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Remax contra a maré

Novembro 23, 2014

Foi judiciosa a comparação entre a Remax e o Bloco de Esquerda feita por Paulo Portas. Àquilo chama-se o princípio da analogia. Que Portas tecesse laudas à Remax, compreende-se. Afinal ela representa o ideal laboral dos Portas e dos seus governos: trabalho barato, por vezes nem pago; pessoas a ganharem à comissão e com uma rotatividade nunca vista – perfeita flexibilidade e insegurança. Tal qual o governo psd-cds gosta. Contudo, e com a simplicidade dos axiomas, a remax é má e o bloco de esquerda é bom. Ou era, antes de caminhar estruturalmente para a sua forma remax: onde a rotatividade abunda. Por isso tem razão Portas em traçar a analogia. E o demónio nela é que a remax sobrevive e o bloco não vai sobreviver.

Para Portas era importante existir uma remax em cada esquina. Aliás, bem aquilatadas, as melhores negociatas deste governo foram com o imobiliário. Dizia um advogado da nossa praça – que de raposo tem tudo, mas nada de subtil – que nada na forma dos vistos gold convida à corrupção. Ou seja, os vistos gold, quando bem utilizados, são inermes a intenções menos impolutas. É falso. Tudo nos vistos gold convida à corrupção. Desde logo a corrupção da cidadania. Compare-se por exemplo um imigrante não qualificado (na realidade a qualificação é indiferente, desde logo porque o que interessa é o guito), mas compare-se um imigrante laboral e o que ele tem tantas vezes que mourejar para renovar o seu visto, estando à mercê do seu empregador, e sendo por isso a sua posição social de uma fragilidade aterradora, com um barão qualquer que vem a Lisboa lavar dinheiro no imobiliário e as facilidades que lhe são dadas? Os vistos gold é um mecanismo mercenário. Mas é isto um resultado directo da melíflua cabeça de Portas? Não, pelo contrário. Países ditos civilizados como o Canadá, há muito que instituíram o sistema. Nós, portugueses, somos peritos em imitar o Canadá no que ele tem de mau; nunca no que ele possa ter de bom (as estepes geladas, por exemplo).

O segundo aspecto tem a ver com a própria relação cediça, mercadorizada, que o visto gold estabelece. Está, mais uma vez, muito enganado o doutor nada subtil e tudo raposo quando diz que não há nada que convide à corrupção. Vender um título de cidadania é um princípio para a corrupção. Quando este compreende a possibilidade de lavar dinheiro ou branquear capitais nos países de origem, então junta-se o útil ao agradável. E o agradável aqui foi que à boa maneira do banditismo estatal que nos governa, um esquema de pirâmide foi imediatamente montado. Se Portas se encontra no topo ou não, é algo que só se irá revelar mais tarde. Talvez depois da sua passagem pelo governo; ou nunca, como aconteceu com o negócio dos submarinos. Em boa verdade, Portas está sempre imerso num lodaçal de suspeição qualquer. Porém, lá vai passando pelas gotas da chuva e enriquecendo no processo.

Não podemos, contudo, deixar de dar algum crédito aos esforços de Portas na venda do país a retalho. Primeiro, porque alguém o tinha que fazer. Tanto esforço direccionado para marketing, tanta publicidade disseminada pelas quatro partidas do mundo, e seria uma pena que da parafernália imagética que para aí andou a ser lançada não resultasse uma boa venda de feira. Seria como enviar uma sonda a Marte e não obter a esperada fotografia com calhaus e um solo árido. Aqui a mensagem foi enviada com tanto empenho, que era natural que os compradores de terras alheias acorressem em barda. E foi justamente o que aconteceu. Futre, um visionário, adivinhara que a coisa mais cedo ou mais tarde seria chinesa. Eu preferia que fosse o sporting ou o belenenses a fazerem dinheiro, mas quis a chinessisse da negociata que o dinheiro fosse parar aos bolsos de gente militantemente honesta como Jarmelas Palos (cujo nome patrício poderia figurar num enredo de Steven Saylor) ou o homem que manda nos registos e notariado do país (cujo nome é irrelevante). Do primeiro, há que dizer que sempre foi amigo dos imigrantes. Sempre apareceu a provar como Portugal era um país acolhedor para quem nos visitava para vergar a cerviz numas obras quaisquer no ribatejo. E sempre foi zeloso no controlo e vigilância policial que a boa ordem pública exige; não fosse isto tornar-se numa horta onde todo o bicho pisa as verduras. Tão amigo, que até resolveu aceitar prendas deles – o que é um costume bem oriental, como sabemos.

Mas Portas diz mais: diz que há virtude nos vistos gold! Diz ele que é a imagem acabada de como Portugal se tornou apetecível para o investimento estrangeiro. E mais: compara a apetência pela nossa terra com pedaços amaldiçoados como a Letónia ou a República Checa. Da Letónia não sei de chinês que por lá queira comprar um quarteirão; mas falemos de Praga que e isso é outra coisa, como diria Franco Bastos. Em Praga andam os alemães e os russos a comprar ao quinhão. But, hang on – esses não precisam de vistos gold para nada. Aliás, o que nos devemos perguntar é por que raio precisam os chineses de um visto (gold ou led) para comprar imobiliário?

E finalmente, o que me parece mais grave (e onde o tom muda neste texto) é a devastação que a brincadeira dos vistos gold causa no centro das cidades. As câmaras ficam contentes, pois claro. Num país onde não há dinheiro para nada, entrarem uns milhões para uma autarquia dá jeito. O problema é que o investimento de luxo desvirtua os centros, provoca a expulsão dos moradores tradicionais, e elitiza ao paroxismo as zonas históricas.

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