Uma certa miopia em relação à Europa

Insiste-se por vezes na dicotomia nacional vs. transnacional como uma estrutura que esconde todas as enfermidades da Europa. Segundo esta lógica, a Europa não é mais democrática porque os seus espaços estratégicos são ainda os nacionais e como tal não permitem um plano comum que libertasse os destinos dos europeus da mesquinhez da concorrência entre Estados. Esta visão é fundamentalmente míope no que diz respeito à organização do poder e à reprodução das elites na Europa actual. Confunde identidade colectiva com distribuição do poder decisional e pensa o transnacional como o reino kantiano da paz perpétua na medida em que superaria o binómio cidadão-estado-nação. Superação essa que é julgada consequente em termos do aprofundamento da democracia para além do espaço nacional.

Todavia, não há nenhuma razão para acreditar que uma elite transnacional se comporte menos segundo padrões oligárquicos do que uma sua congénere nacional. A escala do exercício do poder tem implicações quanto ao território burocrático que este pode influenciar. Com efeito, aquilo que tem sido denominado como “federalismo executivo” implica um reforço permanente de uma burocracia de nível decisional inferior mas que se tornou indispensável dada a complexidade do processo de legiferação que a arquitectura europeia envolve.

Contrariamente ao esforço que certos colocam na superação dos limites das democracias nacionais e dos seus entorses e sua consequente transformação num espaço transnacional cuja identidade é extranacional, devemos pensar a Europa como a institucionalização de processos menos democráticos do que os pré-existentes ao nível nacional.  Neste caso, falta à Europa accountability. O Conselho da Europa, o órgão decisional por excelência não é controlado pelo parlamento; e tão pouco tem este poder de veto sobre aquele, algo que não acontece ao nível nacional, dado que, ou os parlamentos nacionais, ou os presidentes, possuem poder de veto sobre os seus governos. Dir-se-ia que o entorse reside justamente nas estratégias exclusivamente nacionais que se encontram representadas no CE. O paradoxo no entanto não passa despercebido ao próprio eleitorado que legitima através do voto ainda menos o parlamento europeu do que os seus próprios parlamentos nacionais, como mostra a queda sistemática na participação nas eleições para o primeiro. Isto porque não existe qualquer relação entre as políticas decididas pelo CE e a acção do Parlamento enquanto órgão quasi-consultivo.

Mas a nível macro, a EU tornou-se um massivo mecanismo de controlo e disciplinarização. Aqueles que vêem grandes promessas no simples facto de um aumento de escala para além do Estado-nação esquecem que a forma como esta é concebida importa tanto ou mais que a própria dinâmica escalar. Ou seja, a estruturação da EU para um sistema hayekiano de reforço do controlo do socius para acomodar as dinâmicas de mercado não é dissociável dos instrumentos e técnicas de verificação, cotejo e rectificação que a estrutura de controlo da EU instituiu. A governança, enquanto estrutura de comunicação decisional, não diminui a proliferação de centros de controlo (governo). Pelo contrário, multiplica-os, empregando formas cada vez mais refinadas de verificação que mesmo envolvendo contribuições reticulares a escalas diversas – pluralização de centros de especialização e mecanismos de certificação-rectificação em esferas contrastantes – não deixam de assumir a sua autoreferencialidade.

O segundo aspecto prende-se com o processo de recrutamento. Aqui não estamos mais perante realidades macro, mas sim mediante aquilo que se pode designar por uma “microfísica dos poderes”. Dois aspectos devem ser retidos quanto a esta matéria. Primeiro, as elites europeias recrutam-se segundo padrões nacionais e sequenciais. Por isto quero dizer que cada elemento da cadeia superior de comando, por defeito, mobiliza uma rede anterior de recrutados do seu país. Tal faz parte da necessidade de equilíbrios de poder internos e de reforço das redes de confiança no interior de instituições desvinculadas geográfica e funcionalmente dos campos nacionais de recrutamento. Por isso não é raro ver pessoas com postos de nível superior arregimentarem antigos correlegionários para reforçar as suas redes internas. No fundo, duplica os mesmos esquemas que são mobilizados a nível nacional só que agora associados a um espaço e identidade supostamente transnacional. Segundo, o sistema de recrutamento não é aleatório na exacta medida em que reproduz uma elite recrutada de lugares eles próprios representantes de focos elitistas nacionais: as grandes escolas, os institutos europeus, a capacidade de articulação linguística que as escolas de elite dotam os seus membros e que lhes permite aceder a um universo plurilingue como é o das organizações europeias.

Por isso, aqueles que pretendem ver na EU um espaço para o internacionalismo dos trabalhadores ou para a superação da real politik nacional, negligenciam o seu arcaboiço legal-burocrático que longe de ser uma máquina anónima é um sistema de parcelarização e controlo estabelecido funcionalmente para a reprodução de elites. Por outro lado, não se pretende aqui inferir que vivemos todos tolhidos pelo grande monstro burocrático que é a EU e que esmaga as raízes nacionais numa indiferenciação técnica como repetem os discursos populistas de extracção nacionalista-identitária.  A sua estrutura de multiplicação de controlos resulta num afunilamento de cúpula que traduz todos os inputs segundo um guião bem preciso. Esse tem sido o da proliferação de estratégias de mercado como leitmotiv da expansão de dispositivos (pseudo) democráticos.

Anúncios

Au revoir les enfants!

Agora que a Grécia foi obrigada a engolir a pastilha amarga do resgate (como previ no post abaixo) os acontecimentos vão desenrolar-se a uma velocidade assinalável. Não me compete fazer de Cassandra, mesmo que o património clássico grego esteja novamente na moda, como as frequentes alusões ao cavalo de tróia que preenchem as páginas dos jornais por essa Europa afora.

Obrigado a retroceder nas questões mais delicadas como sejam a continuação do programa da troika e a extensão das sucessivas life lines que ligam o país ao pulmão artificial, a Grécia capitulou. Que tal tenha acontecido não constituirá surpresa para ninguém. O problema é que Tsypras teve uma entrada de leão que redundará numa saída de sendeiro. Terá que engolir a frase “a troika não mais entrará na Grécia” o que vai ter um sabor particularmente amargo. Desde logo, porque não é líquido que a coligação da miríade de partidos que constitui o Syriza esteja toda de acordo relativamente ao tempo comprado por Varoufakis. Mas mesmo no governo, o seu parceiro de coligação nacionalista terá dificuldades em lidar com o facto do orgulho pátrio ferido. Por enquanto estamos apenas a nível da discussão de medidas de curto prazo, de estabelecimento das condições dos financiamentos futuros. Mas isto tem efeitos materiais muito concretos. Um deles, eventualmente a maior derrota que sucederá ao acordo com o Eurogrupo, é Tsypras ser obrigado a recuar na intenção de repor o salário mínimo para os níveis anteriores ao programa de reestruturação. Esse será o primeiro embate da contestação cidadã que prevejo regressará às ruas.

A minha ideia segundo a qual há uma satisfação perversa nesta Europa – fundamentalmente de natureza política – em dobrar as intenções de um governo de esquerda encontra-se bem manifesta nas declarações de Shauble, “os grecos terão dificuldades em explicar as suas decisões aos seus eleitores”. Intui-se um prazer secreto do ministro conservador pelo facto de ter encostado à parede os desejos dum país em desespero. Acrescente-se a velada facada nas costas de Djisselbloem ao afirmar, mediante a extorsão dos títulos do tesouro grego que este acordo prevê, “queremos garantir que o dinheiro seja para recapitalizar os bancos e não para financiar governos”, e temos um retrato bem exacto da Europa em que estamos e das pessoas que a governam.

Tenho dificuldade em compreender se no gizar da sua estratégia, Tsypras e Varoufakis alguma vez pensaram que a chantagem da saída da Grécia seria de tal forma desestabilizadora do projecto europeu que tornaria o Conselho da Europa refém dessa possibilidade. Muita gente à esquerda assim pensou, numa ingenuidade que me parece tão tocante quanto mentecapta. Para as oligarquias europeias sempre foi claro que o Euro sobrevive sem a Grécia, mas que a inversa era muito improvável. Neste sentido, a menos que Varoufakis tivesse um trunfo ainda não jogado (como assinalei em post anterior) nem sequer bluff seria capaz de fazer porque as condições do jogo estão de tal forma viciadas que ninguém bate o croupier. Aliás, exceptuando as fantasias holliwodescas, é suposto ser assim.

O pior é que somos forçados a dar razão a Passos quando disse que as exigências da Grécia não passavam de uma brincadeira de crianças. Utilizando uma outra metáfora da puericultura que fez furor na política nacional: ainda o bebé está na incubadora e já leva pontapés!

O tímido cavalo de Tróia

(clicar na imagem)

Existe um consenso generalizado sobre a responsabilidade da Alemanha nas crises dos países do Sul, os chamados pigs. Em certa medida esta narrativa é correcta. A Alemanha é o país mais rico da Europa, é o seu maior contribuinte líquido, e por conseguinte é natural que traduza o poder económico em político e negocial. Contudo, é demasiado ingénuo pensar que todos os outros congéneres vivem acossados pela Alemanha, sem ter a sua própria margem de manobra, ou sequer poder vetar as decisões alemãs. Observando com atenção os últimos acontecimentos em torno da dívida grega, o que verificamos é que nem uma só voz se levantou no conspecto europeu contra as medidas draconianas impostas pelo chamado Eurogrupo conluiado com o FMI. Certas personalidades envergam uma atitude ambígua, mas que não chega a ser um voto de protesto. Enquanto outras são veementemente contra qualquer acordo com a Grécia que mitigasse as condições da troika, mas escondem-se por detrás da poderosa fachada alemã. Os finlandeses por exemplo, não surgem muito nas notícias, porém já fizeram saber que não contassem com eles para qualquer acordo que sirva de paliativo à situação Grega envolvendo mais dinheiro. Portugal e a Irlanda, embora em surdina e as mais das vezes no espaço doméstico, vão servindo de forças de bloqueio contra o esforço negocial grego, e Passos Coelho, ao dar ordem para antecipar o pagamento de 14 mil milhões da dívida ao Banco Central, desautorizou o esforço grego. Por conseguinte, a Alemanha é certamente todo-poderosa, mas não está desacompanhada no cerco montado aos gregos. Holandeses, Dinamarqueses, Finlandeses, e o leste europeu em peso são taxativos em que as condições da troika devem ser cumpridas verbatim.

A Europa construiu-se contra dois perigos: o regresso do nazismo e a ameaça comunista. Na sua fundação o elemento estruturante principal  do projecto europeu é o mercado. Um grande espaço comercial, de livre circulação e troca. Apesar das forças sociais-democratas que então respaldavam este projecto, ideias de colectivização, nacionalização, eram-lhe estranhas. A liberdade republicana seria combinada com a individualidade liberal num espaço de decisão partilhada, não necessariamente democrático. Ainda hoje, depois de diversas remodelações do modelo que lhe esteve na origem, a Europa é um espaço de democracia incompleta ou fictícia. O problema reside justamente aí: como percepciona a Europa das oligarquias nacionais a entrada no seu espaço de forças de esquerda, ditas radicais, que retomam ideias de colectivização e de democracia real que repugnam as lógicas neoliberais vigentes? O falhanço do governo de Tsypras em avançar uma agenda anti-austeritária seria então, mais do que um alijar de uma sobrecarga económica, uma vitória política fundamental. A Europa do Conselho da Europa, não se impressionaria com uma saída da Grécia se isso significasse estancar a hemorragia esquerdista. Mas a questão nem se coloca, porque a Grécia teve sempre pouco espaço de manobra. Para além da questão económica, torna-se urgente levar a Grécia de volta ao redil, donde nunca devia ter saído. Tornou-se por isso crucial que o governo grego desminta as suas posições ideológicas mediante a necessidade dos factos. A extensão dos empréstimos à Grécia terá como moeda de troca a aceitação de um equivalente ao programa da troika, mesmo que Dragui não seja avesso a ver a tecnocrática troika ser substituída por negociações internas do eurogrupo – trata-se de uma operação de cosmética.

As consequências políticas deste encurralamento são inevitáveis. Por um lado, um Syriza obrigado a retomar o programa austeritário é um descrédito para as forças de esquerda emergentes no cenário europeu. Prevejo que nos próximos tempos, o Podemos será igualmente afectado; desde logo porque o eleitorado de esquerda tendo depositado tamanhas esperanças no “golpe” grego será obrigado a repensar a sua euforia. Por outro, é a vitória da retórica da inevitabilidade, apresentada doravante como verdadeiramente inexorável quando até um governo de esquerda dita radical se compromete a aceitar os seus termos.

Será isto pessimismo? Não haverá quebra com o sistema, motivo que sustenta a acção da esquerda militante? A resposta deve ser dada igualmente consoante duas vertentes. A emergência de uma resistência ao dictat europeu por mais ténues que sejam os seus resultados é desde logo de louvar. Mesmo que, paradoxalmente, essa mesma resistência ao ser dobrada mostrará que a contrario sensu resistir é indiferente. Mesmo assim, a quebra semântica com um consenso austeritário – já que os seus efeitos materiais se esfumarão provavelmente no ar das cedências pragmáticas – por si só constitui uma inovação no campo de significados da negociação política europeia. E isso é objectivamente bom. Por outro lado, a abertura desse horizonte de significado a um alter-modelo, mesmo que por breves instantes, só foi possibilitada porque o eleitorado grego elegeu um governo do Syriza. Nesse sentido, reafirma a capacidade de uma democracia moribunda reactivar novos campos simbólicos onde reinventar imagens legitimadoras que não sejam prontamente absorvidas pelo trinómio mercado-democracia-liberdade. E isso é, também, objectivamente bom.

Copenhaga, 15.30 PM

O medo começa a disseminar-se. Esse é o efeito das tácticas de guerrilha desde que estas são experimentadas. Os soldados do Islão salafista sabem isso; e a guerra entrou com eles no santuário europeu imperturbado de há meio século a esta parte. A guerra na Europa fez-se presente por diversas vezes – Bósnia, agora Ucrânia -, mas um núcleo duro persistia, como a aldeia do Asterix, inexpugnável: onde a guerra apenas era mantida por meios políticos e económicos. É a esse núcleo imperturbado que os salafistas estão a fazer chegar as suas tácticas de guerrilha. E esta assim deve ser compreendida, e não como efeito inevitável de um qualquer ultraje mediante a dominação da sociedade ocidental. O modus operandi torna-se gradualmente discernível: cada acto de vingança contra infâmias cometidas sobre o profeta vem acompanhado do assassinato de judeus. Por incrível que pareça, está a resultar. Em Braunshweig, Deutschland, cancelaram o desfile de carnaval porque se trata de um conhecido centro de salafistas e receavam que a ocasião de grandes ajuntamentos desse azo a atentados. Em Dusseldorf, um carro alegórico inspirado na causa Je suis Charlie, foi proibido de sair no desfile com medo de represálias. E suponho que estas não sejam as únicas caricaturas de uma Europa acossada pelo medo. A barbárie do Estado Islâmico, alguém o disse, não tem tanto a ver com o radicalismo das suas interpretações do corão, mas com uma estratégia precisa de suscitar da parte do ocidente a mesma reacção que em tempos teve o tecnocrático nome de shock and awe. Os meios são evidentemente mais modestos. Mas a capacidade de instilar o terror é tanto ou mais eficaz.

Entenda-se, não há discurso intercultural nem má consciência europeia que nos obrigue a tentar justificar o que se está a passar dentro de um qualquer quadro interpretativo de causalidades sociais. Ninguém pode seriamente acreditar que a liberdade de expressão para criticar o Islão deve ser limitada para não enervar salafistas com sentido estético pouco flexível. Não há maneira de acomodar “isto” no discurso da “nossa liberdade de expressão contra a deles”, das “nossas crenças” contra “as deles”. Não há maneira. Também não quero viver num mundo em que um tipo é baleado porque pintou o profeta de maneira derrisória. Quero ter o direito de dizer: – Este não é o meu profeta, e não tenho nada que com ele empatizar ou com quem o segue pelo simples facto de o seguir. Quero ter esse direito.

Se Deus fosse um activista dos direitos humanos?

Partindo da ideia de Teologia Política de Carl Schmitt, um dos últimos livros de Boaventura de Sousa Santos procura aproximar as concepções secularistas dos direitos humanos das teologias (progressistas, no caso vertente) e suas concepções diferenciadas de dignidade humana. Santos estabelece com clareza a diferença entre teologias fundamentalistas e tradicionais e os ramos progressistas e plurais que ele vê emergir em campos como os da teologia da libertação ou de certas facções progressistas islâmicas. O esforço pode portanto ser resumido como a tentativa de reaproximar concepções religiosas do valor da vida humana de concepções secularizadas do mesmo. À luz desta intenção, poderíamos inscrever este livro no retorno do religioso, enunciado (e anunciado) por especialistas da religião como Turner, Roy, Keppel, Berger, etc.

As origens dos direitos humanos, por seu turno, foram rastreadas por Hans Joas (2013) ao cristianismo e aos seus pressupostos individualistas, embora a história por ele contada não seja tão linear. Com efeito, não é tanto que os pressupostos cristãos forneçam as bases para os direitos humanos, mas sim que o cristianismo formulou uma determinada maneira de sacralizar a pessoa humana que se encontra na génese dos valores humanistas, tanto religiosos como seculares. É esta sacralização que vamos encontrar nos teóricos da revolução americana e francesa, embora esta última tenha sacraficado essa mesma entidade humana aos pressupostos maiores do universalismo do terror. A oposição a este pressuposto é facilmente encontrada em todo um corpo teórico que afirma que as religiões em geral contêm um ethos do amor e da protecção da vida humana que faz com que as origens dos direitos humanos lhe seja extensível. A este propósito encontramos afirmações similares no Hinduísmo, Budismo, Islamismo, Cristianismo, Judaísmo, etc. Porém, como salienta Joas, tais declarações enfáticas sobre o valor da vida humana são aplicáveis ao corpo dos fiéis, sendo frequentemente contrabalançadas como afirmações contra tudo o que seja exterior a este corpo.

Um outro livro repega na teoria da teologia política de Schmitt, mas toma-a na sua inteireza. Quer dizer, não apenas o Estado secular se constrói com base em conceitos teológicos secularizados, como segue o mecanismo fundamental da política: a construção do inimigo – e lembremos que para Schmitt a construção do inimigo é um trabalho existencial que não precisa de ter correspondência nem empírica com algo verificável, nem isomórfica, com algo da mesma natureza organizacional (um Estado necessita de outro Estado como seu inimigo, por exemplo). É isso que Sloterdjike aplica ao seu estudo das três religiões do Livro. Para ele – e eu acho que tem razão – os sistemas religiosos unitários, que perfilham um deus unitário, são por definição excludentes porque precisam de construir um inimigo que lhes permita duas coisas: definir uma determinada relação com a fé como única e impor uma conduta a partir dela. Nesta luta, que tem sido o aspecto mais saliente da história das três religiões do livro, só parcialmente há lugar para zonas de contacto, ou seja, estas apenas se verificam onde elas não se tornam políticas no sentido de articular elementos que inventem a unidade. As traduções interculturais de que fala Boaventura surgem no aspecto doutrinal e não nas formulações e conjunções entre política e religião. Como muito do que se joga no regresso dos fundamentalismos – seja islâmico, seja cristão – tem sido negociado nessa errática fronteira, a tradução intercultural sugere uma obrigatoriedade apenas ao nível da esfera do religioso quando esta evacua a sua organização política. Veja-se por exemplo o Estado Islâmico, o retorno do medievalismo das suas pressuposições (e métodos) não pode ser somente assacado à doutrina e ao forçar do escrituralismo que se encontra na sua propalada missão (a palavra do profeta como a verdade do mundo). Deve este também ser interpretado na sua dimensão política, e mais extensivamente, geopolítica. O medievalismo do fundamentalismo islâmico, com a utopia da recuperação da grandeza ancestral do Al-Andaluz e afins, deve ser perspectivado no contexto da redefinição das fronteiras estatais e dos seus arranjos étnicos no mundo árabe. Muitos dos críticos da presença ocidental no mundo árabe africano omitem esse facto: não é apenas o facto de as potências ocidentais perturbarem os equilíbrios pela imposição das suas políticas belicosas; é também que cada perturbação abre oportunidades para sub-grupos organizados a níveis abaixo e acima do Estado para redesenharem as fronteiras territoriais do mesmo. É justamente isso que acontece actualmente com o Iraque e o Estado Islâmico. Ora se a tradução intercultural, a julgar por Santos, é passível de ser aplicada por vertentes progressistas e pluralistas religiosas, devemos perguntar se não há uma articulação necessária entre investimentos políticos e fundamentalismos. Melhor dizendo, se o fundamentalismo não surge justamente quando em jogo estão motivações políticas, designadamente de articulação entre expansão religiosa e poder estatal. Não nos surpreendemos por conseguinte quando observamos que o fundamentalismo evangélico norte-americano surge associado a facções radicais dentro do partido Republicano cuja agenda moral “prega” no fundo uma nova configuração da relação entre o Estado e os seus cidadãos – mesmo que esta seja disfarçada pela retórica do Estado mínimo ou da simples abolição do mesmo. No Brasil podemos analisar uma mesma disposição, com a bancada evangélica, que tanto tem feito para avançar a sua agenda moral através de vetos sucessivos a medidas consideradas progressistas, a associar-se com os ruralistas, os grandes latifundiários que se opõem sistematicamente à distribuição de terras. Também aqui é uma certa ideia de Estado que é defendida, um Estado que proteja os terra-tenentes contra as reivindicações dos sem-terra, por exemplo. Em ambos os casos – e isto para fugirmos ao “sintoma” Islão quando se fala de fundamentalismos – o fundamentalismo religioso articula-se com a conquista do poder político, em sua forma organizacional, com o poder do Estado.  O conflito israelo-palestiniano não é religioso – se assim fosse poderia ser resolvido entre teólogos; mas é um conflito onde religião, território e cultura se fundem, e se reforçam num composto étnico que justifica as agressões. É esta instrumentalização política que se afigura ausente da análise de Santos. Pois não basta definir linhas de fractura entre tendências fundamentalistas e progressistas como se estas fossem estáticas e estanques.

A tragédia humana

No primeiro ano do curso de economia da Universidade Nova de Lisboa há um mantra que é repetido por reputados professores: – Quando é que o Estado deve intervir na economia? Só em casos de extrema necessidade! É natural que o rebanho formatado da linha de montagem neoliberal venha a repetir tiques especialmente selecionados e incorporados pelos anos formativos. É natural que Maria José Albuquerque tenha interiorizado este mantra e que responda pavlovianamente salivando de raiva quando ouve a palavra Estado-providência. E é portanto natural que quem se bate para provar a infalibilidade deste mantra não se queira ver desmentido em circunstância alguma. Ainda dizem que a ideologia morreu. Com a discricionariedade da falsa objectividade científica, ninguém sabe bem o que será “extrema necessidade”. Por exemplo, o mantra parece ganhar em razoabilidade quando se trata de salvar bancos com resgates astronómicos – estaremos portanto perante um caso de extrema necessidade, dado que é o Estado que os tem salvo. Esta casuística valorativa permite por exemplo uma diatribe malparida ao vice-director do expresso sobre o real significado de uma tragédia humanitária. Para ele, somos forçados a concluir, que apenas o holocausto ou o tsunami tailandês podem configurar tragédias humanitárias. E chegamos a este conclusão não porque ele a explicite dizendo: apenas o holocausto configura uma tragédia humanitária. Mas porque “o desemprego (…) os que comem pouco e mal (…) e os que não têm teto” não configuram os pressupostos de uma crise humanitária. Para ele, tem que ser isso “e muito mais”. Este muito mais fica igualmente fechado no segredo da casuística valorativa, mas suspeitamos que sem holocausto, não ter emprego, não ter que comer, não ter teto, não configura em momento algum uma crise humanitária! O mantra impõe-se novamente. E mostra o estado ideológico da expressão avaliativa sobre o laço social. Mostra igualmente uma insensibilidade latente que esta gente trouxe para a coisa pública perante o sofrimento dos outros. Não tomo o Henrique Monteiro por uma besta insensível e desprovida de senso. Porém, a sua diatribe mostra de facto que a cisão entre os possidentes e os que não possuem naturalizou-se a ponto de achar que três fenómenos – desemprego, fome, falta de habitação – que são um crime caso os direitos humanos fossem mais do que uma cortina retórica, não servem como exemplos de tragédia humanitária. Mostra que estes dois mundos – os que vivem bem e os que nada têm – se tornaram incomensuráveis, na realidade invisíveis um ao outro salvo através da espectacularização mediática que liga os acontecimentos como numa narrativa telegénica: sucessão de imagens efémeras que se contradizem umas às outras (momentos de horror intercalado com jovem em êxtase porque tem um telemóvel) e se anulam mutuamente. Esta distância permite que no terreno dos valores nenhum compromisso se assuma. Assim, lá longe em África, falta de comida em uma região torna-se uma tragédia humanitária; entre portas, famílias que não têm o que comer são apenas danos colaterais das exigências do crescimento económico. Não se nega que a fome em África seja uma tragédia humanitária; mas a menorização da fome, do desemprego, da falta de habitação esconde, a um outro nível, uma larvar falta de solidariedade, diria mesmo de compaixão. É isso que temos visto no comportamento asqueroso do nosso governo perante os esforços da Grécia. Diria mesmo mais, adoptar uma tal posição é que constitui uma verdadeira tragédia humanitária. Ou a humanidade para esta gente não tivesse passado a ser um ente abstracto que se declina apenas e só no plano universal do indistinto.