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Mamading

Julho 21, 2014

Mamading é um termo com uma sonoridade estranha. Primeiro, não parece ter sido forjado em paragens anglo-saxónicas, para quem o comportamento tem o salutar nome de blowing. Segundo, sugere uma qualquer brincadeira que alunos do liceu fizessem num dos intervalos da manhã em torno da palavra mamada. E de facto, é uma corruptela britânica da palavra espanhola mamada, que equivale ao mesmo termo vernáculo português.

Mas não é uma brincadeira. Sucede que não somente tem granjeado adeptos – e sobretudo adeptas -, como tem suscitado comentários pelos mais diversos especialistas. O mamading consiste na competição por bebidas através da realização do maior número de coitos orais a que jovens adolescentes se sintam capazes de desempenhar. Temos portanto que quanto mais fellatios forem praticados nesta modalidade, mais bebidas grátis estas jovens ganham. A ideia de praticar coito oral em desconhecidos a troco de bebidas, assemelha-se bastante a prostituição, sendo que esta última, na maior parte das vezes, eleva mais a parada em matéria de custos com o serviço. Há, em muitos dos comentários, uma tentação moralista visível no emprego de termos como subjugação, auto-humilhação, estrutura falocêntrica das relações humanas, etc, etc. A premissa subjacente a estas críticas é a de que o mamading é um uso do corpo da mulher para os mais instrumentais fins. Estaríamos a aceitar de ânimo leve que os padrões sexuais identitários, e os comportamentos a eles associados, não sofreram qualquer transformação com a mais recente geração. Da mesma maneira, aceitaríamos que as representações em relação à prática sexual se mantiveram inermes às caleidoscópicas mudanças no mundo do erotismo e na própria transformação da ordem do desejo. Mencionei algures neste blog a prática do sex chat roulete, onde pessoas se masturbam ou se despem perante estranhos sendo que a excitação do jogo está precisamente na incógnita existente de cada vez que se acciona a rouleta: quem estará do outro lado? Novo ou velho… O discurso moral da subjugação não entra aqui. O que cabe aqui, sim, é o conceito de auto-reificação. Um belo termo cunhado por Honneth, um dos seguidores da velhinha escola de Frankfurt. Para Honneth, existem três tipos de reificação: dos outros, da natureza, e de si próprio. Aqui interessa-me apenas pegar na última modalidade e ver se ela se ajusta ao mamading. A auto-reificação ocorre, segundo Honneth,  quando assumimos que as nossas sensações psíquicas como meros objectos para serem observados ou produzidos. E mais ainda, Honneth sugere que esta pode aumentar à medida que as pessoas ficam progressivamente imersas em práticas funcionalmente preparadas para a apresentação dos nossos próprios selfs. Esta objectivação das nossas psíques para exibição no mostruário do desempenho serve bastante bem para compreender o que é que se passa no desvario da mamada, ou seja no mamading. Ou não fossem as similitudes entre aquilo que estas raparigas fazem e a pornografia bastante evidentes. Sabemos que o mundo está injectado de pornografia, e que o sexo performático é algo que nos é escarrapachado em qualquer teledisco, série, ou nas miríades de actos sexuais exibidos na internet. Quem assim se socializa, ou seja, as jovens que crescem com um cérebro pornógrafo, não tem dificuldade em assimilar o acto sexual, qualquer acto sexual na realidade, a uma performance para observadores exteriores. Facto é que as ocasiões do mamading não ficam guardadas a sete chaves nos confins da memória libidinal ou das experiências de perversão isoladas. Pelo contrário, numa sociedade em que ver e ser visto não é apenas obrigatório, como é extremamente fácil, funcionalmente possibilitado por uma panóplia de dispositivos de criação e disseminação de imagens, o registo do momento (seja ele qual for) é uma consequência natural do estímulo. Estas raparigas fazem isto porque sabem que alguém há de estar a registar o acontecimento, seja através dum iphone ou de um tablet, a sua performance vai ficar necessariamente registada. É esta passagem da imagem criada pela fantasia para uma fantasia do êxtase imagético que é incorporada no acto do mamading. E isto não tem qualquer relação com o discurso moral. Ver e ser visto é importante, ponto final. Que a cena clássica de fantasia falocêntrica milhares de vezes repetida na pornografia – uma mulher a praticar coito oral em vários homens e em sequência – seja transferida para a realidade do ritual, significa apenas que a imagem pornográfica estilizada foi directamente incorporada no socius. Por outras palavras, a sua incorporação não representa mais do que a sua aceitabilidade no esquema valorativo deste grupo em particular. E é aqui que a questão moral fica destituída do seu peso. Porque esta deixa de ser impositiva, porque não unitária, o que temos é uma partilha mecânica da transgressão. O interdito redefiniu as suas fronteiras e aquilo que preside ao sistema de oposições encerrado no ritual deixou de funcionar. Isto porque a ritualização do acto deixou de servir para a communitas e passou a ser meramente espectral. Esta ritualização, e nisso o mamading é o verdadeiro exponenciar desse fenómeno, serve para ser vista e não para ser sentida.

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