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Um país de bandidos

Setembro 22, 2014

Por uma fuga à siza no montante de dois mil euros (a equivalência para os dias de hoje) demitiu-se António Vitorino, ou foi forçado a demitir-se. É certo que a demissão só lhe fez bem, dado que pouco tempo depois se via catapultado para as alturas de um alto comissariado da EU. Mas a verdade é que se demitiu. O nosso primeiro, inimputável ao que parece, porque um homem que arma a bandalheira que armou no parlamento e mantém-se em função como primeiro-ministro de um país onde ele insiste fazer-se passar por uma espécie de farol moral, só não está dentro ou demitido, com governo caído em desgraça e tudo de farnel às costas a distribuir bojudas migalhas pelos bancos costumeiros, porque a justiça entende que ele é inimputável. Que outra razão poderá haver? Que outra razão justifica o deixar cair o atropelo às incompatibilidades que o nosso primeiro em funções perpetrou como caso de somenos, através do artifício da prescrição? Só compreendo que uma tal decisão tenha sido tomada à laia da inimputabilidade! E consequências éticas, não há? Pelos vistos não. O homem que se arvorou em consciência da nação, que reformulou a máxima cruel da marie antoniete, substituindo-lhe o ferrete classista dos brioches, pela conservadora moral do “acima das possibilidades” revela-se agora um bandalho que ele sim andou a viver à custa do Estado e das sua possibilidades enquanto era suposto exercer a mais nobre função da república: a de deputado. E enquanto deputado, homem eleito pelo escrutínio público, meteu ao bolso o que podia e o que não devia. Lesou duplamente o Estado, senão vejamos: acumulou com funções de dedicação exclusiva no Parlamento, mandato que lhe tinha sido dado pelos portugueses, é bom não esquecer, rendimentos que vieram de um programa do Estado ao qual ele o seu compincha Relvas aderiram nos bons velhos tempos das nédias vacas da formação. Portanto ganhava do Estado enquanto deputado, e extorquia ilegalmente o Estado através da sua posição na Tecniforma, a empresa que ministrava as formações. Isto é falta de vergonha a mais. Não se lembra, diz em pusilânime atitude o gandulo – Que já passaram muitos anos e a memória é falível. A justiça pelos visto também fez por esquecer. E não é que a quantia seja astronomicamente escandalosa – cotejada com as prendas de 14 milhões de Salgado, os cento e cinquenta mil de Coelho, empalidecem. Mas o descaramento deste invertebrado em pregar moral de poupanças e submeter o Estado a um regime franciscano, como se combatesse a hidra de sete cabeças, é de uma hipocrisia que não poderia ficar sem resposta. A notícia vai-se esvaindo mitigado pelos dias que também eles vão passando. A comunicação social, perante a irredutível prescrição, desinteressa-se. E coelho lá se vai escapulindo por um dos muitos buracos deste mundo da Alice.

Do outro lado do espelho, Marinho Pinto, o moralista mor, o corifeu singularizado numa barriga pantagruélica, veio dizer que os deputados europeus auferiam ordenados escandalosos. E de acordo: 18 mil euros por mês para aquelas avantesmas andarem a coçar o saco, a produzir papel que nem sequer por eles é escrito, mas é antes fruto das miríades de mãozinhas de assessores e vices de qualquer coisa, é bandeira fácil de estender por qualquer populismo, e com razão. Porém, não é que aquela besta ainda não volvida uma semana, afirmava em público que não se conseguia viver em Lisboa com um ordenado de deputado do Parlamento. Que era preciso aumentá-los. Que os 4.000 que a rapaziada por lá ganha não chegavam para uma vida condigna. Bato com a cabeça contra a ara em contrição. Achei por vezes interessante o populismo desbragado de Marinho Pinto. Mas, comedia finita, o homem mostra ao que vem: moralismo barato com tiques elitistas, sustentado num populismo caceteiro para encantar idosos e paralíticos postados diante dos programas da manhã (ou da manha, conforme se entenda). Nós já tínhamos visto esta moralização da política numa voz mais erudita, com iguais intenções de cerzir o centro, posto que nele é que se encontra a virtude. Também Marinho Pinto se faz acompanhar de um histórico do PS e outro do PSD para a constituição do seu novo partido. Ou seja, anuncia-se um moralismo vazio de conteúdo político no sentido mais revolucionário que este último possa alcançar.

Finalmente, a longevidade dos nossos ministros mostra que este é também ele um governo inimputável. Melhor dizendo, não se lhe pode imputar nada, porque ele é impoluto como as águas do Ganges. Ministros fazem merda, a justiça está transformada num pandemónio, o ano escolar começou com uma fórmula errada que desvirtuou milhares de colocações, e demite-se o capataz. Onde é que tamanha desfaçatez e falta de cojones se viu? Vê-se em governos que não exercem o seu mandato como mandatos responsáveis, ou seja, “accountables”. Fantástico é no entanto que num país onde a bandalheira é generalizada, onde enriquecimento ilícito rima com carreira política ou no Estado, onde tantos e tantas se locupletaram à custa de extorquir o erário público, é exemplarmente sentenciada Maria de Lurdes Rodrigues por causa de um ajuste directo no valor de 240 mil euros. E fica no panteão como o primeiro elemento a ocupar um cargo de ministro a ser acusado pelo ministério público. Por um ajuste directo?! Prática comum em qualquer ministério ou organismo público; prática única nas câmaras municipais, porque mesmo quando se abre concursos, o resultado é fabricado como se fosse um ajuste directo. É esta a moralização da vida política que a justiça comprada quer afirmar? Note-se, o dinheiro envolvido no caso de Maria de Lurdes Rodrigues é um escândalo e mostra como certas pessoas ganham pipas neste país. Mas ser tratado de forma exemplar, quando há ajustes directos de milhões! É doentio.

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