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A nova OPEP

Julho 23, 2014

A surpresa dos jornalistas portugueses com a entrada da Guiné Equatorial, a impreparação dos nossos governantes – ministro dos estrangeiros e primeiro-ministro – perante o facto, é surpreendente em si mesma. Desde logo, porque aqui neste artigo já a entrada da Guiné Equatorial era anunciada como facto consumado. O que revela ou o alheamento dos nossos governantes ou a sua hipocrisia. Mas para além disso, mostra bem que a CPLP não é mais aquilo que esteve no seu acto fundacional – uma comunidade de língua transnacional – mas sim uma correlação de interesses económicos e financeiros liderada por Angola e pelo Brasil. O excerto que reproduzo abaixo é de uma clareza cortante.

 Holding 50 per cent of oil resources discovered in the last decade in their “territory” and the prospect that by mid-century, the gas and oil from Angola, Brazil, Guinea-Bissau, Mozambique and Sao Tome and Principe could represent 30 percent of the world hydrocarbons production, equivalent to current production in the Middle East, CPLP “forcibly” will move from  mere auxiliary presence in the  international scene  to be a frontline protagonist.

Basicamente o que a CPLP pretende é transformar-se numa nova OPEP com ligações a outros dos maiores produtores de hidrocarbonetos, como a Turquia ou Cabo-verde. Como diz o artigo, sem pejo nenhum de ser apanhado na armadilha da incoerência fundacional, é preciso superar a fase da utopia e das ligações histórico-narcisísticas com a cura das feridas coloniais. Mas isto significa secundarizar, e muito , o papel de Portugal, o único do eixo dos cinco principais que apenas tem para dar como contributo a tecnologia de refinação. Nada disto é inesperado. Observando a lista de membros associados, ou seja, potenciais membros futuros, percebia-se que a conjugação de forças em consolidação pouco teria a ver com língua e partilha de laços culturais. Seguindo a hierarquia, encontrava-se primeiro a Guiné Equatorial, cuja pertença foi agora formalizada; mas seguem-se as ilhas Maurícias e o Senegal, países com profundas ligações ao português, como é do conhecimento geral.

Mais interessante é constatar que na lista de países oficialmente interessados em entrar para o clube constam a Ucrânia e a Roménia, países onde o português é falado em cada esquina, para além das Filipinas, Austrália, Croácia ou a Indonésia. Se para alguns deles é possível arranjar justificações patéticas como ter fluxos migratórios com um dos países de língua oficial portuguesa, como é feito para o caso da Roménia e da Ucrânia em relação a Portugal; para outros, como as Filipinas ou a Indonésia, é preciso ir desenterrar a passagem de Magalhães pelo arquipélago, para o primeiro, ou a rebuscada justificação de Portugal ser o mais ancestral poder colonial, anterior aos holandeses, que estabelece o laço histórico entre os a comunidade e o segundo país. A dimensão do ridículo é de tal forma gigante, que não há cabal justificação para encaixar a Croácia, sendo que esta está lá porque… sim. E mais mirabulante ainda é admitir a Geórgia como potencial candidato. Suspeita-se por conseguinte que o laço histórico ou linguístico sirva para encobrir uma poderosa coligação em torno do petróleo e dos seus derivados que pode muito bem ser declinada em qualquer língua.

Daí que o espanto com a Guiné Equatorial só pode provir de quem não segue com atenção os desenvolvimentos da CPLP. Àqueles que ainda estavam convencidos que a missão desta era expandir a língua portuguesa no mundo, com impactos no mercado livreiro e das artes, lamento-lhes a ingenuidade. E para aqueles que se preocupam com os direitos humanos na Guiné Equatorial, se os pretendentes são o Senegal, a Ucrânia, as Filipinas ou a Indonésia, então terão que rever os seus parâmetros valorativos e ajustar o domínio da utopia ao da realidade do capital globalizado.

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