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O bode expiatório

Novembro 25, 2014

Não tenho qualquer admiração especial por José Sócrates. Nunca votei nele. Não lhe admirava a verve (que sempre achei paupérrima) nem o estilo. Mas a ideia de purga do regime democrático que está a ser avançada pelos testas-de-ferro da direita portuguesa (como o nosso racialista de serviço) é assustadora a diversos títulos. Por um lado há um júbilo instrumental próximo da lógica sacrificial em que o objecto do sacrifício rapidamente se transforma na virtude comunitária. Os fascismos possuem um fascínio por tais processos. Por outro, a projecção dos males do mundo no corpo da pessoa de José Sócrates é propositadamente enganadora porque pretende abafar os restantes escândalos perpetuando assim o status quo dos prevaricadores.

Veja-se por exemplo o gáudio com que H. Raposo enaltece a limpeza do país através da prisão de Sócrates. Como não o vi fazer o mesmo estardalhaço com a prisão de Salgado, depreendo que Sócrates é particularmente poluidor na narrativa da higiene moral da nação. Da mesma forma, Pacheco Pereira ontem na sic notícias defendia a tese de que Sócrates era um homem perigoso, porque poderoso, o que justificava a sua prisão preventiva (et tu Pacheco!). Um homem poderoso? Um indivíduo que foi enxovalhado por possuir uma licenciatura falsificada; um homem que saiu do governo pela porta mais baixa, e que mesmo nas suas actividades intelectuais posteriores, foi duramente criticado por alguns do establishment intelectual – este é um homem que faz o pleno do não-poder! Mas ainda assim, a narrativa higienista (moral) elabora a metáfora do ar mais respirável depois da prisão de Sócrates. Eu consigo perceber que homens como Berlusconi, Junker, Collor de Mello sejam considerados poderosos. Berlusconi era só dono de metade da Itália. Agora José Sócrates? Quando penso em homens poderosos penso em Mexias, Teixeiras Pintos, Amorins, Soares dos Santos, e Salgados. Destes, apenas o último está acossado, e com este a direita não teceu loas à purificação da democracia.

Estes falsos moralistas, possuem uma agenda política. Com culpas ou sem elas, é preocupante que quem imponha uma moção de censura a Junker seja a Front Nationelle secundada pelo Ukip britânico – duas das forças mais conservadoras no PE. Também em torno da prisão de Sócrates, quem apareceu foi a extrema-direita nacional (com um timing invejável, diga-se), o PRN, a vaiar e insultar o ex-primeiro ministro. Cuidado, porque os moralismos – sobretudo os falsos – são facilmente manipuláveis. Por isso na incaracterística litania de Raposo às virtudes salvíficas da prisão de Sócrates para a comunidade esconde-se uma coisa aterradora: o bode expiatório. Raposo tem o tom do affaire Dreifus. Na altura, porque eram os judeus; agora porque há uma tentativa da parte da direita de emparelhar impureza estatal com esquerda (ou aquilo que está à esquerda desta direita). A mesma equação foi repetidamente tentada nos Estados Unidos.

O que é claro é que a prisão de Sócrates não representa rigorosamente nada. Seja a patetice de um Ricardo Costa do Expresso ou a histeria de um Raposo, querem nos convencer que a França mudou radicalmente depois da detenção de Sarkozy? A elite portuguesa – entra a qual também se encontram alguns plumitivos, pelo menos no papel de intelectuais orgânicos – não será minimamente beliscada. Aquilo que é a razão de ser da desigualdade devastadora, da promiscuidade entre política e grandes negócios não se encontra na liberdade de Sócrates, mas antes numa elite corrupta, manipulativa, esbulhadora do capital humano e económico que se tem vindo a instalar com direitos feudais no poder das instituições portuguesas – sejam elas políticas ou económicas – das quais Sócrates foi um minúsculo exemplo. Desse estado de podridão não pode Sócrates ser o símbolo. Não podemos deixar que Sócrates seja o Madoff da nossa vida política: também ele o bode expiatória da vertigem e crime financeiros. Por isso é preciso afirmar contra estes senhores que não, nada muda em Portugal. Os poderosos não estão ao alcance da lei, porque a lei tem uma malha instrumental que parece apenas apanhar aqueles que lhe interessa e deixar escapar quem realmente importa. Se há alguma coisa que a prisão de Sócrates mostra é que as metástases do nepotismo e do poder corrupto colocaram já o corpo social em estado terminal.

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