Skip to content

A tragédia humana

Fevereiro 12, 2015

No primeiro ano do curso de economia da Universidade Nova de Lisboa há um mantra que é repetido por reputados professores: – Quando é que o Estado deve intervir na economia? Só em casos de extrema necessidade! É natural que o rebanho formatado da linha de montagem neoliberal venha a repetir tiques especialmente selecionados e incorporados pelos anos formativos. É natural que Maria José Albuquerque tenha interiorizado este mantra e que responda pavlovianamente salivando de raiva quando ouve a palavra Estado-providência. E é portanto natural que quem se bate para provar a infalibilidade deste mantra não se queira ver desmentido em circunstância alguma. Ainda dizem que a ideologia morreu. Com a discricionariedade da falsa objectividade científica, ninguém sabe bem o que será “extrema necessidade”. Por exemplo, o mantra parece ganhar em razoabilidade quando se trata de salvar bancos com resgates astronómicos – estaremos portanto perante um caso de extrema necessidade, dado que é o Estado que os tem salvo. Esta casuística valorativa permite por exemplo uma diatribe malparida ao vice-director do expresso sobre o real significado de uma tragédia humanitária. Para ele, somos forçados a concluir, que apenas o holocausto ou o tsunami tailandês podem configurar tragédias humanitárias. E chegamos a este conclusão não porque ele a explicite dizendo: apenas o holocausto configura uma tragédia humanitária. Mas porque “o desemprego (…) os que comem pouco e mal (…) e os que não têm teto” não configuram os pressupostos de uma crise humanitária. Para ele, tem que ser isso “e muito mais”. Este muito mais fica igualmente fechado no segredo da casuística valorativa, mas suspeitamos que sem holocausto, não ter emprego, não ter que comer, não ter teto, não configura em momento algum uma crise humanitária! O mantra impõe-se novamente. E mostra o estado ideológico da expressão avaliativa sobre o laço social. Mostra igualmente uma insensibilidade latente que esta gente trouxe para a coisa pública perante o sofrimento dos outros. Não tomo o Henrique Monteiro por uma besta insensível e desprovida de senso. Porém, a sua diatribe mostra de facto que a cisão entre os possidentes e os que não possuem naturalizou-se a ponto de achar que três fenómenos – desemprego, fome, falta de habitação – que são um crime caso os direitos humanos fossem mais do que uma cortina retórica, não servem como exemplos de tragédia humanitária. Mostra que estes dois mundos – os que vivem bem e os que nada têm – se tornaram incomensuráveis, na realidade invisíveis um ao outro salvo através da espectacularização mediática que liga os acontecimentos como numa narrativa telegénica: sucessão de imagens efémeras que se contradizem umas às outras (momentos de horror intercalado com jovem em êxtase porque tem um telemóvel) e se anulam mutuamente. Esta distância permite que no terreno dos valores nenhum compromisso se assuma. Assim, lá longe em África, falta de comida em uma região torna-se uma tragédia humanitária; entre portas, famílias que não têm o que comer são apenas danos colaterais das exigências do crescimento económico. Não se nega que a fome em África seja uma tragédia humanitária; mas a menorização da fome, do desemprego, da falta de habitação esconde, a um outro nível, uma larvar falta de solidariedade, diria mesmo de compaixão. É isso que temos visto no comportamento asqueroso do nosso governo perante os esforços da Grécia. Diria mesmo mais, adoptar uma tal posição é que constitui uma verdadeira tragédia humanitária. Ou a humanidade para esta gente não tivesse passado a ser um ente abstracto que se declina apenas e só no plano universal do indistinto.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: