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Amanhãs que (desen)cantam?

Janeiro 26, 2015

A vitória do Syriza é motivo mais que suficiente para comoção generalizada. Pela primeira vez em muitos anos assistimos a uma vitória eleitoral expressiva de um partido fora do arco da governação, e que não seja a extrema-direita nacionalista. Anuncia igualmente que a crítica à Europa pode ser legitimada pelo plebiscito do eleitorado de esquerda e não apenas dos eurocépticos integristas e populistas. Ou pelo menos podia, até hoje. A vitória sem maioria absoluta – algo que os eleitorados europeus se contentam sistematicamente em negar aos partidos de esquerda – obrigou o Syriza a uma coligação no mínimo atípica. Os grupúsculos de esquerda que compõe o Syriza, abarcando desde os mais moderados pró-centro até partidos com posições mais extremadas encontram-se doravante na contingência de ter que negociar com os Grecos Independentes, um partido populista de direita da génese de um Ukip ou dos Democratas Suecos. Eurocépticos, retórica anti-imigração, que se articula, como aliás em toda a extrema-direita europeia, com o discurso anti-estado social e burocracia do mamute europeu. Ora o Syriza possui ideias muito diferentes em relação a qualquer um destes temas. Um dos maiores desafios do futuro governo grego vai ser como negociar estes dossiers com a agenda de direita eurocéptica dos Gregos Independentes? A meu ver o governo de coligação não vai durar muito e, perdoem-me o pessimismo, o Syriza perderá algum (se não muito) do capital de confiança angariado nestes últimos anos.

O segundo aspecto é qual a extensão da chantagem que pode o Syriza fazer com a Alemanha e com o norte da Europa? É pouca. Como se adivinhava, aquela ladainha da contaminação sistémica, do castelo de cartas do sistema financeiro europeu, era conversa fiada para os países engolirem a pílula dos programas estruturais. Hoje, as mesmas Cassandras que há cinco anos pregavam a catástrofe da contaminação sistémica, caso os programas austeritários não fossem aceites, apressaram-se a dizer que afinal o risco estava contido, e que se a Grécia caísse fora do Olimpo europeu, nenhuma desgraça daí adviria. Que os economistas são volúveis, isso já desconfiávamos; mas por vezes a sua volubilidade transforma-se em puro arrivismo. Vamos assistir a um braço de ferro contido, com uma Grécia a ser levada às cordas por uma Alemanha resoluta em defender as poupanças dos seus cidadãos? Ou estaremos à beira de presenciar uma ruptura definitiva entre a Grécia e o espaço europeu? Uma outra hipótese, actualmente colocada como uma espécie de terceira via, é a da adopção de um euro desvalorizado por parte da Grécia, que parece conduzir para uma situação onde os gregos seriam cozidos em lume brando.

Se a reacção em cadeia tão temida pelos economistas resultar no campo político, então o momento que estas eleições inauguram é histórico. Uma Europa com uma extrema-direita em acelerado crescimento, terá que ser rapidamente contrabalançada por uma esquerda afirmativa e maioritária nos parlamentos. Se o que os partidos do arco da governação conseguiram fazer durante estes anos foi abrir o espaço político à sua direita a ponto de por ele serem engolidos, então é bom, é muito bom, que surja no horizonte um contrapeso político. Aliás, para além das diatribes com a extrema-direita e o seu eurocepticismo, não temos visto os partidos mais conservadores, como Sarkozy e a UMP ou Merkel, ou os dinamarqueses, muito preocupados com a subida avassaladora da extrema-direita nos seus paísses. Ricardo Costa, no seu jeito pseudo-liberal de misturar tudo mais um par de botas, mete no mesmo saco a vitórias tão díspares como a do Podemos e a de Marie Le Pen. Do ponto de vista de uma Europa oligárquica elas até podem surgir enquanto similares. Do ponto de vista político, nada estaria mais longe. A acreditar nos projectos das respectivas forças políticas, a Front National é um típico partido neoliberal enfeudado numa linguagem nacionalista e identitária que em nada muda o projecto europeu. Afinal este mesmo projecto já conseguiu acomodar nacionalismos atávicos como os do Orbik na Hungria ou dos Sweden Democrats na Suécia. Esta não é uma daquelas situações em que o facilitismo da formulação “os extremos tocam-se” se impõe. A Europa do Podemos e do Syriza é praticamente incomensurável com a não-europa de Le Pen e dos Sweden Democrats. E era bom que os jornalistas fizessem o trabalho de casa, ou deixassem de distorcer o campo de significados político.

Mas não é justamente isso que a coligação agora encetada na Grécia prefigura? Não é essa possibilidade de unir os contrários dando razão à máxima do encontro dos extremos? Assim parece. É por isso necessário que noutros países os movimentos de esquerda emerjam vitoriosos, com maiorias absolutas, para a qual o Podemos é talvez a hipótese actualmente mais viável. Sem esse suporte transversal, o projecto Syriza estará condenado a confirmar os profetas da desgraça que olham para os dois polos da política europeia como contínuas ameaças impendentes sobre a virtude do meio.

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