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A morte sem mestre

Junho 30, 2014

A Morte Sem Mestre é o livro mais seco de Herberto Helder. Entenda-se aqui seco como esquemático, em esqueleto, e não com qualquer conotação afectiva. É também um testamento de alguém desiludido com o passar do tempo; do seu e do país. Olhar desencantado sobre a idade e a vida do poeta, onde nem a poesia, por mais conscientemente bela que seja, resgata o aproximar da morte. Foi tudo em vão? – perguntar-se-á Herberto Helder em vários momentos deste seu livro. Nós sabemos que não. Mas o poeta (o maior dos vivos) insiste em colocar uma cáustica dúvida sobre um sentido benigno que a criação – a única passível desse nome: a da nomeação poética – pudesse ter atribuído à sua vida. Um testamento suicidário por vezes. Mas esta morte possui uma beleza da economia poética que roça o trágico. Estamos afastados da carga por vezes vertiginosa de atributos, de prolixas modelações poéticas que faziam por vezes o verso ajoujar perante uma saciedade nunca adquirida. Agora tudo é mais sobriamente directo: não tenho dinheiro para comprar mais gás – que cara que está a morte. Retrato de um país, também, que se confunde com a degenerescência do poeta; retrato de um país onde a morte se tornou excessivamente cara. E com a morte, ou a sua proximidade, vem o declínio sexual (ou será a inversa?). Perante a côna (assim mesmo escrita, com o acento que lhe dá o declive de raiva perante a sua, agora, inacessibilidade) são as mulheres de Herberto, outrora sempre chamas vivas e alojadas na casa do amor, que são destituídas do seu lugar intemporal. Porém, que beleza sôfrega alberga este cenário de desolação. Se a morte o espera, aguarda-a também Herberto Helder, prestando-lhe esta (quiçá última!) homenagem ao incluí-la, quase domesticada, na sua fala. Que venha a morte – diz-nos Herberto Helder. – Que venha, porque eu já a escrevi. Sucede que a morte de Herberto Helder vem acompanhada pela morte do país que foi de Herberto Helder. No seu testamento o poeta tem essa certeza: o país que deixa é também ele um país suicidário. A poesia nada pode contra a morte. Nem enganá-la, nem remir o que se deixa para trás. Não para nós, para quem o poeta deixa indelével marca. Para o poeta, a quem a poesia parece já não salvar, nem vida nem país.

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