A Europa está cheia de boas intenções

Estamos todos consternados com os resultados da Marine Le Pen. A extrema-direita, meu deus, a extrema-direita à porta da cidade! E a Europa, coitada, acossada pelo monstro do fascismo. Por exemplo, Marine Le Pen, baseando-se na ideia de que apenas 5% dos imigrantes trabalham em França – estando os outros ou demasiado velhos ou a viver da segurança social – sugeriu que imigrante que perdesse o trabalho em França deveria ser imediatamente expatriado. Medida dura; duma dureza autoritária e discricionária. Típica coisa que se espera de um partido da extrema-direita como a FN… Hang on!, a Alemanha actual (não a nazi, note-se) introduziu uma lei que obriga os imigrantes a encontrar emprego em três ou seis meses – conforme os casos, ou a estação do ano, supõe-se – quando desempregados, senão guia de marcha e ala recambiados para o país de origem. Que liberdade! Que liberalismo! É caso para nos ufanarmos da Europa dos direitos humanos em que vivemos!

Por isso… extrema-direita, que vem aí, que Rangel, o nosso psdeéico de estimação a vegetar lá pr’ó doce vergel bruxelense, diz temer mais do que o comunismo estalinista (faz de conta), que ameaça as nossas democracias – ai dios mio que vem aí a extrema-direita… Pois que venha, porque ninguém notará a diferença. Mais labrosta menos labrosta – e estes até são bastante – que interessa isso para o sufoco em que este paraíso estagnado se tornou? Que me interessa a mim a preocupação rangélica com a srª le Pen se a Alemanha de Merkel consegue ultrapassá-la pela direita e com justificações sensatas, elaboradas, aceitáveis para a razão mediana? Sucede que a Alemanha considera razoável uma pessoa arranjar emprego em três meses, mesmo que a nenhum dos seus cidadãos essa exigência seja colocada. Três meses numa conjuntura de desemprego estrutural crónico, mais vale, cum caneco, jogarem roleta russa com as cabeças depenadas dos imigrantes desempregados. Isso sim, mostrava que tínhamos aprendido alguma coisa com os Kmhers rouges e que aquela chacina não fora em vão.

Agora, com lei, régua e esquadro estatísticos a explicarem coisas simples como “Auslander Rauss!” é demasiado certinho, profilático, nada romântico (onde estás tu ó romantismo germânico de antanho?); tão europeizante que nos deixa com água na boca para a próxima medida simpática. Claro que os apelos à concitação esquerdista ou centrista ou qualquer outra coisa que lhes aprouver contra um potencial alargamento da base eleitoral da srª Le Pen em muito têm insistido na sua xenofobia. Mas o nosso cônsul, vejam lá como as coisas são, perante a draconiana medida do Reichstag, asseverou a opinião pública que a comunidade portuguesa está a salvo de uma tal razia. Os portugueses são adorados lá por aqueles bandas; trabalhadores, obedientes, acatadores das ordens da hierarquia, ninguém lhes teria um defeito a apontar. A unidade imigrante é comovente perante declarações deste jaez. Isso é lá coisas para o Norte de África e os desvalidos da Roménia e da Bulgária!, diz o nosso cônsul com a convicção da Real Politick. Venha lá a xenofobia da Srª Le Pen que nós, portugueses, desse copo já bebemos – e foi de penalti!

Pacto para a natalidade

A hipocrisia do psd não tem limites. O topete que é vir falar de um pacto para a natalidade com o país em sangria compulsiva, a ser exaurido das suas forças mais jovens e preparadas. Porventura, o acto de contrição foi sugerido por ocasião da morte do presidente da associação das famílias numerosas. Meritória instituição que considera que ter filhos é o timbre para distinguir seres humanos prestáveis de inúteis valdevinos sem comandita na grande organização do capital familiar. Assim se compreende a oportunidade de um tal pacto.

Porém, a pergunta surge contra a convicção asinina de quem subscreveria uma tal coisa: o que foi feito do pleito pela locomoção, do “deixem a zona de conforto”, do combate ao imobilismo sacramentado por espíritos pouco dados à necessária mudança? E por que são estas questões essenciais? Porque a baixa de natalidade se deve, em parte não despicienda, à partida de tantos e tão jovens deste país de cegos. Ora se mandamos pr’às urtigas estes belos varões, em idade casadoira e reprodutiva, de que nos queixamos afinal? De que os velhos não fazem filhos? A terceira idade gosta do gozo mas é mais uma coisa mundana e menos o levar o mundo às costas para criar novas criaturas risonhas? Não assumimos nós que seríamos acusatórios para aqueles que gostam de “praticar de alguma forma o imobilismo”, na bela expressão do actual presidente da câmara municipal de chaves, misto de libelo pós-moderno com reorganização da territorialidade administrativa do Estado português? Se o mote governamental é toca a mexer que se faz tarde, mesmo que isso implique mudança de país por que assumiríamos que os jovens, qual galinhas poedeiras, voltariam à capoeira pátria para parirem os seus?

O que é engraçado (ou não tanto) é o PS alinhar nesta inútil folia dos pactos nacionais. Quando no mesmo dia se sabe que metade dos jovens portugueses não consegue abandonar a casa dos pais, querem que os putos façam e cuidem dos filhos onde? Na varanda das distintas mansões paternas? O PS, cicerone das ditas medidas de cariz social cagadas pela cúpula europeia vem propor um regime de tele-trabalho ou de jornadas contínuas, na sequência da brilhante consideração psdeéica do regime de part-time. Estes sonsos sabem ao que vêm. A razão pela qual os portugueses – os que ainda cá ficam – não fazem filhos chama-se precariedade e não, como pretendem estes encantadores de serpentes, dificuldades em acomodar a maternidade (ou paternidade) à jornada de trabalho. Aliás, dando-se o caso de Portugal ser dos países europeus ocidentais com menor tempo de licença de parto, poder-se-ia começar por aí. Ah, mas não, porque isto colide com a santa produtividade… E por isso temos casais cagados perante a hipótese de perderem os empregos que não se metem a fazer filhos e gente que não encontra possibilidade de os criar mediante as exigências cada vez mais cavalares dos regimes laborais a que os empregadores sujeitam actualmente as famílias.

Venha mais um pacto pa inglês ver, porque nós gostamos sempre de sair bem naqueles estudos da EU que comparam políticas. E por aí, até temos aldrabado os nossos parceiros.