A morte sem mestre

A Morte Sem Mestre é o livro mais seco de Herberto Helder. Entenda-se aqui seco como esquemático, em esqueleto, e não com qualquer conotação afectiva. É também um testamento de alguém desiludido com o passar do tempo; do seu e do país. Olhar desencantado sobre a idade e a vida do poeta, onde nem a poesia, por mais conscientemente bela que seja, resgata o aproximar da morte. Foi tudo em vão? – perguntar-se-á Herberto Helder em vários momentos deste seu livro. Nós sabemos que não. Mas o poeta (o maior dos vivos) insiste em colocar uma cáustica dúvida sobre um sentido benigno que a criação – a única passível desse nome: a da nomeação poética – pudesse ter atribuído à sua vida. Um testamento suicidário por vezes. Mas esta morte possui uma beleza da economia poética que roça o trágico. Estamos afastados da carga por vezes vertiginosa de atributos, de prolixas modelações poéticas que faziam por vezes o verso ajoujar perante uma saciedade nunca adquirida. Agora tudo é mais sobriamente directo: não tenho dinheiro para comprar mais gás – que cara que está a morte. Retrato de um país, também, que se confunde com a degenerescência do poeta; retrato de um país onde a morte se tornou excessivamente cara. E com a morte, ou a sua proximidade, vem o declínio sexual (ou será a inversa?). Perante a côna (assim mesmo escrita, com o acento que lhe dá o declive de raiva perante a sua, agora, inacessibilidade) são as mulheres de Herberto, outrora sempre chamas vivas e alojadas na casa do amor, que são destituídas do seu lugar intemporal. Porém, que beleza sôfrega alberga este cenário de desolação. Se a morte o espera, aguarda-a também Herberto Helder, prestando-lhe esta (quiçá última!) homenagem ao incluí-la, quase domesticada, na sua fala. Que venha a morte – diz-nos Herberto Helder. – Que venha, porque eu já a escrevi. Sucede que a morte de Herberto Helder vem acompanhada pela morte do país que foi de Herberto Helder. No seu testamento o poeta tem essa certeza: o país que deixa é também ele um país suicidário. A poesia nada pode contra a morte. Nem enganá-la, nem remir o que se deixa para trás. Não para nós, para quem o poeta deixa indelével marca. Para o poeta, a quem a poesia parece já não salvar, nem vida nem país.

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Morrer na praia

A participação da selecção de futebol no mundial foi quase tão decepcionante quanto a prestação de uns famosos blogers que anunciaram o seu coming back com fanfarra e foguetagem. E digo quase porque os primeiros, do mal o menos, sempre algum esforço fizeram, enquanto dos segundos não se pode dizer o mesmo. Duas notas sobre estes acontecimentos aparentemente dissociados, mas que como veremos possuem interligações que à partida seriam insuspeitas.

Primeiro a selecção. Na Inglaterra, no último fim de semana, o tópico de conversas aciduladas e das maquinações “tablóidicas” foi uma declaração de Redknapp, o antigo manager dos Spurs (Go Spurs!!), que literalmente colocava a boca no trombone de maneira a provocar ondas de comoção que abalaram até as fundações de Westminster. Redknapp veio a terreiro revelar que em edições passadas do campeonato do mundo diversos dos seus jogadores pediram-lhe que os safasse da prestação nacionalista inventando um pretexto que os colocasse fora da convocação. Gerrard, o capitão da selecção, saltou para os media exigindo a redknapp a good old faschion name and shame attitude, acrescentando, com a mão encostada ao coração, que ninguém no grupo alguma vez teve intenções de abandonar o mundial.

Haverá alguma verdade na denúncia de redknapp, quanto mais não seja porque ela não faz mais do que corroborar relações que podemos intuir como sendo inerentes às actuais dinâmicas do desporto rei. O caso de Inglaterra não será dos mais emblemáticos, onde por acaso, dos convocados, 11 jogavam em equipas nacionais. Mas penso que se pode extrapolar para o exemplo português, onde apenas um jogador da equipa principal inicial joga entre portas nacionais. A pergunta a fazer é: como infundir um qualquer espírito de orgulho nacional em jogadores que jogam há mais de dez anos em países estrangeiros e cuja ligação que mantêm com Portugal passa apenas pelas chouriças nas férias do Natal que os familiares lhes oferecem e com essa fina correia de deificação mediática que os liga umbilicalmente ao país que os viu partir? Extensa pergunta, para curta resposta – pois, é difícil.

Esta é uma questão que deve ser analisada detalhadamente, à qual se liga a não menos intrigante dúvida sobre as implicações das estratégias de mercado no desempenho dos jogadores. Não será por acaso que a América Latina lidera este campeonato. Muito embora a grande maioria dos seus jogadores se encontre a jogar na Europa, esta contínua a ser ainda uma boa montra para mostrarem os seus dotes futebolísticos. Sucede contudo que outras tantas selecções cujos jogadores ganham na ordem de mais de quinhentos mil euros por mês, o trabalhinho do mundial parecer-lhes-á trabalho gratuito, uma espécie de horário zero do futebol, com o qual eles não estarão muito pelos ajustes. Se juntarmos o factor mercado ao factor desapego nacional, podemos começar a vislumbrar uma explicação para as péssimas prestações de selecções onde jogam alguns dos mais bem pagos jogadores do mundo (e supostamente dos melhores do mundo).

Afinal, que raio tem isto a ver com o blog dos super blogers mencionados atrás? Alguma coisa terá. Por exemplo, conquistada a fama e a glória, dispersos em obrigações variadas directamente associadas ao seu talento para a escrita, o interesse desinteressado (para utilizar uma modificação de uma formulação conhecida) deixou de cobrar dividendos e passou a ser simplesmente desinteresse. Por outras palavras, os super bloguers deixaram de estar para se chatear porque os benefícios não possuem a mesma utilidade marginal de outrora. Por isso tivemos uma selecção desconcertante, assim como temos um coitus interruptus de blog.       

A espacialização da desigualdade

As cidades são o melhor ambiente para ler as assimetrias sociais. Deixou de ser o consumo, com a massificação dos produtos, a extensão das condições de crédito, e a reapropriação da alta costura em ciclos de reciclagem pelas marcas populares e acessíveis. Certamente que a um certo nível o consumo ainda é a bitola pela qual ler essa assimetria. O consumo de luxo figura nessa ordem de categorizações. Contudo, quando a fasquia não é colocada tão alto, as formas consumistas oferecidas actualmente permitem uma mediania não distintiva a que a maioria tem acesso. Mas o desenho da cidade, porque menos perecível, assume, ele sim, o lugar da interpretação das assimetrias. Nada é mais explícito do que a incomensurável distância social e simbólica dos lugares com valorização fundiária por relação com a uniformidade da habitação prática de certos subúrbios. Isto porque a lógica da suburbanização não corresponde em todas as cidades a desclassificação. Em Portugal é visível que existem subúrbios altamente valorizados pelo mercado e outros completamente escorraçados das lógicas de valorização. A implicação mais imediata desta rejeição prende-se com um ciclo vicioso de falta de planificação reforçado pela impossibilidade de suscitar interesse a parcerias lucrativas. Dentro desta lógica, zonas existem que oferecem um conjunto de elementos que sobrepujam a sua condição suburbana, tais como proximidade do mar, proliferação de espaços verdes e zonas de baixa urbanização, bons acessos aos centros empregadores, e associação simbólica com zonas de estirpe nobre, como é o caso de Cascais e de Sintra que embora suburbanas… É certo que a mancha se fragmentou e que ao invés de uma dispersão radial em relação ao centro temos uma multiplicidade de centros que configuram outros tantos fenómenos de centralização de direito próprio. Seja como for, apesar desta morfologia se manter fundamentalmente análoga entre estes alglomerados policentrados, ou melhor, apesar de manifestarem sensivelmente a mesma estrutura urbana, não significa que ofereçam condições indênticas. Por essa facto, mesmo que uma zona como o Cacém ou Queluz ofereçam todos os benefícios da centralidade, inclusivamente serem adjacentes das rotas de comutação quotidiana, não possuem o mesmo efeito de atracção, nem para as mesmas classes, que zonas como Cascais ou Oeiras. Aliás, se há recorte onde a assimetria se instalou na ecologia urbana esse é com certeza o das duas linhas. De um lado, da linha de Sintra, a concentração não planificada, a distribuição racializada de territórios inóspitos, a escassez de zonas verdes ou intermediárias, e a conurbação por excesso, marca a resistência à valorização do mercado e o afunilamento da oferta para segmentos mais baixos. Do outro, a designada linha de Cascais, com a sua intencionalidade marítima, na qual a planificação obedece à estrutura dos gostos de segmentos de mercado elevados, com a proliferação de espaços verdes e zonas intermediárias porque de alta rentabilização fundiária, ou seja, a resistência ao aproveitamento intensivo do espaço porque o metro quadrado é altamente lucrativo, e as suas malhas de habitações singulares e isoladas (vivendas, condomínios, quintas) converge para uma configuração de urbanidade altamente atractiva para as classes altas. No meio destes dois polos, surge o fenómeno mais explosivo, e porventura o mais rentável dentre as escolhas do mercado imobiliário. A ocupação intensiva do centro da cidade pelas classes possidentes. A migração dos subúrbios de luxo para o interior da cidade metropolitana foi em Portugal mais tardia do que no resto da Europa. Mas deu-se, e tem atingido um vigor absolutamente assinalável que em nada fica a dever a grandes capitais como Paris ou Roma. Refiro-me à natureza do processo e não ao volume ou rentabilização. Facto é que o centro de Lisboa tem exercido a mesma atração simbólica e classista que a maioria dos grandes centros europeus. Aqui a assimetria assume os seus aspectos simultaneamente mais agudos e ilusórios. Agudos porque o centro da cidade tem servido de reserva do investimento capitalista em larga escada apenas e só para empreendimentos de gama alta e muito alta. O velho chavão de de devolver a cidade aos cidadãos funciona apenas para aqueles de altíssimo poder aquisitivo. E não deixa de ser curioso que com o desaparecimento de uma população idosa mais heterogénea estatutariamente, o centro seja assaltado por uma homogeneidade classista sem par. O centro de Lisboa actualmente é dos ricos e faz-se para os ricos. Ilusórios porque sendo o centro o lugar por definição das novas tendências e consumos culturais cria a ilusão de que se encontra aberto democraticamente. Nada mais falso. E se bem que, como observado frequentemente, é no centro que o protesto e a contestação exibem e ocupam o seu lugar performativo, não deixa por outro lado de ser verdade que o quotidiano habitado é exclusivo das classes possidentes. Podemos argumentar que na realidade existem zonamentos diferenciados no próprio centro, áreas de certa maneira marginais ao processo de nobilitação por cima. Julgo que é uma tendência transitória. Com a revalorização daquilo que é de natureza simbólica em detrimento de física, a diferenciação imposta pela capacidade de usufruir dessa configuração nobilitada (e acto contínuo, nobilitadora) será cada vez mais procurada e terá o seu preço de mercado cada vez mais inflacionado. Querem ver uma radiografia das assimetrias sociais da sociedade portuguesa? Desloquem-se por Lisboa.

O novo relativismo papal

O Papa Francisco, numa recente entrevista que concedeu a Henrique Cimerman, afirmou-se como relativista. Que outra coisa se pode chamar à premissa segundo a qual devemos julgar os actos do passado de acordo com os padrões das épocas em que estes aconteceram? Padrões éticos, morais, culturais, etc. Eis uma escorreita definição de relativismo histórico. Esta hermenêutica casuística serviu para justificar as atrocidades da inquisição e os “esquecimentos” de Pio XII relativamente ao holocausto. Para Francisco, tanto a inquisição como a actuação de Pio XII devem ser interpretados à luz dos valores e das forças sociais dos contextos históricos onde sucederam.

O relativismo nunca se deu muito bem com os três monoteísmos do livro. Nem o judaísmo, nem o cristianismo e o islamismo foram propriamente pródigos em sucessões relativistas, preferindo antes afirmar as verdades das suas interpretações enquanto emanações divinas e, por conseguinte, não relativizáveis. Mas é um facto que a igreja de Paulo II e agora a de Francisco abriu-se a uma tónica relativista por via do diálogo inter-religioso. Esta é uma experiência mais retórica do que realista, sobretudo quando cotejada com o historial dessas mesmas religiões. Sucede talvez, como diz Sloderdjik, que o cristianismo optou pela maior difusão em detrimento da maior intensidade; querendo com isso dizer que a expansão foi mais importante do que a vivência impoluta da fé cristã. Melhor dizendo, pesou mais na estratégia da igreja a disseminação da sua mensagem do que a fidelidade inatacável dos crentes a essa mesma mensagem. Nem sempre assim foi. Basta lembrar que em tempos agostinianos o inferno estava à partida lotado, e só muito poucos privariam com Deus no além eterno, tal era a exigência de conduta religiosa pela qual, nem que fizéssemos o pino, o mal por nós carregado seria extirpável.

A insistência no diálogo inter-religioso baseia-se num outro axioma assaz curioso: o de que as religiões do livro partem todas do mesmo texto e que as suas variações se devem mais a posturas perante o divino do que a programáticas vontades de reproduzir a versão verdadeira. Regressemos a Sloterdjick para quem os três monoteísmos subsistiram em virtude de se terem organizado em frentes de batalha, não apenas reclamando relações directas com a fé, mas também impondo centros de normatividade sem os quais a adesão plena não seria aceitável. É verdade que o proselitismo católico contradiz o zelo étnico judaico; e que o militantismo islâmico viveu na senda da dilatação da umma árabe, reivindicação quase étnica de circunscrição religiosa. Nisso podemos concordar: o catolicismo foi sempre aquele para quem o proselitismo se acomodou da melhor maneira ao corpo teológico. O judaísmo resolveu a questão da conversão através duma relação imanente entre fé e território; e o islamismo converte assegurando-se de uma lógica de indistinção entre poder temporal e sagrado. Nas suas formas mais radicais, quem vive sob o estado islâmico é um natural convertido.

No caso do relativismo moral, foi justamente de partes do sector da igreja católica que se montaram os maiores ataques. Em Portugal, por exemplo, todos nos lembramos de ver João Carlos Espada, a verberar Nietzsche por ser a semente do relativismo ocidental. E os criacionistas – o lado fundamentalista do cristianismo – são os primeiros a atacarem severamente o relativismo cultural que veem assenhorar-se das instituições educacionais através de plataformas como o pos-colonialismo, o multiculturalismo, e as políticas identitárias em geral. Não se julgue que estes corpos são por definição relativistas, que não o são. Mas a forma como interpelam certas verdades pretensamente adquiridas e inamovíveis é entendida por estes grupos como ameaças relativistas. Os neoconservadores também alinharam nesta cruzada. E deixaram de o fazer, curiosamente, quando a igreja católica, arrastando em certa medida a sua rival protestante, se abriu ao relativismo dialógico. De repente, nada é mais salutar do que dialoga com o outro, tomar o lugar do outro, deslocar-se hermeneuticamente para o lugar de quem produz juízos. O caso de Pio XII é exemplar. Quando Francisco pede clemência para Pio XII dizendo que ele estava apenas a comportar-se como homem da sua época, acrescentando inclusivamente que também os aliados fecharam os olhos aos comboios da morte, omite judiciosamente que o mesmo Pio XII era um indefectível defensor da tese do crime dos judeus. Não custa compreender que esta não era uma defesa inocente; tanto como dizer que o negacionismo é um posicionamento epistemológico. Sucede que se fiel à caridade cristã aceitou acolher muitos refugiados judeus, também é certo que fiel à doutrina mais tradicional optou por não se pronunciar em nome da igreja contra o genocídio, vindo depois a fazê-lo já com a guerra a terminar.

Esta espécie de relativismo ético é ainda mais admirável (no mau sentido) quando aplicado à inquisição. E estranho é ver um Papa a servir-se dos ardis do relativismo ético para fugir à responsabilidade de aplicar o selo de errado a algo que pode e deve ser julgado como errado. Isto mostra a dificuldade que a Igreja ainda encontra em conviver com a sua própria história. Sendo que este incómodo é tudo menos relativo.

O factor F

Não nutro uma admiração esfuziante pelos comentários futebolísticos de Rui Santos, na medida em que considero que é frequente vê-lo a desfiar banalidades quando comparadas, por exemplo, com o saber enciclopédico-táctico de um Joaquim Rita (o que não é demérito de R. Santos, apenas brilhantismo de Rita). Mas devo dizer que ontem Rui Santos no seu comentário televisivo me impressionou pelos tomates que arvorou, dizendo aquilo que os barões televisivos do futebol guardam ciosamente para discutirem entre whiskys e assinaturas de contratos chorudos com as produtoras de programas e respectivas estações. Por esta altura, Rui Santos corre perigo de morte. Depois do que disse de Pepe, Bruno Alves, e ai jesus, Ronaldo, não me admira que um escol de capangas do Bairro do Alemão venha a caminho de Portugal para lhe partir as pernas. Rui Santos não apenas disse que Portugal não jogou nada, como referiu o Factor F, leia-se o factor físico e as suas debilidades. Quanto a ele, o estágio em campinas não preparou os jogadores para o tipo de clima que viriam a apanhar na Bahia, e pior se antevê quando jogarem em Manaus. Mas utilizo a deixa para me apropriar do factor F reconfigurando-o em factor foda. E junto-me a Rui Santos dizendo que tudo aquilo me pareceu uma grandessíssima foda, emulando o desabafo tipicamente brasileiro: Isso é foda!

Que Rui Santos não utilizou tal vernáculo, escusado será dizer. O formato televisivo não o permite. Porém, a substância estava lá, e Santos não perdoou a falta de competitividade dos jogadores (palavras dele) e reclamou uma lavagem da honra à boa maneira siciliana se aqueles traidores não recuperassem o bom nome de Portugal. Eu concordo.

O que disse a seguir foi, contudo, mais preocupante. Assacou as culpas da má prestação da selecção às negociatas através das quais (e pelas quais) esta se move. Levantou apenas uma ponta do véu, porque não duvido que saiba bem mais; inclusivamente, saberá colocar nomes em personagens que deixou apenas identificadas por enigmáticas categorias: o super-agente, o clã burguês e instalado, o clube de amigos de cristiano ronaldo, etc. No seguimento de uma tal suspeição, não deixa de ser curioso ver Coentrão justificar a sua partida do Mundial mais preocupado com o início da época no Real Madrid do que com o desaire da selecção. E será que Patrício está mesmo lesionado, ou retirou-se matreiramente para não estragar a negociata com o Mónaco estendendo por mais tempo as suas asneiradas?

A questão do negócio é absolutamente relevante e os comentadores ex-futebolistas que devem conhecer estes meandros por dentro e por fora nunca a ela se referem. É uma omertà do futebol. Por isso julgo que seria mais apropriada a figura de uma máfia em detrimento da ideia de um clã. Há qualquer coisa de mafioso no futebol português, em particular na selecção. Talvez a imagem de um cu flatulento de que falava Bruno de Carvalho lhe seja extensível.

O coitadismo português

Levada a tareia da nossa vida, eis um exemplo acabado do coitadismo português: o texto de Miguel Esteves Cardoso. Foi tudo uma merda (no que está coberto de razão), mas a merda foi uma provação necessária para que aprendêssemos com os erros e nos apresentássemos em contendas futuras com couraças de confiança quais aquiles do desporto rei. Esta versão teve múltiplas formulações. Ora se aprendera com os erros; ora fazer pior era impossível; ou mesmo, agora que descemos às profundezas do inferno, onde segundo Dante se poderia encontrar Maomé, não temos outra hipótese se não vir à superfície como beluga em ímpeto respiratório. A conclusão é que o sofrimento purifica. Não sofrêssemos ao início e poderíamos encher-nos de bazófia, de convencimento extemporâneo, ou mesmo chegar a dizer coisas como “não estou a 110%, mas a 100 claro que sim”. Ainda bem que tivemos de passar por este ritual purificador, caso contrário teríamos ido cheios de empáfia lá pr’ós confins da brenha amazónica.  Nós não jogámos uma merda. Não. Nos desígnios insondáveis do cosmos futebolístico esta prova foi-nos colocada com intuitos propedêuticos. Agora curados, podemos avançar temerários para o que se segue. Aprendida a lição – são peanuts.

Não é a queda, mas a maneira como nos levantamos…Very zen e etc. É preciso erguer a cabeça, e depois do desaire nasce um novo dia. Nasce sempre. A filosofia new age é cheia de lugares optimistas. Por isso, contrariamente aos espanhóis, que derreteram a sua selecção num bonito ritual autofágico, nós decidimos confortar-nos com a narrativa da aprendizagem com os erros. Mas vamos mais longe: só despossuídos do prazer terreno de ganhar é que poderíamos retirar alguma virtude da nossa participação. Foi uma lição de despojamento terreno que a poderosa Alemanha não aprendeu. Pouco franciscanos estes boches. Gostam de ganhar, e com isso não aprendem nada, e tão-pouco podem almejar à salvação.  Enquanto nós, portugueses da velha cepa, aprendemos de rigor a lição franciscana. Despoja-te das conquistas terrenas e terás a salvação eterna. Foi isso que Ronaldo pensou, à espera da canonização. 

 

A importância de ser-se Ronaldo

A abertura do Mundial: tempo de paz, concórdia e esperança. Segue-se: – Alegria!

Dos tempos de cristo a cristiano ronaldo, o carisma é uma coisa que se transfere. As multidões a quererem tocar na fímbria da túnica de cristo, não era para avaliar a qualidade do tecido. Tocar a túnica de cristo significava partilhar da sobrehumanidade do mesmo. É nisso que consiste a transferência do carisma. Por exemplo, hoje em dia só pensam em tocar no cavaco se este esmaicer e cair desamparado com um  fanico. Doutra forma, ninguém quer chegar perto. O mesmo para Paulo Portas. Tempos foram aqueles em que mulheres de tempra e diversas inclinações morais se aproximavam para receber esvaído ósculo nas faces carnudas. Mas não mais. O contrário se passa com cristiano ronaldo, que parece ter açambarcado todo o carisma desta aldeia e arredores. Uma jovem elouquecida corre campo adentro para mostrar a sua tatuagem com cr7 na coxa a cristiano ronaldo. É parada pelos seguranças a meio caminho. Mesmo assim, confessa, exultante, aos jornalistas que agora cr7 sabe que ela existe. E depois fornece a pista para qualquer leitura dos dias correntes: recordada que não apenas cr7 a ficou a conhecer, mas o mundo, a jovem afirma enfática que era isso precisamente que pretendia, dando a entender que entre ser conhecida por cristiano ou pelo mundo não haveria uma diferença qualitativa. Eis a quadratura do círculo actual; eis o desvio narcísico de socializações malparidas. Assim como cristiano é conhecido em todo o mundo, ser conhecida por cristiano é partilhar essa exposição. Propriedade nº 1do carisma: o carisma é transitivo. A efusividade com que a jovem viveu o momento em que quase chegou perto de cristiano e este lhe assinou a camiseta… foi na realidade um não acontecimento. Contudo, ela viveu-o como um grande acontecimento na sua biografia. Algo que teria um antes e um depois, e onde a forma desse depois ficasse indelevelmente marcada pelo momento do não acontecimento. Propriedade nº 2 do carisma: o carisma é virtual. Mas eis que a jovem corria desesperadamente para ronaldo, e uma montanha humana se interpôs entre a sua corrida e o objecto desejado. Perante a “fita” desmedida da jovem, cristiano tem o gesto magnânimo de permitir que a jovem se aproxime. E isto faz dele uma pessoa ainda mais próxima dos meros mortais do que aquilo que ele é reconhecidamente pela sua exposição mediática. Propriedade nº3 do carisma: ele é fabricado.  

 O exemplo mostra, em formato de caricatura, que o carisma actual não é uma propriedade sobrenatural, associada a atributos mágicos, sagrados. Tão-pouco uma percepção exterior, através da qual tais atributos sejam, com razão ou sem ela, imputados ao objecto suposto da revelação. O carisma actual é fruto da exposição. Cristo arrastava multidões porque estas acreditavam no seu estatuto supraterreno. O mesmo para os césares, a quem a imagem de vitória perante a morte lhes outorgava um lugar no panteão dos imortais. Mas a corrida desta rapariga revela uma legitimação diferente. O contágio é o da exposição, do ser conhecido, mundialmente; a partilha, melhor dizendo, a transferência do objecto carismático para o seu seguidor, é feita à medida do reconhecimento da potencialidade que esse mesmo objecto tem de salpicar todos os outros com a exposição. É a lógica da casa dos segredos: quanto mais exposto, mais carismático.