A soberania da Nação Europa

Wie Griechen: Darum wollen wir auch einen Schuldenschnitt!

Fotografia do jornal alemão Bild onde se pode ler que o alemão comum também quer um corte na dívida (“Porque devo eu pagar e os gregos não?”)

A plutocracia europeia está tão habituada a ter fantoches por governos que fica histérica quando um governo faz realmente aquilo que anunciou. Habituados a terem governos com Passos Coelho e Sócrates (para ficarmos apenas por Portugal), Merkel, Junker e as oligarquias que os sustêm espinoteiam mediante o facto de Tsipras estar a fazer aquilo que prometeu fazer durante cinco anos. De tão acostumados em ter candidatos que prometem e depois fazem exactamente ao contrário daquilo que prometeram nas campanhas (Passos) não lhes entra na cabeça que alguém possa de facto querer cumprir as promessas que fez durante a campanha. Daí que a histeria que vai da Alemanha ao Reino Unido, passa pela Holanda e acaba na Polónia, perante as “drásticas” medidas do governo grego, só pode ser tida à conta do laxismo jornalístico, aquele jornalismo que responde a grupos de interesse, mas está sempre pronto a falar de deontologia. Na Alemanha, expressões como “ameaça grega”, “catástrofe iminente”, “tiros nos pés”, “contra a Europa”, etc. A quebra do consenso europeu nas sanções contra a Rússia é algo que preocupa os alemães. Não porque a opinião grega mude o que quer que seja, mas porque bloqueia o unanimismo que se construiu em torno de Merkel e das suas políticas. Ou seja, a quebra do consenso é mais simbólica do que efectiva, e tem por alvo o estatuto de soberania indisputada da Alemanha sobre a Europa. Na guerra que reúne o campo alemão contra a Grécia, uma estratégia de isolamento começa a definir-se. Afinal de contas, os filhos de George Bush aprenderam bem a lição: ou estão comigo ou estão contra mim. Mas é preciso de facto surgir uma linha de fractura no horizonte europeu para se perceber que o projecto europeu é sobretudo um projecto soberanista. Longe vão portanto as ilusões de uma Europa transnacional, apostada num patriotismo constitucional, e numa linha procedimental da governança política. O que o jogo com a Grécia mostra é justamente as lutas pela preservação do campo da soberania, leia-se do Estado.

The game is afoot

Tsipras começou a jogar duro. E parece estar a jogar como se tivesse um grande trunfo ou a fazer um bluff genial. Parte da sua acção sugere que o economista Yanis Varoufakis saiba exactamente em que botões carregar para provocar a renegociação da dívida de 320 biliões que hipoteca o futuro da Grécia. As mensagens já começaram a ser enviadas pelo governo do Syriza. Cancelamento do acelerado programa de privatizações posto em marcha por Samaras. Começou pela companhia nacional de energia e pelo porto do Pireu, este último prometido pelo anterior governo a um consórcio chinês. A promessa de um aumento do salário mínimo, ou melhor do regresso do salário mínimo aos seus antigos 771 euros, acabando com a depressão imposta pelo programa da troika para os 500 euros. E sobretudo, a caça aos oligarcas e à fraude fiscal. Assim de repente parecem coisas quase impossíveis de serem geridas, quanto mais de produzirem resultados benéficos. A oligarquia grega terá os seus biliões protegidos em bancos suíços ou em paraísos fiscais. Como chegar a eles? Ninguém imagina como atacar as oligarquias portuguesas, que não seja através da judicialização cujo desfecho invariável é a prescrição dos processos realmente importantes. Na Grécia não tem sido diferente, sendo que o nível de impunidade é ainda maior.

Tsipras opõe-se à Europa em duas frentes maiores da política da União. Primeiro, o saneamento económico draconiano imposto pela troika e pelo banco central europeu. Segundo, a política externa, questão em que o governo do Syriza terá uma posição muito heterodoxa. Neste campo, a aproximação à Rússia de Putin parece ser tão atípica quanto a coligação com Kamennos, líder dos Gregos Independentes. Mas a esse propósito estão os dois de acordo. Não por acaso a pasta da defesa foi entregue a Kamennos. O governo grego contará talvez com a Rússia para o caso das negociações com a Europa falharem. A moeda de troca é o apoio diplomático no caso ucraniano. Tsipras mostrara-se já por diversas vezes contra as sanções impostas à Rússia. Mas agora pode fazer valer a sua voz no Conselho da Europa, como o fez imediatamente ao discordar do texto que avançava mais sanções contra a Rússia. Ora, neste jogo, Putin é a chamada wild card – ninguém sabe o que lá está. Tanto se congratula pela eleição de Tsipras como tece loas à extrema-direita europeia. Dir-se-ia que como aliado é no mínimo perigoso.

No plano social e económico, se resultarem as mudanças (e esperemos que sim) teremos finalmente um exemplo fundado na empíria com que contrariar a ortodoxia iluminada que nos governa. Por exemplo, Tsipras anunciou imediatamente o fim das mobilizações obrigatórias de trabalhadores contra a vontade dos sindicatos. Lembra a TAP e o esmagamento dos seus sindicatos por parte do governo psd-cds. Esta estratégia tem percursores e pode bem ser considerada o ponto de viragem para a absolutização do neoliberalismo. Lembremos que assunção absoluta da total flexibilização do trabalho aconteceu quando Reagan conseguiu esmagar a greve dos controladores aéreos, despedindo mais de cem mil sob a justificação de comportamento desleal para com a nação. Nunca mais houve uma greve de tal dimensões nos Estados Unidos da América. Mas terá Tsipras e o seu governo força para dobrar o capital multinacional a aceitar condições laborais que o seu financeirismo há algum tempo que desconhece? Tudo isto seriam boas notícias, mas a impressão que dá é a dum Rio Ave a jogar contra o Real Madrid – gente esforçada que acaba por ser esmagada pelo dinheiro. Talvez Tsipras e Varoufakis tenham mais trunfos na manga do que aparenta.

Amanhãs que (desen)cantam?

A vitória do Syriza é motivo mais que suficiente para comoção generalizada. Pela primeira vez em muitos anos assistimos a uma vitória eleitoral expressiva de um partido fora do arco da governação, e que não seja a extrema-direita nacionalista. Anuncia igualmente que a crítica à Europa pode ser legitimada pelo plebiscito do eleitorado de esquerda e não apenas dos eurocépticos integristas e populistas. Ou pelo menos podia, até hoje. A vitória sem maioria absoluta – algo que os eleitorados europeus se contentam sistematicamente em negar aos partidos de esquerda – obrigou o Syriza a uma coligação no mínimo atípica. Os grupúsculos de esquerda que compõe o Syriza, abarcando desde os mais moderados pró-centro até partidos com posições mais extremadas encontram-se doravante na contingência de ter que negociar com os Grecos Independentes, um partido populista de direita da génese de um Ukip ou dos Democratas Suecos. Eurocépticos, retórica anti-imigração, que se articula, como aliás em toda a extrema-direita europeia, com o discurso anti-estado social e burocracia do mamute europeu. Ora o Syriza possui ideias muito diferentes em relação a qualquer um destes temas. Um dos maiores desafios do futuro governo grego vai ser como negociar estes dossiers com a agenda de direita eurocéptica dos Gregos Independentes? A meu ver o governo de coligação não vai durar muito e, perdoem-me o pessimismo, o Syriza perderá algum (se não muito) do capital de confiança angariado nestes últimos anos.

O segundo aspecto é qual a extensão da chantagem que pode o Syriza fazer com a Alemanha e com o norte da Europa? É pouca. Como se adivinhava, aquela ladainha da contaminação sistémica, do castelo de cartas do sistema financeiro europeu, era conversa fiada para os países engolirem a pílula dos programas estruturais. Hoje, as mesmas Cassandras que há cinco anos pregavam a catástrofe da contaminação sistémica, caso os programas austeritários não fossem aceites, apressaram-se a dizer que afinal o risco estava contido, e que se a Grécia caísse fora do Olimpo europeu, nenhuma desgraça daí adviria. Que os economistas são volúveis, isso já desconfiávamos; mas por vezes a sua volubilidade transforma-se em puro arrivismo. Vamos assistir a um braço de ferro contido, com uma Grécia a ser levada às cordas por uma Alemanha resoluta em defender as poupanças dos seus cidadãos? Ou estaremos à beira de presenciar uma ruptura definitiva entre a Grécia e o espaço europeu? Uma outra hipótese, actualmente colocada como uma espécie de terceira via, é a da adopção de um euro desvalorizado por parte da Grécia, que parece conduzir para uma situação onde os gregos seriam cozidos em lume brando.

Se a reacção em cadeia tão temida pelos economistas resultar no campo político, então o momento que estas eleições inauguram é histórico. Uma Europa com uma extrema-direita em acelerado crescimento, terá que ser rapidamente contrabalançada por uma esquerda afirmativa e maioritária nos parlamentos. Se o que os partidos do arco da governação conseguiram fazer durante estes anos foi abrir o espaço político à sua direita a ponto de por ele serem engolidos, então é bom, é muito bom, que surja no horizonte um contrapeso político. Aliás, para além das diatribes com a extrema-direita e o seu eurocepticismo, não temos visto os partidos mais conservadores, como Sarkozy e a UMP ou Merkel, ou os dinamarqueses, muito preocupados com a subida avassaladora da extrema-direita nos seus paísses. Ricardo Costa, no seu jeito pseudo-liberal de misturar tudo mais um par de botas, mete no mesmo saco a vitórias tão díspares como a do Podemos e a de Marie Le Pen. Do ponto de vista de uma Europa oligárquica elas até podem surgir enquanto similares. Do ponto de vista político, nada estaria mais longe. A acreditar nos projectos das respectivas forças políticas, a Front National é um típico partido neoliberal enfeudado numa linguagem nacionalista e identitária que em nada muda o projecto europeu. Afinal este mesmo projecto já conseguiu acomodar nacionalismos atávicos como os do Orbik na Hungria ou dos Sweden Democrats na Suécia. Esta não é uma daquelas situações em que o facilitismo da formulação “os extremos tocam-se” se impõe. A Europa do Podemos e do Syriza é praticamente incomensurável com a não-europa de Le Pen e dos Sweden Democrats. E era bom que os jornalistas fizessem o trabalho de casa, ou deixassem de distorcer o campo de significados político.

Mas não é justamente isso que a coligação agora encetada na Grécia prefigura? Não é essa possibilidade de unir os contrários dando razão à máxima do encontro dos extremos? Assim parece. É por isso necessário que noutros países os movimentos de esquerda emerjam vitoriosos, com maiorias absolutas, para a qual o Podemos é talvez a hipótese actualmente mais viável. Sem esse suporte transversal, o projecto Syriza estará condenado a confirmar os profetas da desgraça que olham para os dois polos da política europeia como contínuas ameaças impendentes sobre a virtude do meio.

O affaire Houellebecq ou o fascínio pela destruição

 

Estou a acabar de ler o novo livro de Houellebecq, Soumission. Eis um exemplo perfeito de islamofobia. Este livro é instrutivo quanto ao discurso dos limites assimétricos da liberdade de expressão, e mostra bem como a esquerda possui vistas curtas quando pretende esgrimir com um conceito de islamofobia demasiado elástico. O problema está exactamente aí: ao torná-lo tão elástico impede que o campo discursivo possa ter espaço para distinguir as caricaturas do Charlie Hebdo de Soumission. Ao colocar tudo sob o mesmo anátema, não permite de facto, perceber a islamofobia exacerbada do livro de Houellebecq; ou quanto muito, ilude a sua plenitude numa confusão de objectos da crítica que deixam de poder ser julgados objectivamente. O que faz então do livro de Houellebecq o perfeito documento islamofóbico? Diria que são três aspectos principais cuja estrutura vamos encontrar intocada no antissemitismo clássico.

O enredo é fascinante e conta-se em duas pinceladas: a França está à beira de escolher eleitoralmente entre a Front Nationale e um governo islâmico. Esta distopia passa-se num futuro próximo. Os árabes são de tal forma numerosos que a possibilidade de ter um presidente de origem (etnicamente) argelina é fortíssima. Um professor universitário, que só está lá porque é o próprio Houellebecq, começa-se a inteirar da dimensão do problema. A educação será açambarcada pelo ensino obrigatório do Islão, e regras de conduta moral islâmicas serão impostas no sistema educativo, tais como classes separadas de acordo com o género, e mesmo a introdução da poligamia no sistema legal francês. É um ataque geral aos valores da república. A esquerda, maviosa e oportunista, coopera com este estado de coisas – afinal a sua agenda anti-racista levou a situação a este desfecho: Valls cede às reivindicações da “Irmandade Islâmica” o partido que se perfila para ficar em segundo lugar nas eleições presidenciais e discutir a segunda volta com Marie Le-Pen, entrando num acordo para um governo de coligação. Hollande é um político fajuto que só pra lá anda para fazer tempo até ao término do seu mandato. Entre a iminente barbárie e a salvação da república apenas a Front Nationale se interpõe, ou o movimento dos identitaristas, numa inversão curiosa da lógica das políticas de identidade com o seu esquerdismo estruturante. Os árabes são caracterizados como argutos e estrategas; a esquerda como cediça e n’ import quoi, e apenas a direita radical possui os brios da virilidade ocidental. Os judeus de França aterrorizados perante tal perspectiva fazem as malas e debandam para Israel que lhes oferece guarida (Houllebecq parece ter o dom da presciência!)

Primeiro, tal como no antissemitismo clássico, o árabe assume a figura prototípica do corruptor do Estado. Tal como no mito do judeu reprodutor que acabará por substituir os legítimos descendentes da nação, também França acabou por ver um surto demográfico dos descendentes de árabes. E por culpa de quem? Do burguês enfastiado que não faz mais filhos e que apenas se dedica à lubricidade do consumo. O antissemitismo clássico, previa igualmente que os judeus se reproduziriam a uma velocidade bem mais rápida, dada a injunção religiosa para o fazerem. Mas também os racismos anti-negros sempre especularam relativamente ao número, ao perigo da reprodução acelerada daqueles que eram vistos como corruptores da pureza original. E também em Soumission, os árabes reproduzem-se porque as normas religiosas assim o levaram a fazer. Por conseguinte, enquanto os europeus foram laxistas e se embriagaram com o seu hedonismo, os árabes trabalhavam na clandestinada, perseverante e conscientemente, a fazer filhos.

O segundo aspecto é o velho tropo da aliança entre a esquerda e os judeus. Esta foi uma das mais reiteradas associações do antissemitismo nazi. Não apenas os intelectuais judeus eram frequentemente do partido comunista ou socialista – o que eram, de facto – como o comportamento do judeu sem pátria – o pária que não obedece à identificação com o Volk – era assimilado ao internacionalismo proletário. Também em Soumission a esquerda abre a porta para uma coligação com o partido islâmico, sabotando assim o último bastião da república. A esquerda sem valores reais está pronta a tudo para não deixar Marie Le-Pen instalar-se no Eliseu. Uma UMP em estado cadavérico, claudica entre as duas facções. E perante a indefinição do resultado eleitoral, a guerra civil vai ficando iminente, fazendo já as suas aparições a espaços nos lugares sagrados da capital francesa.

Finalmente, uma conspiração em grande escala para a islamização da Europa encontra-se em preparação. Parte do seu suporte vem dos petrodólares dos regimes ricos da África do Norte e Médio Oriente. Esta ideia de um poder subterrâneo que vai fazendo o seu caminho à custa da sua riqueza é também típica da retórica antissemita.

O que vemos por conseguinte é que a islamofobia reitera a estrutura do antissemitismo porque subjacente a ela se encontram mecanismos mais genéricos, como seja o da criação de um bode expiatório, ou a corrupção de um Estado pela poluição de um grupo que não lhe pertence por inerência. Os árabes são descritos segundo categorias do antissemitismo: são argutos conquanto dissimulados; vivem para a manutenção do seu patriarcal; e querem a expansão da sua fé em detrimento da dos outros.

No meio disto há Houellebecq (ou a personagem do professor universitário que, como noutros romances do autor, não faz mais do que funcionar como seu alter-ego), nauseado com quase tudo, desinteressado de política, carregando às costas a salvação dos clássicos da literatura francesa enquanto diariamente se vê confrontado com turmas ora de chineses memorizadores ou de raparigas de burca. A França etnicizou-se e não há maneira de lhe dar a volta. Na escapatória ao “deluge” que se adivinha, o professor (Houellebecq) foge para o campo, e vai parar a Martel, terra que deve o nome a Charles Martel e que vive enquanto homenagem ao fim da avançada muçulmana em Poitiers.

Eis portanto um livro islamofóbico. Porém, quer isto dizer que não deve ser lido? Sempre achei que Houellebecq tem o dom de fazer as tiradas de revistas da moda parecerem literatura e que os seus alter-egos blasés e cheios de ennui pelo mundo e pelos outros funcionam bem como uma literatura decadentista de que ele não se furta a ser o arauto – o escritor maldito da contemporaneidade. E por isso se lê com uma facilidade de um page turner: frases sincopadas e mordazes q.b. que estando longe de serem boa literatura, provocam o prazer voyerista a que todos ambicionamos actualmente. Nós pedimos e Houellebecq acede dar.

Je suis trois fois charlie

 

Je suis Charlie I

A esquerda contentinha, e sofrendo de uma qualquer má consciência que carrega todos os males da humanidade, decidiu dizer que não era charlie. Que o que charlie fazia era amarfanhar os fracos reiterando, em silenciosa e subliminar homologia, o jogo dos poderosos. O que charlie fazia era alienar os muçulmanos, esteriotipá-los e colocá-los na margem do espectro dos “aceitáveis” das sociedades ocidentais. Disse também que devíamos olhar para a guerra contra o terrorismo para percebermos as razões profundas dos fréres koachi. E acrescentou que a liberdade de religião é igualmente a liberdade de não ofender as pessoas nas suas convicções. Que o espaço do laicismo francês é na realidade um espaço manipulado que deforma o islão proibindo-lhe as liberdades mais básicas como o uso da burca, ou do véu em espaços públicos (Leonard Boff sic). Começo por aqui. Como falar de espaços de liberdade sem interrogar as próprias deturpações e entorses a essa mesma liberdade dentro da esfera religiosa, em particular o islão? Como fazer um discurso autorizador da burca em defesa da liberdade religiosa sem entrar em linha de conta o que esse dito hábito cultural tem de infame para a mulher? Como defender o véu em espaços públicos como necessidade do sentimento religioso sem considerar as ramificações – simbólicas e biológicas – que um tal artefacto possui relativamente a uma ideia de sexualidade humana, conservadora e, mais uma vez, subalternizadora do papel feminino? Como não pensar a religião, enfim, naquilo que ela tem de intolerante e de – uso a palavra com propriedade – perverso? As questões levantadas pela esquerda surgem como tentativas alucinadas de completar a quadratura do círculo: criemos espaços de liberdade onde possam medrar expressões coartadoras dessa mesma liberdade. Charb questionava-se, com toda a razão, por que razão sendo o islão a segunda religião em França se sabe tão pouco sobre a sua teologia, sobre os seus ensinamentos, sobre o papel do seu profeta? Por que razão não se pode discutir abertamente o islão sem que com isso nos caia uma fatwa implícita de arrolamento à islamofobia?

Certo, o islão não é homogéneo. É plural e no seu seio alberga uma variedade de posturas e concepções. Esta frase, de tão repetida, prima pelo seu valor pleonástico. Em verdade, pode ser aplicada a qualquer comunidade: nenhuma é homogénea e não nos surpreendamos se no seu interior encontrarmos veios de pluralidade que nos obrigam a ter uma leitura diferenciadora das suas facetas. Mas isto não quer dizer que não haja realmente facções radicais e conservadoras dentro dessa mesma comunidade. Isto é verdade para o islão, como é para o judaísmo e certamente para o cristianismo. Significa então que não podemos ter uma visão crítica – e não apenas conceptualmente crítica: mas activamente crítica – dessas mesmas facções? Quando Leonard Boff refere que Charlie Hebdo devia ter sido impedido de continuar a sua senda (supostamente) islamofóbica pelos meios legais, e que tal não aconteceu porque os muçulmanos se encontram numa posição de inferioridade estrutural na nação francesa, a conclusão necessária é a frase repetida em surdina em certos meios islâmicos: – Eles estavam a pedi-las! Mesmo que Boff se apresse a dizer rapidamente o contrário, a conclusão só pode ser essa. Tivesse o direito francês respeitado as crenças alheias e nada disto teria acontecido. Pensamento tão perigoso quanto tacanho. Mas eu proponho uma experiência intelectual. Por que razão, pela mesma ordem de ideias, não posso eu justificar a proibição da burca? Se esta ofende uma maioria que não se revê no lugar de subalternidade que é imposto à mulher, então deve ser proibida. Sou a favor da proibição da burca, mas não por causa disto – insisto apenas que a mesma lógica levaria fatalmente a esta conclusão. O uso da burca deve ser proibido, não porque vai contra os desejos de uma maioria nacional, mas porque diminui a humanidade de quem é forçado a usá-la. Se me preocupo em ferir os sentimentos religiosos dos crentes do islão por lhes  estar a diminuir a humanidade, por que razão não o hei-de fazer por relação às mulheres alvos de tal abuso?

É tempo de deixar de permitir que as religiões existam em caixas fechadas dentro de um espaço laico onde elas possam coexistir sem serem interrogadas em nome do direito à convicção dos seus crentes. A blasfémia deve ser igualmente reivindicada pelos ateístas militantes, na medida em que passaríamos a considerar blasfemos certos actos das comunidades de crentes que atentam contra as nossas convicções. Ou será que apenas os religiosos podem ter convicções fortes e inamovíveis?

Je suis charlie II

Um segundo aspecto da crítica de esquerda contentinha é asseverar que cada acção tem uma reacção, ou seja, a guerra imperialista contra o terrorismo, as experiências de violência por que tantos dos jovens muçulmanos têm passado, potencia e, ficamos com a sensação, autoriza estes comportamentos. Não há dúvida que a manipulação política é tremenda na chamada guerra contra o terrorismo. Não há dúvida que aquilo que ontem era um exército de heróis a lutar contra Bashar Al-Assad é actualmente demonizado como o terror renascido do ISIS. Porém, significa isto que a culpa deve ser assacada ao ocidente, numa espécie de inversão profilática da fórmula The west against the rest de Huntington? É demasiado redutor para não dizer ingénuo. As lutas entre facções dentro do próprio islão, manipuladas por Estados árabes e suas dinastias, devem-nos lembrar que milhares de muçulmanos têm morrido às mãos de outros muçulmanos, e que a situação explosiva no mundo árabe não pode ser de maneira nenhuma somente explicada pelas obscuras manobras do imperialismo ocidental. Mas para além disso, um tal estado de confrontação não explica de maneira nenhuma os jovens “guerreiros” do ISIS que imigram das suas capitais europeias para se juntarem à jihad. A recusa da esquerda em reflectir sobre este fenómeno tem que ser levada à laia de estupidez e casmurrice pura. Por que razão se junta um jovem de Mem-Martins, que não possui qualquer raiz cultural muçulmana e cuja conversão possui uns poucos de anos, a um exército facínora que diz matar em nome de Alah e da purificação da umma? Onde está o trauma histórico que remanesceu da imposição da dominação pelo grande satã ocidental? Será Mem-Martins um foco da dominação branca, ocidental onde os seus “filhos” encontrem apenas uma razão de vida através da violência dum Estado militar? Podemos colocar a mesma questão em relação aos irmão Koachi – que espécie de trauma histórico terão eles experienciado num balieu parisiense onde se embebedavam, drogavam e tinham sexo como qualquer adolescente? E teria sido Jorge Jesus um potencial criminoso só porque nasceu e cresceu nesse território desolado chamado Reboleira? Não percebendo o que se passa ao nível micro reenviamos a explicação para os largos ombros do processo histórico e carregamos com o peso inamovível do crime irremível cometido pela sociedade ocidental e pela reprodução hodierna das suas estruturas coloniais. Ora o que auscultamos nas entrevistas destes recrutados e convertidos das periferias são fundamentalmente duas coisas: um fascínio pela disciplina da vida militar que eles fazem equivaler à estrita obediência da conduta religiosa, combinada com uma apologia da violência, do direito de matar o mais fraco pela simples razão da supremacia do mais forte. O fascínio pela militarização das condutas e no fundo da própria vida vivida – a compulsão pelo exercício, a renúncia aos simples prazeres que outrora se acalentavam – é o fenómeno que convém explicar; e sobretudo perceber porque razão surge ele com esta disseminação nos espaços de prática do islão? Para ser justo, existe uma outra esfera onde este fascínio é igualmente sentido: a extrema-direita radical, nazi, militarizada. Será que esta resulta igualmente de espaços de exclusão, de falta de referências, de becos-sem-saída sociais? O exemplo do PEGIDA na Alemanha e da Golden Dawn na Grécia não oferecem suporte para estas conclusões. Mas que diriam os nossos amigos dos limites da liberdade de expressão se um dos braços militarizados destas facções políticas decidisse entrar por um jornal de esquerda e metralhar os seus redactores porque não concordam com as suas visões; ou pôr fogo a coberto da noite em instalações onde se encontram instalados refugiados? Quem estiver com atenção chegará facilmente à conclusão que em diferentes contextos ambos os exemplos já aconteceram. Porém, como dizem os nossos amigos americanos you can’t correct a wrong with another wrong – é por isso que uma espécie de má-fé na consciência social de uma certa esquerda se insinua para justificar os acontecimentos de Paris. São injustificáveis, embora possamos tentar compreendê-los.

Je suis charlie III

Finalmente, a liberdade de expressão, e aquele que me parece o argumento mais patético. Diz Boaventura “Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse”, em relação a existirem limites a essa mesma liberdade. Mais uma vez isto é um facto e os exemplos são muitos, para além daqueles que o próprio autor oferece. Como diz Leonard Boof na sua crónica, chama-se censura e existe entre nós nas mais diversas esferas de opinião. O problema da censura está na substância da mesma e não na sua forma abstracta de censurar aquilo que faz outros infelizes. A discussão deve ser então sobre a substância daquilo que faz os outros infelizes. E aqui as perguntas sobre a natureza da ofensa tornam-se sobejamente pertinentes. Com efeito, em vez de acusarmos o charlie hebdo de uma deriva islamofóbica – como faz Boaventura e Boff – devíamos investigar o que há exactamente de islamofóbico nas suas caricaturas. Por exemplo, se eu acreditar que Israel pertence por direito divino aos judeus, então dizer que Israel não deve necessariamente ser invocado como Estado judaico passa ipso facto a ser considerado antisemita. Ora se eu não concordo com o estabelecer desta relação, por que razão hei-de aceitar que caricaturar o profeta é islamofóbico? Mas mesmo que acredite, como parece ser o caso de Boaventura, então tenho que admitir que o Charlie era também catolofóbico, porque caricaturava sistematicamente as elites da igreja católica como homossexuais ou pedófilas. O que faz então com que uma “aliene” os muçulmanos e a outra seja aceitável? E o mesmo para as figuras políticas: porque razão não me hei-de preocupar igualmente pelo facto de charlie hebdo estar a “alienar” o eleitorado de extrema-direita? A resposta é muita simples: quem não se identifica com o Charlie Hebdo não o compre nem o leia.

Imaginem que eu como careca me sentia insultado porque nos escaparates das papelarias só vejo representados jovens com garbosas cabeleiras – sentir-me-ei alienado porque não faço parte da modalidade central do que é concebido como atraente? Tough luck! Não vou exigir que sejam banidas tais representações apenas porque nelas não me vejo representado. O mais especioso do argumento no entanto é pensar que há alguma obrigação moral para com o islão que existe eticamente acima de outros potenciais objectos. E onde ficam os limites da liberdade de expressão quando porta-vozes do islão criticam abertamente a homossexualidade considerando-a uma doença (e da igreja católica)?

O politicamente correcto que leva a retirar o Tintim na África dos escaparates das livrarias britânicas é hediondo. O mesmo seria caso tivessem impedido o Charlie Hebdo de publicar as suas caricaturas – um jornal satírico e irreverente cuja função é justamente caricaturar. Seria muito triste se em Espanha tivessem proibido La Bíblia contada a los passotas, publicada pelo Jueves, uma paródia do princípio ao fim ao livro “sagrado” dos cristãos. Mas pela mesma ordem de ideias dos nossos dois plumitivos teríamos que concordar que Rushdie deveria ter sido queimado – ou quanto muito os seus versos satânicos – para que uma comunidade não se sentisse ofendida.

A esquerda por vezes assume uma figura de burra confrangedora.