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Germânia

Novembro 18, 2014

Tal como a Urânia de Brodsky, a Germânia é um território imaginário. Não significa que dentro dela forças materiais muito concretas não se encontrem a trabalhar, a elaborar razões, a construir ciências e interpretações diversas. Germânia tem uma história tão longa quanto a dimensão de uma crença possa alcançar. We all live in America, rezava a canção do grupo rock-industrial Ramstein. Na verdade, deveria ser We all live in Germania, pelo menos no que à Europa diz respeito. Germânia, este sentimento que mistura uma felicidade pela prossecução de um plano e a virtude de se ver reconhecido por um grupo, difundiu-se pelas calosidades europeias, pelos corpos cavernosos da virilidade (ou falta dela) do nosso continente. A fecundação germânica não é uma hipótese académica; é um molde vivo para os povos vizinhos, numa latitude distendida, claro está, vizinhos cósmicos de uma ideia europeia. Germânia é o principal emulador da velha americanização dos costumes. Na primeira, o facto e a conversão foram levados ao paroxismo e não existe território europeu onde a metástase americanizadora dimanasse com mais viço e energia. Da Germânia, vem o poder da publicidade, de vender um pote de merda como se fosse o verdadeiro ouro dos duendes no fundo do arco-íris. Da democracia, pois claro. Nada é mais democrático do que Germânia. Todos têm os seus espaços e as suas razões; não por acaso o príncipe da argumentação racional derivou dos espaços ex-românticos das cercanias germânicas. Aqui tudo é lúcido, tudo é claro. Dizia o mestre, o maior dos bardos que a humanidade viu nascer: Ist dir Trinken bitter, werde Wine. Que simplicidade! Que profunda comoção da mutabilidade.

Em Germânia as ruas são assinaladas por lápides imorredoiras com os nomes do conhecimento. Os títulos, jesus – os títulos! Nada importa sem um título pendurado num eu: tu és quem anuncias ser. Mas há uma força subterrânea que invade a Germânia como em tempos esta invadiu a Polónia. Oh lá se há. Chama-se positividade. Em Germânia não há lugar para a tristeza, para a dúvida, para a hesitação… a positividade impõe-se como um eixo superior, uma dimensão pela qual medir as capacidades. Há espiritualidade em cada esquina. Estar com os elementos é uma receita para o sucesso. Meditar, meditar, e estar psicologicamente equilibrado – prontos para saltar como feras na selva! Aliás, andar na selva é uma especialidade germânica. Merkel ensina-nos a sua técnica de guerrilha. Desenganem-se aqueles que acharam que isto era montes e vales com Schwarzwälder por onde se passeava Siegfried de ceroulas – não, isto é a selva! Não admira portanto que a selvajaria seja exportada em doses mais concentradas para os vizinhos. Aqui ela dissolve-se num misto de educação e certeza indiferente. Para os outros ela resulta com a brutalidade da eficácia. Mas, atentem, este é bem capaz de ser o último dos paraísos terrestres. O último sítio onde as pessoas estão conscientes que são melhores, apuradamente mais certeiras. Oh, talvez a china. Mas que purificação seria necessária para aguentar as 14 horas do anel? E no entanto as crianças automáticas leram de uma assentada aquela coisa com anões a metro. Uma coisa é certa: não existe velhice mais feliz do que nos Pflegeheime da Germânia.Regressemos: We all live in Germânia. Descobriremos o nosso verdadeiro eu, e nele dançaremos como estrelas que semeiam o caos? Ou então, uma dança de força em torno de um centro onde uma vontade atordoada permanece.

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