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No princípio já não é o verbo

Fevereiro 24, 2014

Houve um tempo em que a linguagem religiosa se confundia com os grandes sistemas filosóficos. E isto não era apenas para o ocidente. Actualmente, a linguagem religiosa assemelhe-se mais a uma língua de trapos, linguajar esse que os crentes fazem ou por tornar obtuso ou por levar a níveis de uma tal leviandade medíocre que nos perguntamos o que é feito das leituras da Bíblia. A crítica é assestada tanto a religiões institucionais, como o catolicismo romano, como a seitas e cultos periféricos, como as miríades de tendências pentecostais.

Esta reflexão foi-me suscitada pelo programa ecclesia, espaço público radiofónico onde as principais confissões têm a oportunidade de se expressarem, e assim fazendo, propagandear as suas opções. Primeiro, a reitora da universidade católica deu o seu testemunho sobre a renúncia do Papa. Um exemplo de humildade e coragem! Como ateu que sou, pergunto-me quando é que os católicos começaram a achar que os outros eram todos parvos, e como é que a força da convicção pode tornar-nos cegos para o óbvio. A fé chega a mover montanhas, mas é péssima para o mais elementar trabalho detectivesco, leia-se, dedutivo. Se analisarmos com a frieza das sequências racionais o que aconteceu, e não com a emotividade dos dogmas alheios, desconfiamos de imediato do timing da renúncia. Deu-se o caso de estar para breve a revelação de um relatório bombástico sobre o Vaticano e algumas práticas sexuais ilegítimas – relatório que nunca chegou a ver a luz do dia. Grande celeuma em torno da posição a ser tomada por Bento XVI. O que faria ele aos prevaricadores? Castigá-los-ia? Revelaria os podres da hierarquia eclesiástica escancarando os escândalos e assumindo uma via sacra de crime e castigo? Revolucionaria as relações internas, as divisões de poder, os apadrinhamentos e silêncios congeminados, dando ao mundo uma Igreja lavada dos seus pecados? Publicaria no facebook do Vaticano fotografias dos devassos e pedófilos? Não. Demitiu-se e remeteu-se ao silêncio. Muito oportuno. O que teria o Papa – entretanto tornado emérito – a esconder, que tal como a Lúcia dos três pastorinhos escolheu penar nas sombras do eremitério em silêncio auto-infligido a sujeitar-se a ser devorado pelas chamas do inferno? 

Muito foi escrito então. O motivo da renúncia é ridículo, mas mesmo assim a Igreja conseguiu vendê-lo da melhor maneira. A última renúncia concretizada tinha acontecido há seis séculos e por um motivo tão comezinho como o famoso cisma do ocidente por ocasião do qual concorriam três papas à mesma cadeira. O motivo invocado por Bento XVI devia fazer qualquer católico corar de vergonha: razões de saúde e falta de vigor físico! Diz a entrevistada que foi uma opção que mostra tremenda coragem, que é um exemplo sobre a perenidade do exercício do poder, um ensinamento, inclusive, para o seu quotidiano, também ela ajoujada sob o pesado fardo do poder. Estranho é que a renúncia por razões de saúde seja vista como um exemplo de humildade. Mas mesmo admitindo que nos tempos da modernidade reflexiva e da individualização líquida as motivações de um papa se sobreponham às obrigações do lugar carismático, porquê o silêncio e o isolamento? A entrevistada justifica-os como o pleno exercício da vontade divina; melhor, como a lição de humildade por excelência: perdido o poder absoluto, remete-se o homem à sua condição humana e esta é frágil e pequena. Porém, o silêncio já teve um significado místico bem mais socialmente significativo do que actualmente. O silêncio nos santos era sinal de cilício, de sacrifício; mas era também sinal de contenção. E assim como a religião ensinava a todos aqueles que pelos seus caminhos seguiam, que a contenção – na carne, no verbo, na imaginação – era o salvo-conduto para o divino, apregoava também que o diabo tem como estratégia a palavra desmedida e a confusão frásica (não por acaso, o demónio quando possui pobres criaturas coloca-lhes na boca a capacidade de falarem diversas línguas em simultâneo). Resquícios de Babel. Todavia, a contenção não é um dos modos de apresentação dos papas nesta época de mediatização absoluta e de constante concitação ao espectáculo. Veja-se o caso de Francisco, para quem a ribalta da comunicação social é-lhe consubstancial ao estilo e à verve. Ao contrário dos santos de antanho, o santo homem que ocupa o lugar máximo da hierarquia católica está longe de prezar o silêncio e a contenção. E nesse sentido não funciona de maneira diferente das insistentes chamadas à visibilidade do star system.   

O que quer que seja que levou Bento XVI a remeter-se ao silêncio, nada tem a ver com uma provação espiritual, tão-pouco com a idiossincrasia papal perante a desmesura da sua acção, humana demasiado humana. O que Bento XVI saberia, foi-lhe sonegado enquanto possibilidade humana de comunicação. Incitado a sair, assim como um líder de um partido político que perde apoio interno porque cai nas sondagens, o Vaticano destinou-lhe uma especular existência porque ele saberia demais. Temos portanto o homem da máscara de ferro a guardar segredos incomunicáveis no coberto de uma inventada missão espiritual.

Porém, se esta urdidura tem as tintas de um mau policial, do outro lado, onde as razões são mais comezinhas, abastarda-se a língua, o logos, caminho e essência do catolicismo. Refiro-me ao espaço consignado à aliança evangélica, onde, num acesso de mau gosto se compara a entrada para o céu com um processo de recusa de um visto de trabalho de imigração. Sabemos que os evangélicos utilizam a técnica do efeito de realidade (o tal dos media) para melhor se aproximarem dos seus públicos. Por exemplo, falando para um considerável número de cidadãos brasileiros, com certeza, a analogia entre a entrada no céu e a passagem da fronteira nacional de forma legal, é muito eficaz. Assim temos que da mesma forma como o casal cujo exemplo era invocado se viu recambiado para o seu país de origem porque não tinha os papéis em ordem ao chegar à fronteira, também o crente (ou descrente) que não proceda modelarmente em vida verá o seu legítimo desejo de entrar para o céu, preterido. Uma questão burocrática, por conseguinte. Este abastardamento das linguagens da Bíblia não anda longe da espetacularização das relações humanas e dos seus afectos que em muito se aproxima da mediocrização. Não estamos a falar de uma cegueira dogmática, que melhor ou pior se confundia por vezes com convicção. Estamos a falar de uma coisa mais subterrânea. De um controlo que se expande através não da linguagem e da adesão a esta, mas a uma conduta escrutinada, ponderada e avaliada por uma voz que se afirma enquanto superior pela possibilidade, não de invocar o verbo divino, mas de servir de modelo de vida. A superioridade moral dos pregadores pentecostais não lhes advém do labor com o verbo e da capacidade de invocação divina através da palavra, mas de uma identificação com os casos concretos, com a experiência imediata, com as rotinas de um quotidiano. Por conseguinte, não lhes advém o poder, da percepção que este é dimanado pela transcendência, mas sim do contacto com o mundano. É a celebração do profano. Para tal a linguagem tem que se dessacralizar. Fazê-lo, e isto para os pentecostais é ponto assente, significa que não é através do verbo e da sua manipulação que se acede à comunidade dos crentes, mas sim pela adesão incondicional a uma presença ritualizada. Mas as linguagens são antagónicas. Se a religião do inefável possui uma firme base no misticismo e nalguma forma de ascetismo (o comportamento do papa emérito pode ser lido com um regresso a esta identidade do santo), o ritual dos pentecostais é uma formulação totalmente empírica. A palavra apenas está lá, não para significar o absoluto, como é o caso do catolicismo romano com as suas intrincadas analogias, ou para estabelecer a ligação eterna entre a palavra e o espiritual, mas para esclarecer as formas e os modelos de alcançar prosperidade terrena. Assim, a comparação feita entre a entrada no reino secular do destino migratório e uma agora sua congénere entrada no reino dos céus ganha toda a sua dimensão. A prosperidade prosseguida na terra através da procura de melhor vida num país que não é o nosso, funciona como o equivalente da entrada no reino dos céus enquanto promessa materialista. A associação entre as estratégias de consumo da sociedade do entretenimento e mensagem de um espiritualismo comercial nem sequer é disfarçada. Nesta medida, a bíblia é exaustivamente citada, em fragmentos com parecenças com a fragmentação do sujeito pós-moderno, só que desta feita enquanto um receituário modelar a utilizar como código de conduta. Longe do ascetismo dos santos, mas perto da religião popular e do seu núcleo pagão de negociação com o divino? Nem por isso. A lógica é sobretudo de expressividade individualista, sob a aparência de uma relação congregativa. Riqueza e saúde são os dois signos maiores que encontramos na procura dos pentecostais. A salvação é por conseguinte terrena; o amor a deus não é função transcendental que une a comunidade dos crentes. Assim também o verbo, único dispositivo de invocação desse amor intangível, é substituído pela prática, pelo fazer, pelo exercício do humano sobre a matéria. A vontade individual pode mais do que a divina.  

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