E agora Marina?

A necessidade de reservar um espaço político para o seu partido, evitando ser engolida pela maioria petista, leva Marina a navegar em estranhos territórios estratégicos. Se Dilma ficou com a tarefa facilitada – acredito sinceramente que é mais fácil ganhar a Aécio numa segunda volta do que seria contra Marina – não quer dizer que o efeito Marina ainda não possa fazer das suas. Desde logo, porque numa manobra tão tradicionalmente esquerdista, a esquerda à esquerda do centro-esquerda resolve fazer alianças com a direita neoliberal e conservadora. Onde é que já vimos isto?

Marina encontra-se porventura na sua última corrida eleitoral e por isso tudo fará para desgastar Dilma: não tem nada a perder. De tal forma que após jurar a pés juntos numa entrevista que nunca seria companheira de destinos do PSDB, eis que se deita embriagada no leito de Procusto: se Dilma ganhar, saltar-lhe-ão os pés; se Aécio sair vitorioso, esticar-lhe-ão a coluna. Seja como for, a sua aparição como defensora da candidatura de Aécio só pode ser entendida no interior daquela lógica, tão à Michael Lowy, que é melhor fazer alianças com a direita do que descaracterizar a verdadeira esquerda. Por mais inteligentes que sejam, custa-me alertar para o paradoxo que fazer alianças com a direita deveria ser descaracterizar a verdadeira esquerda, seja lá o que esta última expressão queira dizer.

A fórmula, “vertente social do liberalismo”, aplicada por Lowy a Dilma, não pode evacuar o facto, mesmo teórico, de que uma “vertente social” é melhor do que um fascínio financeiro. Daí que dizer que Dilma pertence ao mesmo modelo de Aécio, só pode ser considerado justo se tivermos uma visão totalizante de modelo – o que obvimente Lowy tem. Mas fora destas questiúnculas de natureza mais filosófica do que prática, Marina não pode de maneira nenhuma empenhar o seu projecto ambientalista aliando-se a quem se está borrifando para o ambiente. E é aqui que me parece que o comportamento de Marina se torna particularmente contraditório. Uma coisa é apoiar um candidato para não perder expressão partidária à esquerda do centro; outra é empenhar a ideologia principal do seu partido para seguir esse desiderato. Julgo que os eleitores de Marina dificilmente lhe perdoarão. Ou talvez me engane e aquilo que se passe no Brasil seja mais estrutural e menos dado a vontades individualizadas. Desde logo uma classe média descontente que, como notei em outro post, se movimentava nas principais manifestações do país. As razões da sua mobilização sempre me pareceram equívocas. Quem ali estava não eram os have nots, que são aos milhões, das classes trabalhadoras, mas os consumistas pós-modernos que querem melhores padrões de consumo; impedidos, é bom que se entenda, pelo estreitamento no topo da sociedade brasileira onde a riqueza se concentra em níveis escandalosos. Então, mas a Dilma fez alguma coisa para mudar essas assimetrias? Distribuir o topo é bem mais difícil do que distribuir pela base. Por alguma razão desconhecida a esquerda mais convicta acha que o poder político tem capacidade para enfrentar a elite económica. Não tem. A única coisa que pode fazer é aproximar a base dos restantes estratos, estreitando a incomensurável distância que a separa dos super-ricos. Em larga medida foi isso que a classe média brasileira não gostou: a aproximação dos pobres a uma classe média remediada gerou um certo sentimento de privação relativa que se expressou no protesto anti-copa. Mesmo assim Dilma e o PT sobreviveram, e isso enfureceu a direita. A aliança sagrada entre Marina e a direita era uma coisa que vinha a ser preparada desde a segunda eleição de Lula. Marina sempre foi levada ao colo pela mídia do poder – a Veja, a Globo, a Folha, etc – enquanto Lula era uma anta, literalmente, como prova o título do livro de 2007 da superstar da Veja, Diogo Mainardi – Lula é Minha Anta. A direita fez a mesma coisa em Portugal com o bloco de esquerda. Enquanto crescia e retirava votos ao ps, os telejornais davam-lhe uma atenção desmedida; agora que já não é eficiente para a agenda da direita, os telejornais remeteram-no ao esquecimento. O bloco, durante um período, inscreveu-se nesta instrumentalidade da esquerda para derrubar o centro da qual a direita faz uso sempre que quer consolidar o seu espaço no centro do espectro político. O mesmo aconteceu, e está a acontecer, com Marina.

O ódio anti-Dilma, sequela do ódio anti-Lula, é apenas compreensível através do tique conservador reaccionário da mídia brasileira. O nosso escriturário em São Paulo, João Pereira Coutinho, explica

 Dilma e Aécio vão para o segundo turno. Desejo felicidades para Aécio. Não porque concorde com o programa do PSDB. Mas, como afirmou o meu amigo Diogo Mainardi na «Folha», qualquer candidato é bom se conseguir remendar os estragos do PT.

E quais são os estragos do PT? Continuar uma tradição que considera o Estado o agente central da vida colectiva. Ou, aquilo que Coutinho chama de “Estado-babá”.

 Atenção que o nosso escriturário não acha que o Estado seja babá para salvar bancos. A esse propósito, o Estado pode ser babá, bebé ou mesmo bobó, que os nossos conservadores (como os de cá, os de lá) só ficam incomodados quando o Estado subsidia famílias para os filhos puderem ir à escola, ou para as mulheres ficarem em casa de licença de maternidade, ou para os negros irem para a universidade. Estes verdadeiros atropelos à liberdade individual no melhor estilo do Scotish Enlightment põem os cabelos em pé aos nossos conservadores. Para os amigos da Folha, nas suas relações com a ONI, que por sua vez se ligava ao Espírito Santo, o Estado é muito bom para equilibrar as economias dos de cima; mas péssimo quando se trata de equilibrar a sobrevivência dos de baixo.

Por isso, Marina não tem desculpa por se deitar com tão sinistras personagens.

Jogo de sombras

A vitória de Costa não trouxe surpresa. Vitória expressiva, como se antecipava. O discurso em torno de Costa, quer das fileiras que o apoiaram quer de homens da direita (como Pacheco Pereira) críticos deste governo e com vontade de ver uma alternativa a surgir no horizonte político, é que sugere reflexões mais interessantes. Existe um consenso jornalístico e não só firmado sobre a ideia de que finalmente o PS tem um líder capaz de mudar politicamente Portugal. Depois da voragem de Passos e seus sequazes, depois da destruição semicriativa implementada pelos neoliberais do PSD, vem uma bonança socialista, que funcionará como um epílogo de um livro mal escrito. Este epílogo implica o regresso de algumas certezas e da esperança num mundo melhor. Neste sentido, não é tanto que o PS como partido o pudesse fazer, mas que para tal seria necessário um líder. Muito à maneira da fulanização da política, esquecem estes comentadores que o PS não é (ou não deveria ser) Seguro ou Costa. Que tem deputados, homens da estrutura partidária, simpatizantes, que em princípio teriam ideias e projectos para alguma coisa mudarem. Acontece porém este paradoxo: sob a alçada de um líder fraco, as potenciais vozes da transformação política remeteram-se ao silêncio ou mesmo a um distanciamento confortável. Seria um paradoxo interessante caso a fraqueza ou robustez do líder contasse de facto para alguma coisa. A verdade é que Seguro foi o líder fraco que foi porque o PS foi um partido fraco. A tese de um megalómano dirigente do PS que não quer perder em nada e que tudo tenta manter sobre o seu controlo não é logicamente compaginável com a natureza fraca do líder. Ou é fraco e o partido o supera; ou é forte e mantém tudo sob a sua asa com feroz precisão. As duas coisas é que não podem conviver juntas. Por conseguinte, e sendo Seguro de facto um líder fraco, encontrou igualmente um partido fraco, não mobilizado, e sobretudo pouco interessado na sua vez na história da rotatividade parlamentar. Virá Costa insuflar ar fresco nas hostes do PS? Os comentadores pensam que sim. Vão tão longe quanto afirmar que Costa representa uma nova fase no panorama político nacional, o ponto de viragem. As pessoas que acorreram a votar nas primárias do PS seriam disso mesmo o emblema e enfático exemplo. Mobilização houve, ainda não se percebeu bem foi para o quê.

Contudo, há uma questão anterior a esta que me parece que fica por resolver quando tentamos enquadrar os acontecimentos nos anais da história. Sendo Seguro um líder fraco, avançou no entanto no pior momento. Seguro foi usado como cordeiro sacrificial. Quando era impossível fazer face a um governo PSD-CDS suportado no moralismo barato e esquizóide da era pós-Sócrates, eis que aparece um Seguro que talvez tenha sido empurrado para o palanque, embora desconheçamos as condições que ditaram esse empurrão. Que Seguro era provisório parecia ser claro para todos menos para ele. E o estranho é que ele tenha realmente chegado a acreditar que poderia sobreviver à sua condição de cordeiro sacrificial. A sua resistência é tanto mais incompreensível quanto na lógica do sacrifício o objecto do mesmo deve representar a salvação do grupo que o sacrifica. Por isso a sua resistência, lógica do ponto de vista individual, não teve em conta a natureza sacrificial da sua posição à frente do PS. Costa surge então como solução salvífica, como o sol que penetrou as nuvens após tantos e tantos meses de neve destruidora. E é bem-vindo, sem dúvida. Não está em causa o facto de Costa apresentar melhores condições para derrubar esta infernal coligação de uma vez por todas do que aquelas que Seguro oferecia. Perguntamo-nos apenas é se o PS vai de facto aparecer.