Pela hora da morte

Anúncios

Adieu à l’Europe

De Portugal, o mais que podemos dizer é que a vitória do PS foi, nas acertadas palavras de Marques Mendes, pífia. Não tem motivos, por conseguinte, nem Seguro, nem a direcção para embandeirar em arco com tais resultados. Fez os mínimos quando tinha uma conjuntura ideal para obter os máximos. O BE desvaneceu-se, e assim continuará, a menos que arrepie caminho com a ideia mais idiota que foi tentada como estratégia partidária no contexto português: a liderança bicéfala. Quando, ainda por cima, as duas personalidades que dão corpo a uma tal bicefalia, são quase inexistentes – não obstante desdobrarem-se e ser impossível pedir-lhes mais – então em vez de uma singular inocuidade estamos confrontados com uma dupla inocuidade. É resultado da ausência de estratégia interna de criação de quadros e preparação e lideranças. Demos as voltas que dermos há coisas perenes nas organizações, e uma delas é a da preparação da sucessão de lideranças. O BE achou que estava acima destas minudências e agora vê-se a braços com uma escassez significativa de quadros directivos. É o que dá ter uma desconfiança estrutural em relação a formas de poder tradicionais. Se a isto somarmos o Olimpo de egos que entrem e saem, ora se filiam ora se independentizam, e arrastam parte do eleitorado do bloco, então temos um cocktail molotof nas mãos prestes a decepar-nos os dedos, caso estes fossem uma qualquer intenção de formar uma força política alternativa à esquerda – um Syriza português. Tal não aconteceu quando os factores estavam todos reunidos – nas últimas eleições legislativas -; afigura-se agora que ou a estratégia é radicalmente repensada e se saca um coelho da cartola – não dos portugueses, mas daqueles do norte da Europa que chegam a pesar 23 kl – ou o destino do BE é estiolar sem deixar saudades num eleitorado que ou está demasiado preocupado em fragmentar-se e criticar o poder (esse Poder com p maiúsculo que tanto atazana os espíritos efervescentes de algumas facções do BE) ou adora rever-se em alternativas situacionistas que em nada acrescentam para além do diletantismo político de, pegando no Jakobson, serem faticamente a possibilidade da liberdade – estar livre como princípio programático de uma ética política. Mas chega de BE. Passemos

Analisemos agora os comentários dos comentadores. Há uma conclusão que é tão repetida até à exaustão quanto é absurda. A ideia segundo a qual as pessoas não se revêem nestes partidos políticos, sendo que contido na contração “nestes” se encontra pressuposto que se fossem “outros” a adesão seria ribombante. É uma leitura falsa. Já se percebeu que os partidos podem fazer o pino, pôr as mamas de fora das suas candidatas (Ciciolina em Itália), confundir agendas ou dar frigoríficos – o eleitorado continuará alijado da eleição e com tendência para que esse distanciamento cresça. A forma abstenção não é um protesto, tão-pouco um fenómeno de falta de identificação com os ocupantes do espaço político. É antes uma desidentificação radical com o próprio espaço político, em última análise com a política. Muitos cientistas políticos gastam anos de vida na busca incessante dos factores motivacionais para o voto, aquela mola que desencadeia enxurradas de eleitores sobre determinadas preferências, e que, acto contínuo, pode fazer secar uma fonte em poucos meses. São questões de ordem alquímica que os fazedores de estatística e de opinião (o que actualmente é indistinto) colocam como cruciais. Ora o esgotamento do espaço político tem pouco a ver com factores motivacionais. Na realidade, se observarmos o comportamento do eleitorado enquanto não eleitores, ou seja, se lhes retirarmos o estatuto convenientemente analítico de “eleitor”, ou, pior ainda, o estatuto de cidadão perante as instituições da nação no seu papel de legitimador, o que se passa é que às pessoas deixou de interessar esta capacidade legitimadora. Não porque não se reveem nos propostas dos partidos, sobretudo aqueles do chamado arco da governação, mas porque não assumem mais a obrigação de legitimarem. Por esta altura, isto começa a soar à crise de legitimidade do Habermas; ou pelo menos a uma variação sobre o tema. Porém, não se trata do Estado; este já não é a instituição charneira para as questões-problemas de legitimação. Estes “deslegitimadores” encontram conforto em dois discursos que partilham entre si a mesma essência: por um lado o populismo de moralização das instituições na sua vertente extrema-direita. Distingo a versão da extrema-direita porque considero que ela apresenta aspectos peculiares que colocam a salvo um mesmo libelo a populismos – que sem dúvida nenhuma, o são – como os de Marinho Pinto. A diferença é que os apelos a um qualquer centro solidário perdido são feitos com base na retórica da culpa e do bode expiatório. Este é um aspecto muito próprio da extrema-direita, da francesa à dinamarquesa, da húngara à inglesa. Qualquer uma delas constrói uma ficção de “bárbaros à porta” com o objectivo de preservar um núcleo de pureza inicial onde se depreende exista a virtude. Daí que a crítica cerrada à desagregação, moral, das instituições seja sempre complementada com a eleição de um inimigo exterior, no caso vertente, os imigrantes. O populismo de Marinho Pinto não se serve dos mesmos dispositivos retóricos, e contém, a meu ver, aquilo que se pode descrever como um populismo social-democrata. É por isso que o exercício tão tenaz quanto cínico de aproximar os dois extremos igualando-os, tão caro a comentadores e políticos de direita, é obtuso, na melhor das hipóteses, uma sacanisse desabrida quando analisado à lupa.

Contudo, o discurso da implosão do centrão consegue ser ainda mais pobre. Esta é a canção de embalar que a esquerda gosta de cantar para si própria para adormecer. Daniel Oliveira, no panorama nacional, surge como seu vate destacado. Por esta altura já todos devíamos ter percebido que o “povo” não pretende penalizar o centrão, pelo menos de forma objectiva; e quanto muito apenas o faz como consequência não intencionada da desmobilização a que se votou. Se a intenção deliberada do eleitor racional e totalmente informado, pesando prós e contras das suas intenções, cotejando propostas e programas de partido, ponderando soluções para depois chegar com a certeza absoluta ao momento de depor o seu voto na urna convencido que optimizara o seu poder decisório e legitimador, ou seja, essa irracional ficção que os cientistas políticos colocam como cabeça de cartaz dos seus modelos, mas dizia, se a intenção fosse essa então não se explicaria a vitória de Merkel na Alemanha, do centrão na Áustria, Estónia, República Checa, Finlândia, Hungria, Látvia, Polónia, e tantos outros. Não há nenhuma implosão do centro. Pelo contrário, há uma deslocação do centro para a direita, para o conservadorismo. Aliás, se alguma coisa estas eleições europeias vieram confirmar foi a deriva, que doravante deixou de ser gradual, exponencial para a direita. Nunca a direita ocupou tantos lugares no parlamento. E uma direita que nem sequer tem medo de dizer ao que vem – é a direita mais conservadora, retrógrada e, essa sim, perigosamente populista, que jamais ocupou o parlamento europeu. Há quem considere que os populares perderam no hemiciclo. É um facto que em termos numéricos perderam. Mas como as políticas defendidas pelos populares e aquelas que os conservadores e os liberais democráticos defendem não se distanciam muito, possuem actualmente uma das maiores coligações dentro do xadrez político das possibilidades combinatórias. Não vale a pena tentarem ofuscar-nos com a vitória do Syriza ou sequer com os números muito expressivos do PCP. A leitura só pode ser uma: a esquerda perde a toda a linha. Uma derrota tão estrondosa que nem estes fogachos emancipatórios do sul da Europa representam grande oposição ao colosso de direita que nela se instalou. Cuidado com as leituras apressadas. Esta Europa não penalizou a austeridade. Esta Europa guinou inexoravelmente para a direita. Ora a direita mais conservadora – fascista mesmo – sempre viu na Europa uma possibilidade de guindar negócios e fazer circular capital com um à-vontade nunca antes existente. O resto, é fait divers. Por outras palavras, entre a Europa neoliberal dos populares e liberais-democratas e as formas mais conservadoras da direita existe um elo inquebrável: o mesmo interesse pela acumulação, o resto é fait divers nacionalista, umas vezes mais altissonante outras mais delirante. É a Europa do projecto social que fica definitivamente enterrada depois destas eleições. Agora, digam-me: – É isto cegueira dos europeus? Nada disso. Eles sabem exactamente para que votam. E desenganem-se aqueles que vêem um voto de protesto contra a politics as usual, como disse Cameron para assustar os seus correlegionários do conselho da Europa. Os europeus votam para proteger os seus quintais. Entre o desinteresse-desresponsabilização dos abstencionistas e a carneirada dos partidos populares e conservadores, e até fascistas, os europeus expressam o seu anti-colectivismo e ódio ao Estado. O único colectivismo que é ainda assim admissível é o identitário com forte expressão no nacionalismo renascido. O difícil equilíbrio durkheimiano entre o indivíduo e o colectivo onde se joga a possibilidade de solidariedade foi abandonado pela privatização absoluta dos interesses e dos projectos individuais. É por isso que a nova europa abraça a privatização das esferas de cidadania contra qualquer imagem que se traçasse de universalização, sobretudo se esta for sustentada pelo Estado. É a tragédia dos comuns. Contrariamente ao que certos arautos da utopia ao virar da esquina predisseram não estamos a caminhar para uma consciencialização global dos comuns, seja por esforço propedêutico da literatura abalizada seja pela dinâmica capitalista. Estamos sim a forçar uma rejeição in toto do próprio sentido de comum.

Tomai – este é o meu cálice

Há qualquer coisa de amargo na vitória de ontem do Benfica. Qualquer coisa que nem as patetices de Jesus sobre a pintura podem apagar. Era óbvia a dúvida no semblante de Jesus; mesmo os jogadores não estavam lançados nos festejos como estiveram no dia que ganharam o campeonato. Aquela oscilação de afectos e comportamentos tinha um nome: a incerteza. E se tivesse sido de outra forma? Porque o problema não é que as coisas possam ser de outra forma – podem sempre. Mas em matéria de probabilidades há margens e margens. E a vitória do Benfica na taça de Portugal – sentiu-se – patenteou uma margem tão curta. Era isso que reproduzia a falsa excitação de jogadores, equipa técnica e treinador. Todos sem excepção sentiram quão perto estiveram de as coisas se passarem de outra forma. Nem a esperteza marketeira de Jesus, com os três dedos da tripleta no ar; nem os efusivos títulos da Bola apagam a fantástica nuvem que pairou por momentos – largos momentos, para sermos francos – sobre o desenlace do jogo. Os adeptos sabiam-no também. Por isso o ajuntamento do Marquês foi o que foi. Por isso nos festejos junto ao Estádio da Luz só apareceu a arraia miúda. Ninguém gostou do jogo; ninguém gostou do Benfica. E sobretudo, perante aquilo que foi a realidade do Jamor – e não as fantasias policromáticas de Jesus – perguntamo-nos se o treinador não voltou a repetir os erros passados – se é possível que uma equipa como o Benfica chegue completamente nas lonas à final da Taça de Portugal. O que teria acontecido se o opositor fosse o Porto ou o Sporting? Não levaríamos a taça com certeza. Mas quem viu um Atlético de Madrid a jogar contra um Barcelona em antevéspera de embate titânico contra o Real Madrid na Champions, pergunta, legitimamente a meu ver, o que é que se passa com este Benfica? Se os grandes rivais tivessem ainda na corrida, ter-se-ia o Benfica aguentado nas canetas?

Raposo o Taliban

Nem de propósito: depois da taradice de Alá, Raposo dedica uma homilia a Fátima e à força do cristianismo. E começa pela severa advertência de que a “fé só é uma coisa gozável” na Europa. Donde se depreende que qualquer gozador é um eurocêntrico desvirtuado.

A fé dele, sem dúvida, porque a dos outros – como o exemplo da taradice de Alá ilustra – pode e deve ser objecto de mofa. O pecado de eurocentrismo parece só ser consequente para este caso da fé; porque noutras ocasiões – como por exemplo o excelso berço da ideia de liberdade ou da democracia – este libelo não se aplica. Por conseguinte, temos que bater na fé é eurocêntrico, mas fazer profissões de fé liberais com o respectivo enlevo europeu e cristão contra, por exemplo, o resto do mundo, já é sustentável.

Veja-se a duplicidade de critérios do plumitivo. De um lado, Alá tarado e sexo, do outro, a Força do Cristianismo e Fátima! Dois pesos e duas medidas na sua gesta da defesa da fé. Esta semântica religiosa – força do cristianismo e quejandas – afigura-se saída da santificação de João Paulo II e efemérides similares. Não soubéssemos nós que para esta facção liberal conservadora o problema maior da Europa chama-se islamismo. Esta facção em Portugal não tem tido o mesmo destaque que granjeou noutras paragens, como por exemplo a Holanda. E não o tem tido porque em Portugal não há uma comunidade muçulmana visível. Mas podemos ter a certeza de que o conservadorismo liberal se tinge com as mesmas cores, seja aqui seja na Holanda. O problema é que aqui, em Portugal, não existe verdadeiramente objecto, é portanto um programa virtual que serve mais de afazer intelectual e horizonte catastrofista do que repertório público de acção política.

Seja como for registe-se a coerência do escriba: num dia o título do seu artigo é um panegírico ao escarnecer da fé – o dia do Islão – no dia seguinte vem o autor dar lições de moral sobre a prevalência da fé enquanto modo de vida – o dia do Cristianismo. Como devemos interpretar isto? É simples. Para Raposo a crença dele é mais genuína e digna de respeito do que a dos outros, o que implica que a fé que ele por esta nutre seja mais aceitável. Ou seja, implica que se perceba que quando Raposo celebra a expansão da fé no mundo está a festejar a fé dele como a mais verdadeira. E isso foi o que todas as cruzadas e radicalismos fizeram e ainda fazem.   

   

Jesus Cristo é paneleiro ou aquilo era só celibato?

A liberdade religiosa deve ser respeitada até margens muito curtas. Como agnóstico que sou acho que a religião deve estar sujeita às mesmas apreciações e críticas que proliferam na maioria dos sistemas antidogmáticos. Como grande parte das coisas em que nós acreditamos na sociedade actual não se baseiam em dogmas nem na fé, mas antes na discussão e no controlo da informação, estabelecer linhas de ultraje para além das quais não se pode avançar sob a justificação de dogma religioso não é garantidamente um bom processo de expressar convicções na esfera pública. Tal é válido para o Islão, como para o Cristianismo ou para o Judaísmo e para qualquer outra religião ou seita. Por exemplo, se decidirmos acreditar que a nossa senhora apareceu em cima de uma oliveira e que isso nos move a peregrinar a Fátima todos os anos, não podemos escudar-nos numa qualquer respeitabilidade inerente à crença contra a possibilidade de sermos chamados de parvos. Nem tão-pouco exigir que isso seja um direito.

 Infelizmente as coisas não funcionam assim. Há, para ser franco, demasiada consideração relativamente às crenças religiosas, quer por imposição institucional quer por censura social quotidiana. E sobretudo, como ditar fronteiras de respeitabilidade tem a ver com poder e com quem o detém, observa-se uma contenção em demasia relativamente à religião maioritária do país, neste caso o catolicismo. Aqui a censura parece operar de forma mais efectiva do que noutros casos.

Dito isto, o título do artigo de Raposo no expresso “Alá é tarado ou isto é só sexo” não é admissível sob nenhum prisma. Primeiro, porque parece ser uma provocação gratuita. Como eu não imagino publicarem no Expresso um artigo com o título “Jesus Cristo é paneleiro ou aquilo era só celibato”, pergunto-me por que o fazem com Alá? A liberdade de expressão só existe quando é equilibrada, senão é liberdade de expressão de apenas alguns. Quando alguns – que nesta caso até são a maioria -, se arrogam de defensores do respeito das suas crenças – Raposo é declaradamente católico e por mais do que uma vez já defendeu a sua dama na esfera pública e nos media – mas vilipendiam as dos outros, isto não é usar de liberdade de expressão, é sim abuso de poder.

Que fique claro que estou-me nas tintas para se Alá era tarado ou não; exactamente da mesma maneira que considero ridículo aquela romaria de fervor votivo anual a um milagre que continha segredos anedóticos. Mas como vejo muito respeitinho mediático pelo segundo, e intervenções do jaez desta do Raposo no que toca ao primeiro, justifica-se perguntar por que razão não são utilizados os mesmos dispositivos semânticos de derrisão e desprezo em relação a outras crenças.

O discurso da vítima como exercício de chico-espertismo

Sempre fui um crítico dos críticos mais encarniçados do politicamente correcto. Pela geografia política donde o conceito emergiu, o fosso entre o conservadorismo dos últimos e o gesto emancipatório dos primeiros era duma visibilidade patente. Mas com o tempo, e porque os contextos de apropriação não derivam todos da mesma matriz histórica e política, fui achando que há politicamente correcto e há aproveitamentos intelectualmente desonestos desse mesmo horizonte de significado. A obra que marca uma inflexão num certo consenso esquerdista sobre o politicamente correcto é o The Human Stain de Philip Roth. Depois desse livro, o politicamente correcto passou a ser enunciado com várias reticências a ele apostas. E de facto, veja-se por exemplo a vitimização de que alguns se fazem porta-vozes estabelecendo uma directa implicação entre uma pertença de carácter identitário e a impossibilidade do julgamento individual. É um estratagema. Dessa posição todos os atentados de carácter são admissíveis contra terceiros, mas qualquer crítica em direcção inversa é imediatamente arrolada ao discurso da vítima.

Não nego que factores históricos e pretéritos diferenciais de poder não tenham influência na ordem categorial construída por determinado universo simbólico. Mas nada é mais torpe do que escudar-se na vitimização grupal contra apreciações de carácter meramente individual. O politicamente correcto pode ser utilizado de duas maneiras: para alterar significados sociais de categorias subalternas ou excluídas de posições positivas da construção desses mesmos significados, ou como barreira contra a argumentação que envolve um círculo justificativo autoconfirmatório decorrente de se assumir, sempre e primeiro, toda afirmação a partir do lugar da vítima. Este estratagema cauciona qualquer atitude dentro do princípio da tolerância para com a vítima, que o é automaticamente porque como tal se apresenta. Mesmo que nada na sua biografia a autorize a falar da posição de vítima, apenas pela sua enunciação ganha esta um carácter performativo que cauciona moralmente quem assim se enuncia.

Chego então à conclusão que há algo de cobarde e de pouco político no politicamente correcto. Aliás ai reside o paradoxo do seu próprio conceito o que leva por vezes sectores menos esclarecidos a reforçarem a esteriotipia que se pretende combater em primeira instância. É fácil derrapar para raciocínios que atribuem um determinado comportamento porque afinal pertence a esta ou aquela categoria grupal – o “está-lhes no sangue” tão caro ao preconceito. Mas não está em sangue nenhum, e isto faz parte da esperteza de quem assume o discurso da vitimização mesmo dentro de contextos argumentativos que em nada lhe devem. Ao invés de ser algo naturalizado, essência da natureza de um grupo, acontece sim que é estrategicamente manipulado. Eu reforço a estoriotipia para que não restem dúvidas que eu pertenço incondicionalmente ao grupo cuja vitimização me autoriza a assumir esse estatuto. O que é essencializado deixa de ser o grupo para passar a ser o discurso da vítima. Qualquer crítica, comentário ou acusação é já e sempre apanhado pela desculpabilização vitimatória – e esta é, por definição, avessa à autocrítica. É pois do desejo de um anticonformismo generalizado apostado em dar voz às categorias que pretensamente a ela não acedem que se cai no mais profundo sono conformista de autorizar qualquer dislate sem o fazer passar pelo crivo da crítica exterior ao próprio sistema auto-justificativo do politicamente correcto. Este conformismo faz-se acompanhar de um anti-intelectualismo exacerbado, através do qual o sujeito vitimizado se esquiva ao exercício autocrítico porque a sua posição moral de vítima e de falar pelas restantes vítimas o autonomiza do julgamento dos outros. O elo é quebrado; o pretenso anticonformismo do porta-voz das vítimas inventa um lugar que o deixa comodamente ao abrigo de qualquer ataque dos sempre e já (neste jogo autorreferencial) pretensos algozes. É um jogo de espertos, de chico-espertismo na realidade, que poupa muito trabalho ao salutar exercício ético da justificação.