Será chuva, será gente?

A contingência é uma coisa tramada. Hoje em dia, estudos do mais diverso jaez, revolvem as entranhas da contingência numa relação quase sadomasoquista. A contingência ganhou pride of place (na linguagem dos brits) na nossa interpretação do mundo. E por vezes surge das maneiras mais inconvenientes em certas dimensões quotidianas sobre as quais guardávamos uma certa previsibilidade. Foi o que aconteceu ontem a António Costa. Uma contingência climatérica é capaz de lhe ter custado as eleições no PS. Não será porque os barões ficaram encharcados no atropelo dos riachos urbanos e do trânsito parado. Tão-pouco porque quem anda à chuva molha-se. Mas algo me diz que Seguro é bem capaz de agarrar no desnorte das cheias lisboetas e transformá-lo num exemplo acabado de ineficiência no governo. É capaz disso e de muito mais. Com a raiva com que anda a Costa, é capaz de inferir que quem não consegue controlar as consequências de uma bátega numa capital de um país, pouco crédito tem para estar à frente dos destinos de um partido, quanto mais desse país por inteiro. E estou a adivinhar que o assunto chuvada venha por diversas vezes à tona do último debate entre os dois candidatos, até porque não há mais nada para discutir. Os dois debates anteriores foram sensaborões. Costa e Seguro não encantam. O país concluíu que aquele arrazoado de armadilhas politiqueiras melhor seria ter ficado encerrado por detrás de robustas portas de salões acetinados. Mas quis o mais papista que o papa Seguro lavar roupa suja em público; e água não lhe faltou ontem por essa capital em pane. Para quem ficou com o carro alagado, é menos um voto em Costa, caso fosse essa a intenção anterior. Para quem andou no caos do metropolitano, é mais um a cismar se o gajo que não consegue desentupir as sargetas será capaz de limpar os ralos da nação. Raio de chuva aziaga que caiu na altura mais imprópria.

But screw your courage to the sticking-place…

Já foi chão que deu uvas, mas gostava que a Escócia tivesse dito sim. Nada a ver com o suplício que infligiram ao pobre do Wallace, até porque aquelas sevícias eram comuns – basta abrir o Foucault do vigiar e punir. O aspecto nacionalista da questão não me excita minimamente. A linguagem da unidade identitária deixa-me indiferente. Porém, o rude golpe que isso representaria para a EU, isso sim, é espectáculo que eu pagaria para ver. O circo pegar fogo, claro está. Cameron a demitir-se. A EU a ver-se a braços com uma reacção em cadeia de consequências imprevisíveis. Fazer tremer o edifício colado com cuspo burocrático de interesses instalados e testas de ferro: isso sim – era espectáculo digno! Até porque o anti-europeísmo britânico é o mais hipócrita e interesseiro de que há memória: por um lado afirma a sua proud Independence de reino unido; por outro mete o bedelho em tudo o que é assunto europeu ou choupana oficial. Por isso, tinha sido bonito a Escócia retirar o pedestal destas certezas prospectivas que dão pelo nome de projecto europeu. Teria sido bonito a Escócia dizer que estava farta da Merkel, e do Junker e dos pseudo-democratas que governam a leste; que queria tornar-se independente dos pactos de estabilidade, dos tectos do défice, e da esbulha dos grandes bancos nacionais. No fundo, mandar isto tudo à merda, e afirmar que ali governa-se consoante a vontade do povo escocês. Bem sei, é uma ilusão. O povo escocês, o governo do povo, etc. A retórica destas coisas abafa a comoção da realidade. Não obstante, poder recusar alinhar com níveis de défice suicidas, investir no Estado a seu bel-prazer sem os ditames dos psicopatas neoliberais que se encontram nos parlamentos europeus, e sobretudo não sufocar a sua população por causa de um euro que se quer ao nível germânico, só isto (e não é pouco) já valia a pena. A Escócia é rica, e por isso pode fazê-lo. Faltou-lhe a coragem.

Um país de bandidos

Por uma fuga à siza no montante de dois mil euros (a equivalência para os dias de hoje) demitiu-se António Vitorino, ou foi forçado a demitir-se. É certo que a demissão só lhe fez bem, dado que pouco tempo depois se via catapultado para as alturas de um alto comissariado da EU. Mas a verdade é que se demitiu. O nosso primeiro, inimputável ao que parece, porque um homem que arma a bandalheira que armou no parlamento e mantém-se em função como primeiro-ministro de um país onde ele insiste fazer-se passar por uma espécie de farol moral, só não está dentro ou demitido, com governo caído em desgraça e tudo de farnel às costas a distribuir bojudas migalhas pelos bancos costumeiros, porque a justiça entende que ele é inimputável. Que outra razão poderá haver? Que outra razão justifica o deixar cair o atropelo às incompatibilidades que o nosso primeiro em funções perpetrou como caso de somenos, através do artifício da prescrição? Só compreendo que uma tal decisão tenha sido tomada à laia da inimputabilidade! E consequências éticas, não há? Pelos vistos não. O homem que se arvorou em consciência da nação, que reformulou a máxima cruel da marie antoniete, substituindo-lhe o ferrete classista dos brioches, pela conservadora moral do “acima das possibilidades” revela-se agora um bandalho que ele sim andou a viver à custa do Estado e das sua possibilidades enquanto era suposto exercer a mais nobre função da república: a de deputado. E enquanto deputado, homem eleito pelo escrutínio público, meteu ao bolso o que podia e o que não devia. Lesou duplamente o Estado, senão vejamos: acumulou com funções de dedicação exclusiva no Parlamento, mandato que lhe tinha sido dado pelos portugueses, é bom não esquecer, rendimentos que vieram de um programa do Estado ao qual ele o seu compincha Relvas aderiram nos bons velhos tempos das nédias vacas da formação. Portanto ganhava do Estado enquanto deputado, e extorquia ilegalmente o Estado através da sua posição na Tecniforma, a empresa que ministrava as formações. Isto é falta de vergonha a mais. Não se lembra, diz em pusilânime atitude o gandulo – Que já passaram muitos anos e a memória é falível. A justiça pelos visto também fez por esquecer. E não é que a quantia seja astronomicamente escandalosa – cotejada com as prendas de 14 milhões de Salgado, os cento e cinquenta mil de Coelho, empalidecem. Mas o descaramento deste invertebrado em pregar moral de poupanças e submeter o Estado a um regime franciscano, como se combatesse a hidra de sete cabeças, é de uma hipocrisia que não poderia ficar sem resposta. A notícia vai-se esvaindo mitigado pelos dias que também eles vão passando. A comunicação social, perante a irredutível prescrição, desinteressa-se. E coelho lá se vai escapulindo por um dos muitos buracos deste mundo da Alice.

Do outro lado do espelho, Marinho Pinto, o moralista mor, o corifeu singularizado numa barriga pantagruélica, veio dizer que os deputados europeus auferiam ordenados escandalosos. E de acordo: 18 mil euros por mês para aquelas avantesmas andarem a coçar o saco, a produzir papel que nem sequer por eles é escrito, mas é antes fruto das miríades de mãozinhas de assessores e vices de qualquer coisa, é bandeira fácil de estender por qualquer populismo, e com razão. Porém, não é que aquela besta ainda não volvida uma semana, afirmava em público que não se conseguia viver em Lisboa com um ordenado de deputado do Parlamento. Que era preciso aumentá-los. Que os 4.000 que a rapaziada por lá ganha não chegavam para uma vida condigna. Bato com a cabeça contra a ara em contrição. Achei por vezes interessante o populismo desbragado de Marinho Pinto. Mas, comedia finita, o homem mostra ao que vem: moralismo barato com tiques elitistas, sustentado num populismo caceteiro para encantar idosos e paralíticos postados diante dos programas da manhã (ou da manha, conforme se entenda). Nós já tínhamos visto esta moralização da política numa voz mais erudita, com iguais intenções de cerzir o centro, posto que nele é que se encontra a virtude. Também Marinho Pinto se faz acompanhar de um histórico do PS e outro do PSD para a constituição do seu novo partido. Ou seja, anuncia-se um moralismo vazio de conteúdo político no sentido mais revolucionário que este último possa alcançar.

Finalmente, a longevidade dos nossos ministros mostra que este é também ele um governo inimputável. Melhor dizendo, não se lhe pode imputar nada, porque ele é impoluto como as águas do Ganges. Ministros fazem merda, a justiça está transformada num pandemónio, o ano escolar começou com uma fórmula errada que desvirtuou milhares de colocações, e demite-se o capataz. Onde é que tamanha desfaçatez e falta de cojones se viu? Vê-se em governos que não exercem o seu mandato como mandatos responsáveis, ou seja, “accountables”. Fantástico é no entanto que num país onde a bandalheira é generalizada, onde enriquecimento ilícito rima com carreira política ou no Estado, onde tantos e tantas se locupletaram à custa de extorquir o erário público, é exemplarmente sentenciada Maria de Lurdes Rodrigues por causa de um ajuste directo no valor de 240 mil euros. E fica no panteão como o primeiro elemento a ocupar um cargo de ministro a ser acusado pelo ministério público. Por um ajuste directo?! Prática comum em qualquer ministério ou organismo público; prática única nas câmaras municipais, porque mesmo quando se abre concursos, o resultado é fabricado como se fosse um ajuste directo. É esta a moralização da vida política que a justiça comprada quer afirmar? Note-se, o dinheiro envolvido no caso de Maria de Lurdes Rodrigues é um escândalo e mostra como certas pessoas ganham pipas neste país. Mas ser tratado de forma exemplar, quando há ajustes directos de milhões! É doentio.

Má moeda

O nome podia ser irónico: Carlos Moedas. Afinal, de um homem que passou pelo Goldman Sachs e que teve a sua empresa de fundos de investimentos (aquelas que cobrem os desvios para as off shores que emprestam dinheiro por baixo dos panos aos grupos espírito santo), o moedas assentava que nem ferrete, que nem scarlet letter caso a imaginação de Hawthorne fosse transferida para um sentido crítico contemporâneo e as multidões gritassem às portas de São Bento que o queriam imolar. A ironia está porém que Moeadas será, previsivelmente, o novo comissário moedas. Quis a história ironizar ainda mais um pouco, não fosse o corifeu padecer de míngua dramática, e dar de barato que o comissário moedas fosse o comissário para a ciência. Ora, as intersticiais ressemblances entre o ofício da Goldman Sachs e a investigação científica são claras e não carecem de explicação. O seu sentido operacional é similar. A sua missão no mundo é a mesma. E etc. Não. A única coisa que se assemelha é que moedas vai ter nas mãos oitenta mil milhões de euros, assim como deve ter tido nas mãos muito dinheiro em carteiras de investimento.

Marisa Matias, na antena 1, esclareceu: os novos comissários a serem empossados brevemente, são parte (a face visível diria eu) de um clube de financeiros, homens recrutados a lugares estratégicos que combinam a programática austeridade com os abismais lucros financeiros que os seus donos vão recolhendo. Por isso moedas não sai do figurino. Só que sendo compreensível, na medida da aceitação da apropriação técnica, que para a finança vá um delfim da city, mal se compreende que para a ciência e investigação vá um contabilista da Goldman Sachs. Sabemos que há uma afinidade electiva entre o Sachs e o psd; sabemos que Arnaut foi para o Sachs como recompensa; assim como outros vêm do Sachs para o governo português como estratégia. Mas que diabo, algum pudor na escolha de uma pasta que tem como bitola o Horizonte 2020, um panegírico à competitividade e concorrência científica intra e extra-Europa. Ou talvez as coisas estejam ajustadas e de qualquer maneira a pasta nunca teve a ver com melhorar as condições de vida de cientistas e da produção científica e mais com a distribuição de patentes por grupos económicos interessados.

Se assim for a má moeda que agora enviamos para a Europa estará de acordo com o que se pretende. Não servirá a ciência é certo. Mas ambiciona-se que dê muito dinheiro a ganhar aos grupos económicos que dela se servem.

Filme comunismo

Entre o film socialisme de Godard e o filme comunista de Loach existe uma diferença de monta. Enquanto o primeiro existe no reino da arrogância cinéfila e do maneirismo, exibe-se o segundo no território do humano, do corpo, e das suas relações sociais de produção. Enquanto o primeiro se conforma com a estetização conceptual, ou um conceito estetizado, embrenha-se o segundo na simplicidade da existência e da solidariedade entre seres. Se mais não fosse, diríamos que o filme de Loach é fiel a uma ideia forte de comunismo, enquanto o Godard serve-nos uma formalização asséptica desse mesmo comunismo. E por isso, não sendo o filme de Loach uma obra-prima de estarrecer, é mais fiel ao princípio do comunismo dos corpos e da vida, do que Godard. Não é estranho, dado que o território de Loach é o do humano, uma certa humanidade, um existencialismo despido, contudo, de transcendência. Cabe invocar o título de Sartre, o existencialismo também é um humanismo. Pois a defesa que Sartre faz do existencialismo nesse livro-ensaio é justamente a da acção humana. O ser do homem é capaz de agir, e de agir eficazmente, fora da contemplação teorizante ou da inacção contemplativa das grandes filosofias. O personagem principal de Loach é aquele que age por excelência – age apesar das consequências. Melhor dizendo, age com plena consciência das consequências, sabendo de antemão que não agir é igualmente uma acção com as suas inerentes consequências.

Mas o homen de Loach é também um homem histórico, ao contrário da abstração de Godard. Ao ser histórico encontra-se numa situação específica, com forças particulares, cuja configuração o afectam directamente. É por isso que Jim, ao longo do filme, serve de pretexto para um desfilar das relações de força presentes na Irlanda do período após a depressão norte-americana. As forças dos terratenentes, com a sua imposição material, conjugadas com a igreja católica, e as suas imposições ideológicas. Loach mostra como se pode filmar uma superestrutura em acção, nas diversas diatribes entre a igreja católica e os proprietários e ricos da terra, ou nas insistentes conversões exigidas pelos representantes da igreja a partir dos seus púlpitos moralmente superiores. E também como o paralelo entre aquele período em particular e os dias de hoje pode ser traçado sem risco de erro colossal: nem histórico nem político. Pois não é a conjugação de forças relativamente idêntica? Não é o fosso entre ricos e pobres cada vez maior, como Loach ilustra ao dar-nos a sua interpretação da Irlanda da década de trinta do século passado?

Do mesmo modo, podíamos tirar a ilação que as armas com que os homens lutam no filme de Loach são, apesar do provável anacronismo, apropriadas para os tempos actuais: união, solidariedade, entreajuda e coragem. Esta última é particularmente importante porque se trata de um contexto em que mulheres e homens colocavam mesmo as suas vidas na balança do sacrifício por um ideal. Quão diferente dos actuais compromissos entre retórica política e conforto neoliberal? Esses velhos comunistas, das quais a história pátria abunda de exemplos, foram reconvertidos em teóricos, em homens de púlpito sem acção, em turistas da emancipação humana. Também aqui o filme de Loach é instrutivo, para que se separe a força moral daqueles que arriscavam a vida, da plácida rebeldia daqueles que vivem de catequismos. Mas o ónus não está do lado dos comunistas, nem dos daquela época nem dos coevos. O ónus está sim do lado de quem domina de forma violenta e sem escrúpulos, de quem tudo tem e mesmo assim ainda quer mais, está do lado daqueles que nos querem ignorantes, arredados dos assuntos que nos dizem directamente respeito, e sobretudo sem voz. A Igreja católica não é mais aquele apparatus ideológico de submissão beata aos desideratos dos poderosos. Seria injusto identifica-la apenas assim. Porém, outros mecanismos vieram ocupar o lugar dessa bênção tão eficaz. Mecanismos que nos sossegam quanto ao destino e que o introjectam numa procissão de culpas pela nossa condição social. Mecanismos que alienam e ao fazer encobrem as múltiplas formas de exploração e de uso indevido do material humano a que se arrogam. Tais mecanismos fragmentam a capacidade de revolta. Deterioram-na, isolam-na, desviam-na para objectos, e objectivos, secundários. O clube onde Jim reunia os seus conterrâneos tinha a face do comunismo dos comuns, onde cada um contribuía com aquilo que tinha de seu, e fazia-o de maneira gratuita, como a gratuidade da graça se subentende no amor a deus. Por isso diz o padre a Jim: – Tu és um crente! Bem pode sê-lo que a mensagem de Loach é de desesperança. As forças do poder ganham e também isso faz lembrar como após tantas movimentações de protesto, como após as ocupações da rua por parte de multidões revoltadas, tudo voltou à mesma modorra: os bancos continuam a ganhar e as pessoas a perder.