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O anti anti-édipo

Maio 9, 2014

Paulo Fonseca continua a semear o vergel da retórica futebolística com verdadeiras pérolas de sabedoria. Está longe, para sermos justos, da verbosidade de um Malheiro, para quem uma simples ideia tem de conter pelo menos 15 adjectivos senão nem sequer é digna de ser comunicada. Mas este pelo menos acerta na semântica.

Fonseca, em desabafo contido, confessou que o mais difícil foi ter de lidar com “egos e superegos” no FCP. O homem já se baralhava com a geografia, sobretudo se relacionada com os planaltos para lá dos Urais. Agora, com um florilégio pseudo-académico confessa-nos que a sua mágoa radicava afinal na difícil tarefa de mergulhar na estrutura e dinâmica da personalidade. Com grande estrondo de chapão, o tal mergulho. Pois a gente percebe que o superego para Fonseca é um superlativo do ego, e que ele utiliza o super como um sufixo e não o superego como conceito autónomo. Ou seja, cagou o Freud mais a sua estrutura da personalidade tripartida e vai daí o que é que pode ser mais insuportável do que um ego de uma estrela de futebol? Um superego de uma estrela de futebol!

Matutava eu nestes deslizes da linguagem futebolística, tão pressurosa em dar-se ares de cátedra, quando num programa que eu até me babo para ouvir – o Linha Avançada – surge o seguinte comentário por parte de Joana Martins da Antena 3: – O homem até se meteu por filosofias! Ao que José Nuno Martins – o carneiro amigo – deixando escapar uma gargalhada escarninha, retorquiu: – Já vai buscar o Nietzsche e o camano! Mau. Estávamos com a cena cagada. Não bastava o burro do Fonseca pontapear o superego do Freud, ainda vinham estes dois asnos radiofónicos confundir o superego com o Super Homem!

Em resumo, falta superego a esta gente. Em tempos em que everything goes e em nada se reflecte, a função do superego de censura social do ego, perdeu-se. Ou seja, andam ids à solta, sem freio nem mordaça, não castrados; édipos despidos de complexos, onde apenas recompensas abundam e nada de castigos. Certo e errado são posições intercambiáveis no grande diagrama do sucesso e das audiências. Assim vão as coisas na medio(cre)cratia dos nossos tempos.

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