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O regresso do morto-vivo

Abril 9, 2014

Sempre que dobra a finados pela etnicidade ela irrompe como vapor das furnas da política. Um certo discurso complacente com o marketing e estratégias de takeover empresariais vende que as nações já não são o que eram, que o etno-nacionalismo é um quadro cultural incompatível com a globalização, que chineses são apenas chineses enquanto não forem comprados pela Warner ou americanos, americanos enquanto não forem alienados pela Fujitsu, e por aí afora. Mas a verdade é que o caldo étnico quando em ebulição mostra as garras da violência e destruição exactamente como fez na sua “paz” post-westphaliana. O último exemplo chega-nos da Ucrânia. Não há muito mais para dizer sobre a crise da Crimeia, a sua anexação forçada, a hipocrisia russa na condução do processo – nada que não tenha sido já dito, redito, escalpelizado em multivocais fontes mediáticas. Todavia, se o nacionalismo russo que pretende seccionar o país é o espelho do projecto imperialista de Putin, o que se eleva do outro lado tingido com as cores do nacionalismo ucraniano é igualmente preocupante. Caso para dizer, que venha o diabo e escolha. E os diabos, não um único e singular omnipotente senhor do mal, têm vindo a fazer as suas escolhas avançando no xadrez geopolítico com jogadas insuspeitas. Veja-se o apoio que a Alemanha tem dado ao partido de extrema-direita ucraniano Svoboda. Faz lembrar a complacência grega – do governo da direita grega – mediante a ascensão da Aurora Dourada. Sucede que o caso ucraniano possui uma expressão mais terrífica, desde logo porque se perfila no horizonte uma guerra civil. Ora, o Svoboda é um partido neo-nazi com relações institucionais com os neo-nazis do NPD alemão. E leio no Der Spiegel que a K. Adenauer Stiftung, uma espécie de Ford fundation para o governo de Merkel e os seus neoliberais, tem apoiado altas figuras do Svoboda. Continuo a ler, e chego à conclusão que o apoio deve justificar-se porque o Svoboda teve o cuidado de entronizar os soldados ucranianos que pertenceram às Waffen SS na luta contra o perigo comunista – heróis nacionais, pois então!

Posto isto, ninguém consegue descortinar se a Europa brinca com o fogo ou se simplesmente quer que o circo arda de vez para apenas reinarem multinacionais germânicas numa distopia a la solen green. Leva também a pensar que a libertação do jugo russo – que era real – tem um preço que não se coaduna propriamente com o horizonte (ou a miragem dele) democrático. Para a Alemanha, mas também para Barroso, e para os populares europeus em geral, as facções, e os governos de extrema-direita não parecem incomodá-los. Pelo contrário, tudo indica que vêem na sua ascensão perspectivas de terraplanagem social mais eficazes do que o empecilho das democracias organizadas. Mas o caldeirão de orgulhos pátrios que se está a formar na Ucrânia só pode conduzir a um resultado: o regresso da estratégia da cortina de ferro. É que os russos, mesmo contentando-se com a Crimeia, não vão tolerar uma guerra étnica e fratricida paredes-meias com o seu império. E se preciso for entram pela Ucrânia adentro para estancar a sangria. Vimos isto antes, noutro cenário: chamava-se Jugoslávia e os coaguladores eram por essa ocasião os americanos. Os resultados não poderiam ter sido melhores.

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