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Lentes progressivas para perceber a Europa que vem

Junho 2, 2014

Na maioria dos comentários sobre a Europa existe uma miopia, ou melhor, uma hipermetropia, porque embora a visão seja ajustada ao perto, desfoca tudo quando se pretende olhar mais para longe. Esta dificuldade óptica não é apanágio apenas dos comentaristas de serviço – ela aflige também reputados analistas e cientistas. O problema diz-se numa frase: a Europa é pensada na sua circunscrição antiga aos 15 países. Ora esta limitação que impregna as análises sobre a Europa tem implicado diagnósticos e modelos incorrectos. Veja-se por exemplo a quantidade de análises baseadas no modelo tripartido de Esping-Andersen. Neste notava-se o enfoque enviesado no mundo do norte, quer da Europa ocidental quer do espaço anglo-saxónico. Mas na época em que foi escrito (final dos oitenta) o mundo económico desenvolvido situava-se de facto aí. Actualmente é incompreensível querer agarrar no Esping-Andersen para explicar ou propor o que quer que seja para a Europa. Este é um comentário lateral do que julgo ser um enviesamento reiterado, e que surgiu novamente na análise das eleições europeias. O mundo a leste da Alemanha parece não existir, ou então fazer apenas a sua aparição através de grotescas imagens de guerras fratricidas.

Porém, esta hipermetropia só existe verdadeiramente deste lado de cá da Europa. A Mittle Europe compreendeu perfeitamente a mutação geopolítica, e as suas consequências económicas, decorrentes da adesão dos novos países à UE. É por isso que as crises do sul surgem para o outro lado da Europa, desta feita por efeito de uma exagerada miopia, como longínquas e desligadas. Sucede que, deste lado, pensar a Europa sem levar em linha de conta a grandeza de uma Polónia e, em corolário, o eixo Áustria-Alemanha-Polónia-República Checa como uma relação centro-periferia de direito próprio, é um equívoco. Dentro do mercado comum surgiram zonas privilegiadas, com afinidades específicas entre os países seus componentes. Atente-se na relação entre os oligopólios recentemente emergentes da onda de privatizações a leste e os velhos grupos económicos alemães e austríacos. Percebe-se também que este quadrilátero geopolítico é o buffer actual das políticas neoliberais na Europa. Diria que para percebermos as tendências europeias temos que prestar particular atenção àquela zona; não exclusivamente, como é evidente, mas com uma atenção redobrada. Uma das coisas é a natureza política das suas elites. Se houve uma deriva para a direita depois destas últimas eleições para o parlamento, ela foi mais pronunciada ainda nestes quatro países. Isto é contextualizável na sucessão oligopolista originada com a voragem privatista dos tempos da chock therapy a leste – os programas troikistas dos inícios dos noventa após a queda do muro. A Ucrânia mostra com efectiva violência e desmedida imoralidade o que é a política dos grandes oligopólios. Porém, a Ucrânia não faz, por enquanto, parte deste eixo. Todavia, as mesmas tendências, se bem que menos sanguinolentas, podem ser detectadas neste buffer do neoliberalismo imoral europeu. Os bancos austríacos abriram as portas ao capital dos gigantes dos monopólios naturais a leste; criando estruturas para semiparaísos fiscais que não sendo propriamente off shores oferecem condições semelhantes. E por isso resistiram às crises financeiras, não exigindo recapitalização, porque já tinham garantido liquidez através da distribuição dos monopólios estatais pelas elites corruptas – e doravante hipermilionárias – do leste europeu. O mesmo aconteceu com a Alemanha. É por isso enganador julgar a política europeia na linha do início da união, ou sequer da comunidade do carvão e do aço. A política europeia actual tem muito pouco de política, se formos benévolos, no sentido habermasiano do termo, e muito de equilíbrio entre oligopolistas e as suas jogadas. Merkel é o espelho desse estado de coisas. E o futuro, predigo, só o vai aprofundar. 

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