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Não levem a mal

Maio 9, 2014

Morreu Graça Moura. Um grande poeta, um intelectual excepcional, um enorme, gigantesco, erudito… mas não era um grande homem. Escreveu sobre Camões, Bach, Pessoa, Steiner…, e conhecia todo e qualquer catarpácio que tivesse visto a luz antes de 1950. Traduziu das coisas mais difíceis que a humanidade produziu: parturejou uma Divina Comédia divinal; o que fez a Transtromer é digno da mais curvada vénia; deu Petrarca para as almas mais solitárias; assassinou Rilke por excesso de fusão de alter-egos; e brincou (no bom sentido) com os mais queridos filhos de Shakespeare (os seus sonetos) como quem descasca uma laranja, e ainda só estaríamos no início… Mas não era um grande homem.

Carregou para o túmulo uma catrefa de lugares, prebendas e conselhos de administração; outros tantos títulos honoríficos e lugares honorários; e no meio disso ainda lhe restava tempo para escrever e traduzir. Abundantemente. Mas não era um grande homem.

A minha homenagem fúnebre chega tardiamente porque considerando-o um escritor excepcional, temo que não deixe obra. Nem humana, nem literária. Sim, era um excelente poeta; mas não dos melhores. Sim, era um grande pensador; mas nunca deixou nada de relevante para a posteridade. Se alguma coisa, será recordado pelas traduções.

Comparemo-lo com Eduardo Lourenço, amigos de longa data. Esse sim, um gigante das letras e do ensaio – esse deixará obra vasta e redentora… do seu desaparecimento, quero dizer. A comparação é boa porque permite aquilatar a distância qualitativa entre estas duas figuras. Graça Moura, sendo um poeta de grande qualidade, emitia opiniões horrorosas. Aquilo que Pacheco Pereira pretende fazer passar por idiossincrasia, num largo encómio que lhe dedica, era mesmo a alma do homem. E essa não era bonita de se ver. Aquilo que classifica como o lado irreverente de GM, porque honesto, frontal, desempoeirado, não era nada disso, era simplesmente arrogante. E essa arrogância lia-se nas suas crónicas, nos favores que fazia a uns, enaltecendo-os, porque pertenciam a determinados círculos de eleição, não necessariamente eruditos ou literatos. Vasco Graça Moura era um negociador. E isso estava patente naquilo que escrevia para a esfera pública. Há uma distância assinalável entre o literato e político? Pois haverá. Mas onde um abunda por vezes de grande beleza; excede-se o outro em grande torpeza. Opiniões que foi emitindo ao longo dos anos, tantas de uma pusilanimidade hipócrita que dói quando se recordam. Favoritismo sistemático em análises que traçou da sua trupe do psd. Quão diferente, mesmo assim, de um Pacheco Pereira, que conserva um halo de liberdade intelectual invejável naquele circo de plutocratas. Vasco Graça Moura não era um heterodoxo, nem a liberdade de pensamento quadrava nele como uma aventura do saber. Mais uma vez compare-se com Eduardo Lourenço. Deste último ideias, frases, filosofias, sei lá que mais, ficarão para a posteridade. Serão lidas e comentadas; construírão visões do mundo. Serão descobertas e redescobertas. Não acredito que haja muito para redescobrir em Graça Moura. Tenho inclusivamente dificuldade em detectar nele um pensamento; algo maior do que a erudição deslumbrante – e em certa medida, deslumbrada – que possuía. Essa erudição não lhe serviu no entanto para pensar melhor o mundo. Pelos vistos Vasco Graça Moura gostava de se comparar com Borges. Injustificada a comparação, julgo. Borges é de outro universo – um cosmos imaginativo que Vasco Graça Moura nunca ousou, desde logo porque sempre foi homem de procedimentos técnicos e obedientes – mesmo quando a ironia lhe tecia as frases. Dever-se-á porventura – não me achem soez – aplicar-lhe uma maravilhosa frase de Borges que surge num prefácio à História Universal da Infâmia: “creio que os bons leitores são cisnes ainda mais tenebrosos e singulares do que os bons autores (…) Ler, entretanto, é uma actividade posterior à de escrever: mais resignada, mais civil, mais intelectual.” Graça Moura seria um desses cisnes, cuja escrita – ou o pensamento – nunca arriscou dar um murro na mesa ou correr o risco dos funâmbulos ao atravessarem a corda oscilante da imaginação.

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