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Felizmente há luar

Fevereiro 19, 2014

Olha João, não me conheces e por isso enfileiro nas resmas de comentários mais ou menos anónimos que se juntaram ao teu desabafo. Uns com apupos pusilânimes e cobardes, outros com inegável apoio e solidariedade.

Para os primeiros, foste brando nos termos. Mas assim está bem para um país onde o insulto é coisa de uso em caixa de comentário, onde a destilação de azedume e os sentimentos mais ignóbeis se fazem desporto nacional. Um país de gente adiada, pois então. Adiada na inveja e na imbecilidade. Um país que colecciona vozes de gente anã – sem desprimor para os anões, mas invente-se a metáfora para que as coisas possam ser ditas! – e mentalmente capada.

Admiro a música do teu pai; do Fernando Tordo. Admiro a maneira como ele musicava as letras em labaredas alinhavadas pelo Ary. Admiro como tanto e tão bom saiu daquela fábrica de ideias que foi a joint venture entre o Tordo, o Ary e o Carmo. Tordo, Ary e Carmo sociedade em comandita pelo embelezamento da música e a revolução em progresso! Por vezes há coisas assim num país. Não muitas. E o país fez por esquecer o talento e contributo do teu pai. O país está mais preocupado em saber se o teu pai gastou o dinheiro em putas e vinho verde em vez de o encarreirar para as prestimosas folhas de excel do gaspar. Esse país não se pergunta como é que um cantor/músico/compositor da estatura do teu pai ficou à míngua. Não, num país onde a Teresa Guilherme ensina a populaça a espreitar pelas fechaduras em voyeurismo onanista (ora aqui está uma bela combinação de palavras), as consciências estão sobretudo preocupadas em saber se o teu pai surripiou o dinheiro para ir viver que nem um nababo para o outro lado do Atlântico. Nada que os preocupasse se fosse uma grande fortuna futebolística. Isso sim, são coisas de mérito! E eu adoro o futebol, não me entendas mal. Fico nauseado é com a hipocrisia.

Fizeste bem em escrever a carta. Aqueles que perguntam especiosamente se a partida do teu pai era assunto de monta para escreveres essa carta, devolvamos-lhe a pergunta, indagando se acham que vale a pena escarrarem a pobre verborreia com que exibem os seus dotes opinativos em caixas de comentários. Esta gente é sobretudo palradora – lembra-te do que dizia o Mário de Carvalho. Gosta de, em bom vernáculo, cagar sentenças. Mas assim como as caga, sobe-lhes à cabeça a medida da importância da sua dejecção, e como bons marxistas inconscientes que são confundem quantidade com qualidade. Não o teu pai. E isto não é graxa. Porque foram tantas e tão belas que é difícil não assumir que o golpe d’asa lhe fez companhia durante a sua vida de criador. Espero que o continue a acompanhar lá por terras de Vera Cruz. E em boa hora deixa esta merda.

Permite-me, por fim, justificar este meu tom de familiaridade. Não me estou a pôr em bicos dos pés para fazer parte do coro de defesa do teu pai – mais uma voz no caudal de emoções à tona! Simplesmente não estive para me registar nas caixas de comentários do Público. E assim como há essa falsa, artificial, familiaridade criada pelo efeito de presentismo dos media, também ela se pode reproduzir aqui. Enfim, acho que é isto. 

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