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In dubio pro car…

Novembro 25, 2014

Agora que Sócrates é culpado, convirá colocar a pergunta sacramental. Que tipo de transacção existe entre o Ministério público e os media? Muito se houve falar de espetacularização, sensacionalismo jornalístico, promiscuidade, entre justiça, polícia e media. Mas este encadeamento coloca a nu algo que não vejo ser perguntado ou denunciado: quem recebe o quê? Uma coisa é aparecerem jornalistas na ocasião da detenção de Sócrates; outra coisa é dois jornais específicos receberem informação processual em segredo de justiça. Sabendo nós que a competição por este mesmo sensacionalismo é desenfreada e alimentada pela própria media – a imagem de uma jornalista a implorar ao colega cameraman para que lhe certificasse que realmente tinham estado em directo aquando do comunicado do advogado de Sócrates é a esse título exemplar – por que razão só alguns ganham a corrida? Que existem fugas do ministério público isso é mais que evidente, e julgo que não deixa dúvidas a ninguém. Mas a troco de quê? Ou alguém acredita que os investigadores do Ministério Público são insubornáveis? Acho todavia que a promiscuidade é de outra natureza. É de natureza investigativa. Tendo em conta que certos meios de prova são inadmissíveis e que certos métodos não são compagináveis com o exercício da justiça, a minha hipótese é a de que existe uma simbiose entre investigação jornalística e judicial. Na primeira, todos os métodos e mais alguns podem ser usados, quando não forem para fins jornalísticos, muito embora a deontologia seja sistematicamente atropelada. Com efeito quem impede uma Felícia Cabrita de subornar testemunhas, seja lhe dado pelo patrão o dinheiro necessário para esse efeito? Nada. O ministério público não pode fazer tal coisa; mas a jornalista amiga do sr. X do ministério público pode. Daí que esta promiscuidade não pode ser apenas descontada a título dos mecanismos da espetacularização e do sensacionalismo jornalístico, que é um facto, mas deve ela própria ser investigada. As dúvidas sobre as coincidências entre a agenda de certos agentes políticos, inclusive os media, e as dos magistrados e polícias são fundadas. Este devia ser um dos aspectos mais graves da democracia portuguesa contemporânea, digno mesmo de um movimento de cidadãos. A opacidade das transacções entre uma esfera e a outra inquina qualquer ideia de justiça que se possa acalentar.

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