, o amor que holliwood lhe prodigalizou, apesar de Gervais lhe mostrar os podres e os gozar (ou por causa disso), cumpre de facto a função do bobo da corte. E se observarmos bem o comportamento de Gervais, ao aplicar-se com denodo em pertencer a todas os círculos importantes, ao marcar presença nos shows mais emblemáticos da televisão norte-americana, ao aparecer junto das figuras mais conhecidas, ao representar instituições que marcam os códigos do show business, tal como a holliwood press association e semelhantes, mostra bem o trabalho que Gervais tem feito para existir no meio da aristocracia norte-americana contemporânea – que deixou o eixo de Filadélfia para povoar massivamente a costa oeste – funcionando no entanto como o ente marginal que pode criticar de fora, porque o humor isso lhe permite.

Se é verdade que, como sustentaram Bergson e Freud, o humor cumpre uma função social, então a psicologização humorística da stand-up actual encontra-se entre o escândalo e a crueldade. Lembremos a subtileza com que Seinefeld classificou a palavra fuck chamando-lhe “o corvete da stand-up comedy”. Seria preciso a intervenção clarificadora de Chris Rock para nos revelar que para Seinfeld o corvete é um carro de merda. Assim a ironia fica exposta e nós percebemos a inteligência do comentário. Contudo, os três grandes actuais – Gervais, Louis e Ansari – usam e abusam da expressão – e têm piada. Contrariamente ao humor videirinho que anda muito por aí, as suas piadas podem ser profundamente cruéis, bem para além das simples inversões do politicamente correcto; cruéis no sentido de não respeitaram a sacralidade da pessoa humana, como a definiu Joas. Mas o humor sempre sustentou um tal mergulho na mais absoluta das crueldades. Para Bergson, o humor tem apenas um lado negro, e a crueldade que ele inflige é um elemento disciplinador. Não creio que a stand-up actual vise repor uma qualquer ordem pela causalidade estabelecida entre o ridículo e a crueldade. E os elementos presentes no humor actual são cruéis, mas apenas ridicularizam quem se sente com força para os criticar. É nesse sentido que a liberdade absoluta que é explorada por Gervais e Louis C.K. – menos em Ansari, o menos inteligente dos três – funciona paradoxalmente como a delimitação do permissível. Ou seja, a invocação de certos termos só deve e pode ser usada quando em contexto de derrisão e mutilação de sentido previamente assinalado. Todavia, estaríamos enganados se aqui quiséssemos ver um círculos delimitadores dos territórios da espontaneidade versus espaços de rotina e obrigatoriedade. Por detrás da aparência do espontâneo total encontra-se a reiteração deliberada de expressões, gestos, treinados exaustivamente, experimentados e burilados, deixados aqui e ali como outros tantos teasers que fazem com os espectáculos destes humoristas nunca termine. Precisamos apenas lembrar-nos como Robin Williams levava para as entrevistas o seu repertório, como o lançava em fragmentos numa alucinação experimental de teasers avulsos que mais tarde apareceriam limados nos seus grandes espectáculos. Profissionais da máscara e da sua reprodução, treinados na encenação e na busca de efeitos experimentados, a genialidade está em criar a ilusão de que tudo aquilo é espontâneo, assim como a publicidade cria a ilusão de que as pessoas estão genuinamente a viver a paleta de sentimentos que foram previamente instruídas para sentir. No meio disto, destaca-se o mais inteligente e original dos humoristas, Ricardo Araújo Pereira. Com uma imaginação prodigiosa, mesmo que se sustente em tipos modelares e repetidos, como o labrego, o choninhas, etc, alimenta-os no entanto sempre de conteúdos diversos. Não sendo um animal de palco como Gervais ou Louis C.K., é no entanto o mais versátil deles todos; e o seu humor abre possibilidades combinatórias que não necessitam de recair nas mesmas fórmulas testadas e bem-sucedidas. Não quer dizer, contudo, que seja o mais engraçado. Afinal de contas, o riso é ele próprio, na sua dimensão física, repetitivo e regular.

O Estado das coisas

Este gráfico do Expresso Diário ilustra bem o espectro moral do país em que vivemos. Por isso, longe de trazer boas notícias é emblemático do isaltinismo satisfeitinho e chico espertalhaço que por aí abunda. Mostra também que o Estado se tornou matéria risível, que se deve enganar e respeitar em simultâneo. Respeitar porque molda a nação, dá-lhe os contornos e no fundo é aquilo que celebramos quando a selecção ganha jogos – o aparato da comunidade de crentes é sempre referido a um molde institucional. Enganar, porque as pulsões individualizantes não se compadecem com freios colectivistas da natureza da contribuição para um bolo geral.

O gráfico é claro: se 65% consideram que o primeiro-ministro é aldrabão, já 45% acham que isso é indiferente. Há mais pessoas a achar isso um acto normal, na realidade consubstancial à relação correcta com o Estado, do que aqueles que o consideram condenável. O efeito Isaltino era construído em torno das mesmas premissas. Sim, é verdade, lesou a coisa pública… mas quem não o faz se tiver oportunidade? Para além disso, até deixou obra! Do primeiro-ministro, muitos dirão que a obra que deixou é uma objectiva merda, mas mesmo assim, com caldinhos de galinha, o que o gajo fez qualquer outro faria se estivesse no lugar dele… Por isso, os resultados desta sondagem são assustadores. Longe de serem demolidores para o primeiro-ministro – afinal uma larga maioria apenas a acredita que ele está a mentir, mas isso é em última análise indiferente – são o seu salvo-conduto. Como já tinham sido doutros. O que eles enunciam, é que aldrabar o fisco não belisca a sua legitimidade. E isto inscreve-se bem na campanha de aniquilação da coisa pública, o seu chapéu institucional o Estado, em que este governo e os seus mandantes tanto insistem. Se o Estado é o elemento poluidor nesta narrativa, então enganá-lo em proveito próprio só pode ser uma medida de sanidade. E está certo: porque o Estado não merece de facto respeito quando é sistematicamente manipulado em proveito de quem mais tem. Mas isso não é uma condição necessária do Estado – é apenas um dado estado.

Meet the UKIPPERS

A maioria das críticas àquilo que se convencionou chamar de retórica anti-imigração partem do princípio que esta reacção resulta da dificuldade de incorporação dos muçulmanos na Europa.  Aliás, esgotam o assunto no confronto entre nacionalismos emergentes e a sua incompatibilidade com o Islão. O Islão parece assim ter-se tornado o erzats quer do discurso populista com tonalidades fascizantes quer do discurso de esquerda com tonalidades emancipatórias. Todos os caminhos vão dar ao Islão, assim se poderia resumir o encontro de retóricas. É certo que em países onde esta retórica mais adeptos granjeou pelo lado racista – França, Holanda, Dinamarca – o Islão e os muçulmanos parece constituir o centro da comoção generalizada. De tal forma que o discurso do inimigo dentro de nós substitui facilmente o tropos dos bárbaros à porta da Linha de Poitiers, porque efectivamente seja qual for a maneira como se constrói o Islão, ele já não se encontra à porta.

Todavia, estaríamos enganados se víssemos a retórica anti-imigração como algo que não tem alternativa senão eleger como objecto a irredutibilidade do Islão aos valores europeus. É isso que mostram as recentes declarações da conselheira do UKIP britânico ao eleger como objecto do seu racismo o “preto” ou, como ela coloca a questão, “people with negroid features”. A sua imediata exoneração do cargo e expulsão do partido, as declarações veementes de Nigel Farage, o líder do UKIP, não nos devem fazer esquecer que o que espanta nesta articulação é que ela dá voz ao velho racismo biológico de antigamente, enquanto pronunciamentos contra o Islão são sempre reduzidos ao território do embate de valores.

Sendo pouco provável que a conselheira do UKIP nunca tenha expressado as suas opiniões no seio do partido, quanto mais não seja em conversas casuais com os seus correligionários, o alvoroço provocado pelas suas declarações deve ser compreendido mediante a contenção de danos das coisas incómodas que se tornam públicas. Foi a publicitação de uma tal ocorrência, o facto do seu vídeo se ter tornado viral, que levou à sua expulsão. Caso contrário, supõe-se que nada aconteceria. Mas as declarações interessam a outro nível, um nível que as torna coincidentes com a retórica da boa vs a má imigração, o esquema maniqueísta neoliberal que preside a muito do pensamento integracionista da europa actual. A conselheira começa por introduzir a temática dizendo que nada tem contra os paquistaneses, que são muito simpáticos, e que até tirou fotografias ao lado dum casal que trabalha nos correios – boa imigração. Porém, quanto aos “negroes”, aí é diferente, sente desconforto, nunca se sentiu à-vontade, como ela diz, e chega mesma a tecer uma explicação psicanalista sobre se esse desconforto não seria por qualquer coisa que teria acontecido na sua infância. Por conseguinte, paquistaneses sim; negroes, dificilmente. Perante a expulsão, mostrou-se a conselheira indignada, justificando-se dizendo que se limitara a expressar um sentimento pessoal, e como poderia ser isso censurável? Afinal, não fizera mais do que exercer a sua liberdade de expressão.

Este episódio algo caricato – como é que uma conselheira de um partido se deixa apanhar numa escorregadela tão flagrante? – mostra que a retórica anti-imigração tem outros pressupostos que vão para além da incompatibilidade com o islão. Recupera o velho racismo da pele, da distância social, e mostra como este subsiste e se encontra mal resolvido, apesar de nos sucessivos inquéritos lançados pelos organismos internacionais as pessoas mostrarem-se consistentemente menos racistas no registo flagrante. Mostra igualmente que o flagrante é uma categoria desapropriada, porque as pessoas aprenderam a manipular a norma anti-racista e a aplicá-la ou cancelá-la consoante se trata de boa ou má imigração. Suponho que se a conselheira tivesse emitido uma opinião menos abonatória sobre os instintos facínoras dos muçulmanos, ninguém se preocuparia em demasia. Mas como usou a velha construção do racismo biológico, all hell broke loose!

O Ukip tem visto vários dos seus membros envolvidos em escândalos de natureza racista. Claro que o facto de a norma ser levada bem mais a sério na Inglaterra do que, por exemplo, em França, ajuda ao destaque que é dado a estes casos, e contextualiza a revolta moral que eles suscitam na esfera pública (basta ver as redes sociais). Torna-se no entanto evidente que o racismo da conselheira ultrapassa uma fronteira porque é exposto, embora quando velado na retórica anti-imigração seja mais aceitável. Torna-se também evidente que quando o Ukip dirige os seus ataques para a imigração enquanto problema social e de valores – a crise do emprego, etc – o que se encontra subjacente é o old style racism do “não consigo sentar-me perto dum preto”, como diz a conselheira.