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O discurso da vítima como exercício de chico-espertismo

Maio 13, 2014

Sempre fui um crítico dos críticos mais encarniçados do politicamente correcto. Pela geografia política donde o conceito emergiu, o fosso entre o conservadorismo dos últimos e o gesto emancipatório dos primeiros era duma visibilidade patente. Mas com o tempo, e porque os contextos de apropriação não derivam todos da mesma matriz histórica e política, fui achando que há politicamente correcto e há aproveitamentos intelectualmente desonestos desse mesmo horizonte de significado. A obra que marca uma inflexão num certo consenso esquerdista sobre o politicamente correcto é o The Human Stain de Philip Roth. Depois desse livro, o politicamente correcto passou a ser enunciado com várias reticências a ele apostas. E de facto, veja-se por exemplo a vitimização de que alguns se fazem porta-vozes estabelecendo uma directa implicação entre uma pertença de carácter identitário e a impossibilidade do julgamento individual. É um estratagema. Dessa posição todos os atentados de carácter são admissíveis contra terceiros, mas qualquer crítica em direcção inversa é imediatamente arrolada ao discurso da vítima.

Não nego que factores históricos e pretéritos diferenciais de poder não tenham influência na ordem categorial construída por determinado universo simbólico. Mas nada é mais torpe do que escudar-se na vitimização grupal contra apreciações de carácter meramente individual. O politicamente correcto pode ser utilizado de duas maneiras: para alterar significados sociais de categorias subalternas ou excluídas de posições positivas da construção desses mesmos significados, ou como barreira contra a argumentação que envolve um círculo justificativo autoconfirmatório decorrente de se assumir, sempre e primeiro, toda afirmação a partir do lugar da vítima. Este estratagema cauciona qualquer atitude dentro do princípio da tolerância para com a vítima, que o é automaticamente porque como tal se apresenta. Mesmo que nada na sua biografia a autorize a falar da posição de vítima, apenas pela sua enunciação ganha esta um carácter performativo que cauciona moralmente quem assim se enuncia.

Chego então à conclusão que há algo de cobarde e de pouco político no politicamente correcto. Aliás ai reside o paradoxo do seu próprio conceito o que leva por vezes sectores menos esclarecidos a reforçarem a esteriotipia que se pretende combater em primeira instância. É fácil derrapar para raciocínios que atribuem um determinado comportamento porque afinal pertence a esta ou aquela categoria grupal – o “está-lhes no sangue” tão caro ao preconceito. Mas não está em sangue nenhum, e isto faz parte da esperteza de quem assume o discurso da vitimização mesmo dentro de contextos argumentativos que em nada lhe devem. Ao invés de ser algo naturalizado, essência da natureza de um grupo, acontece sim que é estrategicamente manipulado. Eu reforço a estoriotipia para que não restem dúvidas que eu pertenço incondicionalmente ao grupo cuja vitimização me autoriza a assumir esse estatuto. O que é essencializado deixa de ser o grupo para passar a ser o discurso da vítima. Qualquer crítica, comentário ou acusação é já e sempre apanhado pela desculpabilização vitimatória – e esta é, por definição, avessa à autocrítica. É pois do desejo de um anticonformismo generalizado apostado em dar voz às categorias que pretensamente a ela não acedem que se cai no mais profundo sono conformista de autorizar qualquer dislate sem o fazer passar pelo crivo da crítica exterior ao próprio sistema auto-justificativo do politicamente correcto. Este conformismo faz-se acompanhar de um anti-intelectualismo exacerbado, através do qual o sujeito vitimizado se esquiva ao exercício autocrítico porque a sua posição moral de vítima e de falar pelas restantes vítimas o autonomiza do julgamento dos outros. O elo é quebrado; o pretenso anticonformismo do porta-voz das vítimas inventa um lugar que o deixa comodamente ao abrigo de qualquer ataque dos sempre e já (neste jogo autorreferencial) pretensos algozes. É um jogo de espertos, de chico-espertismo na realidade, que poupa muito trabalho ao salutar exercício ético da justificação.

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