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Je suis trois fois charlie

Janeiro 15, 2015

 

Je suis Charlie I

A esquerda contentinha, e sofrendo de uma qualquer má consciência que carrega todos os males da humanidade, decidiu dizer que não era charlie. Que o que charlie fazia era amarfanhar os fracos reiterando, em silenciosa e subliminar homologia, o jogo dos poderosos. O que charlie fazia era alienar os muçulmanos, esteriotipá-los e colocá-los na margem do espectro dos “aceitáveis” das sociedades ocidentais. Disse também que devíamos olhar para a guerra contra o terrorismo para percebermos as razões profundas dos fréres koachi. E acrescentou que a liberdade de religião é igualmente a liberdade de não ofender as pessoas nas suas convicções. Que o espaço do laicismo francês é na realidade um espaço manipulado que deforma o islão proibindo-lhe as liberdades mais básicas como o uso da burca, ou do véu em espaços públicos (Leonard Boff sic). Começo por aqui. Como falar de espaços de liberdade sem interrogar as próprias deturpações e entorses a essa mesma liberdade dentro da esfera religiosa, em particular o islão? Como fazer um discurso autorizador da burca em defesa da liberdade religiosa sem entrar em linha de conta o que esse dito hábito cultural tem de infame para a mulher? Como defender o véu em espaços públicos como necessidade do sentimento religioso sem considerar as ramificações – simbólicas e biológicas – que um tal artefacto possui relativamente a uma ideia de sexualidade humana, conservadora e, mais uma vez, subalternizadora do papel feminino? Como não pensar a religião, enfim, naquilo que ela tem de intolerante e de – uso a palavra com propriedade – perverso? As questões levantadas pela esquerda surgem como tentativas alucinadas de completar a quadratura do círculo: criemos espaços de liberdade onde possam medrar expressões coartadoras dessa mesma liberdade. Charb questionava-se, com toda a razão, por que razão sendo o islão a segunda religião em França se sabe tão pouco sobre a sua teologia, sobre os seus ensinamentos, sobre o papel do seu profeta? Por que razão não se pode discutir abertamente o islão sem que com isso nos caia uma fatwa implícita de arrolamento à islamofobia?

Certo, o islão não é homogéneo. É plural e no seu seio alberga uma variedade de posturas e concepções. Esta frase, de tão repetida, prima pelo seu valor pleonástico. Em verdade, pode ser aplicada a qualquer comunidade: nenhuma é homogénea e não nos surpreendamos se no seu interior encontrarmos veios de pluralidade que nos obrigam a ter uma leitura diferenciadora das suas facetas. Mas isto não quer dizer que não haja realmente facções radicais e conservadoras dentro dessa mesma comunidade. Isto é verdade para o islão, como é para o judaísmo e certamente para o cristianismo. Significa então que não podemos ter uma visão crítica – e não apenas conceptualmente crítica: mas activamente crítica – dessas mesmas facções? Quando Leonard Boff refere que Charlie Hebdo devia ter sido impedido de continuar a sua senda (supostamente) islamofóbica pelos meios legais, e que tal não aconteceu porque os muçulmanos se encontram numa posição de inferioridade estrutural na nação francesa, a conclusão necessária é a frase repetida em surdina em certos meios islâmicos: – Eles estavam a pedi-las! Mesmo que Boff se apresse a dizer rapidamente o contrário, a conclusão só pode ser essa. Tivesse o direito francês respeitado as crenças alheias e nada disto teria acontecido. Pensamento tão perigoso quanto tacanho. Mas eu proponho uma experiência intelectual. Por que razão, pela mesma ordem de ideias, não posso eu justificar a proibição da burca? Se esta ofende uma maioria que não se revê no lugar de subalternidade que é imposto à mulher, então deve ser proibida. Sou a favor da proibição da burca, mas não por causa disto – insisto apenas que a mesma lógica levaria fatalmente a esta conclusão. O uso da burca deve ser proibido, não porque vai contra os desejos de uma maioria nacional, mas porque diminui a humanidade de quem é forçado a usá-la. Se me preocupo em ferir os sentimentos religiosos dos crentes do islão por lhes  estar a diminuir a humanidade, por que razão não o hei-de fazer por relação às mulheres alvos de tal abuso?

É tempo de deixar de permitir que as religiões existam em caixas fechadas dentro de um espaço laico onde elas possam coexistir sem serem interrogadas em nome do direito à convicção dos seus crentes. A blasfémia deve ser igualmente reivindicada pelos ateístas militantes, na medida em que passaríamos a considerar blasfemos certos actos das comunidades de crentes que atentam contra as nossas convicções. Ou será que apenas os religiosos podem ter convicções fortes e inamovíveis?

Je suis charlie II

Um segundo aspecto da crítica de esquerda contentinha é asseverar que cada acção tem uma reacção, ou seja, a guerra imperialista contra o terrorismo, as experiências de violência por que tantos dos jovens muçulmanos têm passado, potencia e, ficamos com a sensação, autoriza estes comportamentos. Não há dúvida que a manipulação política é tremenda na chamada guerra contra o terrorismo. Não há dúvida que aquilo que ontem era um exército de heróis a lutar contra Bashar Al-Assad é actualmente demonizado como o terror renascido do ISIS. Porém, significa isto que a culpa deve ser assacada ao ocidente, numa espécie de inversão profilática da fórmula The west against the rest de Huntington? É demasiado redutor para não dizer ingénuo. As lutas entre facções dentro do próprio islão, manipuladas por Estados árabes e suas dinastias, devem-nos lembrar que milhares de muçulmanos têm morrido às mãos de outros muçulmanos, e que a situação explosiva no mundo árabe não pode ser de maneira nenhuma somente explicada pelas obscuras manobras do imperialismo ocidental. Mas para além disso, um tal estado de confrontação não explica de maneira nenhuma os jovens “guerreiros” do ISIS que imigram das suas capitais europeias para se juntarem à jihad. A recusa da esquerda em reflectir sobre este fenómeno tem que ser levada à laia de estupidez e casmurrice pura. Por que razão se junta um jovem de Mem-Martins, que não possui qualquer raiz cultural muçulmana e cuja conversão possui uns poucos de anos, a um exército facínora que diz matar em nome de Alah e da purificação da umma? Onde está o trauma histórico que remanesceu da imposição da dominação pelo grande satã ocidental? Será Mem-Martins um foco da dominação branca, ocidental onde os seus “filhos” encontrem apenas uma razão de vida através da violência dum Estado militar? Podemos colocar a mesma questão em relação aos irmão Koachi – que espécie de trauma histórico terão eles experienciado num balieu parisiense onde se embebedavam, drogavam e tinham sexo como qualquer adolescente? E teria sido Jorge Jesus um potencial criminoso só porque nasceu e cresceu nesse território desolado chamado Reboleira? Não percebendo o que se passa ao nível micro reenviamos a explicação para os largos ombros do processo histórico e carregamos com o peso inamovível do crime irremível cometido pela sociedade ocidental e pela reprodução hodierna das suas estruturas coloniais. Ora o que auscultamos nas entrevistas destes recrutados e convertidos das periferias são fundamentalmente duas coisas: um fascínio pela disciplina da vida militar que eles fazem equivaler à estrita obediência da conduta religiosa, combinada com uma apologia da violência, do direito de matar o mais fraco pela simples razão da supremacia do mais forte. O fascínio pela militarização das condutas e no fundo da própria vida vivida – a compulsão pelo exercício, a renúncia aos simples prazeres que outrora se acalentavam – é o fenómeno que convém explicar; e sobretudo perceber porque razão surge ele com esta disseminação nos espaços de prática do islão? Para ser justo, existe uma outra esfera onde este fascínio é igualmente sentido: a extrema-direita radical, nazi, militarizada. Será que esta resulta igualmente de espaços de exclusão, de falta de referências, de becos-sem-saída sociais? O exemplo do PEGIDA na Alemanha e da Golden Dawn na Grécia não oferecem suporte para estas conclusões. Mas que diriam os nossos amigos dos limites da liberdade de expressão se um dos braços militarizados destas facções políticas decidisse entrar por um jornal de esquerda e metralhar os seus redactores porque não concordam com as suas visões; ou pôr fogo a coberto da noite em instalações onde se encontram instalados refugiados? Quem estiver com atenção chegará facilmente à conclusão que em diferentes contextos ambos os exemplos já aconteceram. Porém, como dizem os nossos amigos americanos you can’t correct a wrong with another wrong – é por isso que uma espécie de má-fé na consciência social de uma certa esquerda se insinua para justificar os acontecimentos de Paris. São injustificáveis, embora possamos tentar compreendê-los.

Je suis charlie III

Finalmente, a liberdade de expressão, e aquele que me parece o argumento mais patético. Diz Boaventura “Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse”, em relação a existirem limites a essa mesma liberdade. Mais uma vez isto é um facto e os exemplos são muitos, para além daqueles que o próprio autor oferece. Como diz Leonard Boof na sua crónica, chama-se censura e existe entre nós nas mais diversas esferas de opinião. O problema da censura está na substância da mesma e não na sua forma abstracta de censurar aquilo que faz outros infelizes. A discussão deve ser então sobre a substância daquilo que faz os outros infelizes. E aqui as perguntas sobre a natureza da ofensa tornam-se sobejamente pertinentes. Com efeito, em vez de acusarmos o charlie hebdo de uma deriva islamofóbica – como faz Boaventura e Boff – devíamos investigar o que há exactamente de islamofóbico nas suas caricaturas. Por exemplo, se eu acreditar que Israel pertence por direito divino aos judeus, então dizer que Israel não deve necessariamente ser invocado como Estado judaico passa ipso facto a ser considerado antisemita. Ora se eu não concordo com o estabelecer desta relação, por que razão hei-de aceitar que caricaturar o profeta é islamofóbico? Mas mesmo que acredite, como parece ser o caso de Boaventura, então tenho que admitir que o Charlie era também catolofóbico, porque caricaturava sistematicamente as elites da igreja católica como homossexuais ou pedófilas. O que faz então com que uma “aliene” os muçulmanos e a outra seja aceitável? E o mesmo para as figuras políticas: porque razão não me hei-de preocupar igualmente pelo facto de charlie hebdo estar a “alienar” o eleitorado de extrema-direita? A resposta é muita simples: quem não se identifica com o Charlie Hebdo não o compre nem o leia.

Imaginem que eu como careca me sentia insultado porque nos escaparates das papelarias só vejo representados jovens com garbosas cabeleiras – sentir-me-ei alienado porque não faço parte da modalidade central do que é concebido como atraente? Tough luck! Não vou exigir que sejam banidas tais representações apenas porque nelas não me vejo representado. O mais especioso do argumento no entanto é pensar que há alguma obrigação moral para com o islão que existe eticamente acima de outros potenciais objectos. E onde ficam os limites da liberdade de expressão quando porta-vozes do islão criticam abertamente a homossexualidade considerando-a uma doença (e da igreja católica)?

O politicamente correcto que leva a retirar o Tintim na África dos escaparates das livrarias britânicas é hediondo. O mesmo seria caso tivessem impedido o Charlie Hebdo de publicar as suas caricaturas – um jornal satírico e irreverente cuja função é justamente caricaturar. Seria muito triste se em Espanha tivessem proibido La Bíblia contada a los passotas, publicada pelo Jueves, uma paródia do princípio ao fim ao livro “sagrado” dos cristãos. Mas pela mesma ordem de ideias dos nossos dois plumitivos teríamos que concordar que Rushdie deveria ter sido queimado – ou quanto muito os seus versos satânicos – para que uma comunidade não se sentisse ofendida.

A esquerda por vezes assume uma figura de burra confrangedora.

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