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Adieu à l’Europe

Maio 27, 2014

De Portugal, o mais que podemos dizer é que a vitória do PS foi, nas acertadas palavras de Marques Mendes, pífia. Não tem motivos, por conseguinte, nem Seguro, nem a direcção para embandeirar em arco com tais resultados. Fez os mínimos quando tinha uma conjuntura ideal para obter os máximos. O BE desvaneceu-se, e assim continuará, a menos que arrepie caminho com a ideia mais idiota que foi tentada como estratégia partidária no contexto português: a liderança bicéfala. Quando, ainda por cima, as duas personalidades que dão corpo a uma tal bicefalia, são quase inexistentes – não obstante desdobrarem-se e ser impossível pedir-lhes mais – então em vez de uma singular inocuidade estamos confrontados com uma dupla inocuidade. É resultado da ausência de estratégia interna de criação de quadros e preparação e lideranças. Demos as voltas que dermos há coisas perenes nas organizações, e uma delas é a da preparação da sucessão de lideranças. O BE achou que estava acima destas minudências e agora vê-se a braços com uma escassez significativa de quadros directivos. É o que dá ter uma desconfiança estrutural em relação a formas de poder tradicionais. Se a isto somarmos o Olimpo de egos que entrem e saem, ora se filiam ora se independentizam, e arrastam parte do eleitorado do bloco, então temos um cocktail molotof nas mãos prestes a decepar-nos os dedos, caso estes fossem uma qualquer intenção de formar uma força política alternativa à esquerda – um Syriza português. Tal não aconteceu quando os factores estavam todos reunidos – nas últimas eleições legislativas -; afigura-se agora que ou a estratégia é radicalmente repensada e se saca um coelho da cartola – não dos portugueses, mas daqueles do norte da Europa que chegam a pesar 23 kl – ou o destino do BE é estiolar sem deixar saudades num eleitorado que ou está demasiado preocupado em fragmentar-se e criticar o poder (esse Poder com p maiúsculo que tanto atazana os espíritos efervescentes de algumas facções do BE) ou adora rever-se em alternativas situacionistas que em nada acrescentam para além do diletantismo político de, pegando no Jakobson, serem faticamente a possibilidade da liberdade – estar livre como princípio programático de uma ética política. Mas chega de BE. Passemos

Analisemos agora os comentários dos comentadores. Há uma conclusão que é tão repetida até à exaustão quanto é absurda. A ideia segundo a qual as pessoas não se revêem nestes partidos políticos, sendo que contido na contração “nestes” se encontra pressuposto que se fossem “outros” a adesão seria ribombante. É uma leitura falsa. Já se percebeu que os partidos podem fazer o pino, pôr as mamas de fora das suas candidatas (Ciciolina em Itália), confundir agendas ou dar frigoríficos – o eleitorado continuará alijado da eleição e com tendência para que esse distanciamento cresça. A forma abstenção não é um protesto, tão-pouco um fenómeno de falta de identificação com os ocupantes do espaço político. É antes uma desidentificação radical com o próprio espaço político, em última análise com a política. Muitos cientistas políticos gastam anos de vida na busca incessante dos factores motivacionais para o voto, aquela mola que desencadeia enxurradas de eleitores sobre determinadas preferências, e que, acto contínuo, pode fazer secar uma fonte em poucos meses. São questões de ordem alquímica que os fazedores de estatística e de opinião (o que actualmente é indistinto) colocam como cruciais. Ora o esgotamento do espaço político tem pouco a ver com factores motivacionais. Na realidade, se observarmos o comportamento do eleitorado enquanto não eleitores, ou seja, se lhes retirarmos o estatuto convenientemente analítico de “eleitor”, ou, pior ainda, o estatuto de cidadão perante as instituições da nação no seu papel de legitimador, o que se passa é que às pessoas deixou de interessar esta capacidade legitimadora. Não porque não se reveem nos propostas dos partidos, sobretudo aqueles do chamado arco da governação, mas porque não assumem mais a obrigação de legitimarem. Por esta altura, isto começa a soar à crise de legitimidade do Habermas; ou pelo menos a uma variação sobre o tema. Porém, não se trata do Estado; este já não é a instituição charneira para as questões-problemas de legitimação. Estes “deslegitimadores” encontram conforto em dois discursos que partilham entre si a mesma essência: por um lado o populismo de moralização das instituições na sua vertente extrema-direita. Distingo a versão da extrema-direita porque considero que ela apresenta aspectos peculiares que colocam a salvo um mesmo libelo a populismos – que sem dúvida nenhuma, o são – como os de Marinho Pinto. A diferença é que os apelos a um qualquer centro solidário perdido são feitos com base na retórica da culpa e do bode expiatório. Este é um aspecto muito próprio da extrema-direita, da francesa à dinamarquesa, da húngara à inglesa. Qualquer uma delas constrói uma ficção de “bárbaros à porta” com o objectivo de preservar um núcleo de pureza inicial onde se depreende exista a virtude. Daí que a crítica cerrada à desagregação, moral, das instituições seja sempre complementada com a eleição de um inimigo exterior, no caso vertente, os imigrantes. O populismo de Marinho Pinto não se serve dos mesmos dispositivos retóricos, e contém, a meu ver, aquilo que se pode descrever como um populismo social-democrata. É por isso que o exercício tão tenaz quanto cínico de aproximar os dois extremos igualando-os, tão caro a comentadores e políticos de direita, é obtuso, na melhor das hipóteses, uma sacanisse desabrida quando analisado à lupa.

Contudo, o discurso da implosão do centrão consegue ser ainda mais pobre. Esta é a canção de embalar que a esquerda gosta de cantar para si própria para adormecer. Daniel Oliveira, no panorama nacional, surge como seu vate destacado. Por esta altura já todos devíamos ter percebido que o “povo” não pretende penalizar o centrão, pelo menos de forma objectiva; e quanto muito apenas o faz como consequência não intencionada da desmobilização a que se votou. Se a intenção deliberada do eleitor racional e totalmente informado, pesando prós e contras das suas intenções, cotejando propostas e programas de partido, ponderando soluções para depois chegar com a certeza absoluta ao momento de depor o seu voto na urna convencido que optimizara o seu poder decisório e legitimador, ou seja, essa irracional ficção que os cientistas políticos colocam como cabeça de cartaz dos seus modelos, mas dizia, se a intenção fosse essa então não se explicaria a vitória de Merkel na Alemanha, do centrão na Áustria, Estónia, República Checa, Finlândia, Hungria, Látvia, Polónia, e tantos outros. Não há nenhuma implosão do centro. Pelo contrário, há uma deslocação do centro para a direita, para o conservadorismo. Aliás, se alguma coisa estas eleições europeias vieram confirmar foi a deriva, que doravante deixou de ser gradual, exponencial para a direita. Nunca a direita ocupou tantos lugares no parlamento. E uma direita que nem sequer tem medo de dizer ao que vem – é a direita mais conservadora, retrógrada e, essa sim, perigosamente populista, que jamais ocupou o parlamento europeu. Há quem considere que os populares perderam no hemiciclo. É um facto que em termos numéricos perderam. Mas como as políticas defendidas pelos populares e aquelas que os conservadores e os liberais democráticos defendem não se distanciam muito, possuem actualmente uma das maiores coligações dentro do xadrez político das possibilidades combinatórias. Não vale a pena tentarem ofuscar-nos com a vitória do Syriza ou sequer com os números muito expressivos do PCP. A leitura só pode ser uma: a esquerda perde a toda a linha. Uma derrota tão estrondosa que nem estes fogachos emancipatórios do sul da Europa representam grande oposição ao colosso de direita que nela se instalou. Cuidado com as leituras apressadas. Esta Europa não penalizou a austeridade. Esta Europa guinou inexoravelmente para a direita. Ora a direita mais conservadora – fascista mesmo – sempre viu na Europa uma possibilidade de guindar negócios e fazer circular capital com um à-vontade nunca antes existente. O resto, é fait divers. Por outras palavras, entre a Europa neoliberal dos populares e liberais-democratas e as formas mais conservadoras da direita existe um elo inquebrável: o mesmo interesse pela acumulação, o resto é fait divers nacionalista, umas vezes mais altissonante outras mais delirante. É a Europa do projecto social que fica definitivamente enterrada depois destas eleições. Agora, digam-me: – É isto cegueira dos europeus? Nada disso. Eles sabem exactamente para que votam. E desenganem-se aqueles que vêem um voto de protesto contra a politics as usual, como disse Cameron para assustar os seus correlegionários do conselho da Europa. Os europeus votam para proteger os seus quintais. Entre o desinteresse-desresponsabilização dos abstencionistas e a carneirada dos partidos populares e conservadores, e até fascistas, os europeus expressam o seu anti-colectivismo e ódio ao Estado. O único colectivismo que é ainda assim admissível é o identitário com forte expressão no nacionalismo renascido. O difícil equilíbrio durkheimiano entre o indivíduo e o colectivo onde se joga a possibilidade de solidariedade foi abandonado pela privatização absoluta dos interesses e dos projectos individuais. É por isso que a nova europa abraça a privatização das esferas de cidadania contra qualquer imagem que se traçasse de universalização, sobretudo se esta for sustentada pelo Estado. É a tragédia dos comuns. Contrariamente ao que certos arautos da utopia ao virar da esquina predisseram não estamos a caminhar para uma consciencialização global dos comuns, seja por esforço propedêutico da literatura abalizada seja pela dinâmica capitalista. Estamos sim a forçar uma rejeição in toto do próprio sentido de comum.

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