O regresso do morto-vivo

Sempre que dobra a finados pela etnicidade ela irrompe como vapor das furnas da política. Um certo discurso complacente com o marketing e estratégias de takeover empresariais vende que as nações já não são o que eram, que o etno-nacionalismo é um quadro cultural incompatível com a globalização, que chineses são apenas chineses enquanto não forem comprados pela Warner ou americanos, americanos enquanto não forem alienados pela Fujitsu, e por aí afora. Mas a verdade é que o caldo étnico quando em ebulição mostra as garras da violência e destruição exactamente como fez na sua “paz” post-westphaliana. O último exemplo chega-nos da Ucrânia. Não há muito mais para dizer sobre a crise da Crimeia, a sua anexação forçada, a hipocrisia russa na condução do processo – nada que não tenha sido já dito, redito, escalpelizado em multivocais fontes mediáticas. Todavia, se o nacionalismo russo que pretende seccionar o país é o espelho do projecto imperialista de Putin, o que se eleva do outro lado tingido com as cores do nacionalismo ucraniano é igualmente preocupante. Caso para dizer, que venha o diabo e escolha. E os diabos, não um único e singular omnipotente senhor do mal, têm vindo a fazer as suas escolhas avançando no xadrez geopolítico com jogadas insuspeitas. Veja-se o apoio que a Alemanha tem dado ao partido de extrema-direita ucraniano Svoboda. Faz lembrar a complacência grega – do governo da direita grega – mediante a ascensão da Aurora Dourada. Sucede que o caso ucraniano possui uma expressão mais terrífica, desde logo porque se perfila no horizonte uma guerra civil. Ora, o Svoboda é um partido neo-nazi com relações institucionais com os neo-nazis do NPD alemão. E leio no Der Spiegel que a K. Adenauer Stiftung, uma espécie de Ford fundation para o governo de Merkel e os seus neoliberais, tem apoiado altas figuras do Svoboda. Continuo a ler, e chego à conclusão que o apoio deve justificar-se porque o Svoboda teve o cuidado de entronizar os soldados ucranianos que pertenceram às Waffen SS na luta contra o perigo comunista – heróis nacionais, pois então!

Posto isto, ninguém consegue descortinar se a Europa brinca com o fogo ou se simplesmente quer que o circo arda de vez para apenas reinarem multinacionais germânicas numa distopia a la solen green. Leva também a pensar que a libertação do jugo russo – que era real – tem um preço que não se coaduna propriamente com o horizonte (ou a miragem dele) democrático. Para a Alemanha, mas também para Barroso, e para os populares europeus em geral, as facções, e os governos de extrema-direita não parecem incomodá-los. Pelo contrário, tudo indica que vêem na sua ascensão perspectivas de terraplanagem social mais eficazes do que o empecilho das democracias organizadas. Mas o caldeirão de orgulhos pátrios que se está a formar na Ucrânia só pode conduzir a um resultado: o regresso da estratégia da cortina de ferro. É que os russos, mesmo contentando-se com a Crimeia, não vão tolerar uma guerra étnica e fratricida paredes-meias com o seu império. E se preciso for entram pela Ucrânia adentro para estancar a sangria. Vimos isto antes, noutro cenário: chamava-se Jugoslávia e os coaguladores eram por essa ocasião os americanos. Os resultados não poderiam ter sido melhores.

As gorduras do Estado

Diz a direita – e a isso tanto se tem afadigado – que o Estado é mal gerido, numa relação quase de cisma crónica com o incomportável peso da despesa pública. Os cortes draconianos sobre os salários dos funcionários públicos têm funcionado como um aneurisma aplicado habilmente ao corpo do paciente. E ele lá vai cumprindo o destino orgânico que lhe foi determinado: a degenerescência. Todavia, nenhuma razão cabal tem sido avançada que explique porque é que este assalto às forças vitais do Estado se faz pela base e não pelo topo. Deixem-me dar um exemplo. No Estado proliferam grupos de trabalho, comissões especializadas para tratar de assuntos que putativamente só uma mão-cheia de especialistas terá competência para lidar. Estas comissões são ocupadas quase sempre pelas mesmas pessoas, e estas incorporam um triângulo social e político cujos vértices representam, um, o elo político-partidário, dois, o elo técnico-administrativo, três, o elo hierárquico-organizacional. Estes três vértices representam comportamentos situacionais diferenciados que ajudam a posicionar estes participantes numa estrutura de privilégios sui generis. Primeiro, o elo político-partidário. Quando se dá o caso de existir uma afinidade electiva entre lugar partidário e lugar político, ou seja, e explicitando o significado do segundo, capacidade decisória sobre uma determinada matéria ou de influência sobre determidado processo. Segundo, o elo técnico-administrativo. Quando de alguma maneira aquela pessoa é considerada como tendo uma aptidão particular para solucionar um dado problema, não tanto pelo seu conhecimento intrínseco na matéria, mas pelos dividendos que capitalizou ao pertencer a círculos onde essa matéria é central, ou seja, pela rede social acumulada, que tem por conteúdo essa área temática.  Terceiro, um lugar onde a delegação de competências seja possível e onde a sua substituição nessa mesma cadeia hierárquica seja pouco provável. O que importa reter é que o conhecimento das temáticas para as quais se organizam os grupos de trabalho não é o mais importante.

Ora, estes grupos de trabalho são pagos a peso d’ouro; e na medida em que a rotatividade dos seus elementos é restricta, pessoas existem que retiram opíparos proventos desta teia comitológica. Dando-se o caso de uma senha de presença ser custeada a 500 euros – independentemente da duração de uma destas reuniões: pode inclusivamente ser de uma hora – quem participar em 7 ou 8 grupos de trabalho leva para casa um ordenado extra de 4000 euros, livre de impostos. Estas “gorduras” do Estado, como a direita gosta de chamar, nunca são atacadas, tão-pouco a sua dimensão imoral salta para o domínio público. E no entanto eles proliferam nas instituições do Estado. 

In dog we trust

A questão da reestruturação da dívida não é uma questão económica; é uma questão de democracia. Para os credores, a reestruturação significa que os cidadãos têm alguma coisa a dizer sobre os mercados, e isso é anátema para a lógica de funcionamento neoliberal. Streck, num livro que merece mesmo muito a pena ser lido, equacionou os tempos de crise não com o fim do capitalismo (as the likes of Zizek e Negri) mas com o fim da democracia; ou aquilo que ele apelida os últimos dias do capitalismo democrático. Parece-me coberto de razão. O que se encontra em desgaste crónico não é a expansão do capitalismo e a sua capacidade schumpteriana de renovação através da crise, mas a democracia no seu mais elementar aspecto: a capacidade que os cidadãos possuem de influenciar decisões. Podemos sempre pensar que essa capacidade sempre foi um logro e que a democracia funcionou sempre em registo mais do que imperfeito. Embora plausível, uma tal conclusão labora num erro. O equilíbrio entre a hegemonia estatal ou estatizante e a liberdade do mercado esteve sempre crivado de dilemas, avanços e recuos, dos quais o Estado-providência configura porventura o melhor exemplo. Mas a questão actual é mais complexa, ou mais simples, conforme a perspectivemos. Os think tanks associados às grandes fortunas dão-lhe o nome de plutonomia, algo que se encontra para além da mera plutocracia – regime crónico da assimetria material em democracia – desde logo porque se protege contra a intromissão de dilemas distributivos. É justamente isso que significa plutonomia: a autonomia do poder do dinheiro fora de qualquer mecanismo reequilibrador ou de qualquer tentativa de controlo cidadão. Por esse facto, quando o governo se coloca contra a reestruturação da dívida não é porque esta afecte a confiança dos mercados no ironicamente designado processo de consolidação, mas antes porque pretende defender a plutonomia dos credores. A reestruturação da dívida é ainda assim prerrogativa de uma sociedade democrática. Ela não é meramente uma boa solução financeira para a saúde económica do país. Melhor ou pior, a acreditar nos desequilíbrios sistémicos gerados pelas dívidas soberanas, se um cair, caem todos os outros como num dominó. Os credores sabem disso. O que eles não querem é abrir um precedente que revele a capacidade actuante dos mecanismos democráticos – é isso que, em última análise, é insuportável para os senhores do dinheiro.