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Do Miró ao Totó

Fevereiro 11, 2014
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A petulância do novo pundit da direita conservadora erudita irrita. Não por ser petulante – isso é expectável e convive naturalmente com certos personagens – mas por tão frequentemente se enredar em contradições inadmissíveis.

Ontem, naquele passeio dos famosos com intenções politiqueiras chamado “Governo Sombra”, Mexia defendia a venda dos quadros do Miró pela simples razão de que não há dinheiro; fazendo, a este propósito, lembrar um deputado da nação que com veemência autoritária dizia no hemiciclo: – O que é que os senhores não perceberam? Não há dinheiro!

Para Mexia, a venda dos quadros decorre inevitavelmente do buraco do BPN e acompanhado que estava pelo seu prócere Miguel Tavares defendia que faria todo o sentido se explicado racionalmente como operação de tapagem de buracos. Ora se o BPN tem um buraco sem fundo, venda-se os quadros para calcetar um pouco os rendilhados da avenida. De Miguel Macedo, Passos Coelho e outros da maioria que nos governa, uma tal explicação é esperada. De Sir Mexia, a coisa complica-se. Desde logo, porque este último foi director interino da Cinemateca, instituição que não dá dinheiro cujo orçamento tem que ser sistematicamente esticado pelo orçamento do Estado. E bem. Porém, seguindo Mexia, se não há dinheiro por que razão financiar, sustentar, preservar espaços, artefactos ou obras culturais? Se fosse consequente ter-se-ia esperado que a primeira medida de Mexia ao assumir o cargo na cinemateca fosse alugá-la para inaugurações de peças de design de cristal ou lançamentos de telenovelas, ou ainda de encontros do Rotary. O espaço é bonito, aprazível, e guarda ainda aquela panache dos tempos em que a cultura era uma coisa tida por património… partilhável. Mas vejam bem, Mexia confessou então que ficou chocado com os sacrifícios que a actual situação financeira implicava para a gestão da cinemateca. Ficou chocado, note-se, não sugeriu vender o edifício para hotel de estilo lisboeta com direito a ocupar capa de revista de viagens nos aviões da Aeroflot. Apesar disso, Mexia achava que passar filmes cheios de mofo que apenas fazem a delícia de uma minoria de cinéfilos entediados em tardes de domingo, até valia a pena. Com o Miró, ele é mais expedito. Despache-se a coisa e faça-se uns trocos que aquilo também não serve para ninguém. Dir-me-ão: – Uns trocos, porco sujo: 35 milhões de euros, não são trocos. Tendo em conta que o banco foi vendido ao desbarato por 40 milhões, o que aconteceu foi que o comprador adquiriu um banco pelo preço de uma colecção do Miró. Para mim a equação é simples: como considero que o Miró vale mais do que o banco, ia-se o banco e ficava o Miró. Mas se a preocupação é tão grande com o buraco, porque não vender em leilão o património pessoal de quem estafou o banco em negociatas? Por que não ir-lhes às casas, quintas, contas bancárias em off shores e deixar o Miró em paz?

Para pessoas como Jorge Barreto Xavier (assim como o Mexia) mais Miró menos Miró em território nacional tanto faz. Estas coisas perdem o brilho se forem vistas no museu do Chiado em vez do Metropolitan de Nova Iorque ou do Pompidou de Paris. Para eles, homens do mundo, a cultura não tem pátria; e quão melhor é aproveitar um fim de semana para dar um pulinho a Londres e ver o que realmente interessa.

Todavia – e nova contradição – faz espécie que noutras ocasiões se tenham demonstrado tão defensores das virtudes pátrias, que tenham se ufanado publicamente de serem portugueses, mas quando é para defender a legitimidade da riqueza cultural mandam tudo para as urtigas. Tanta conversa com as infindas capacidades atractivas de Lisboa e de Portugal enquanto destinos turísticos, e quando há a possibilidade de ter uma jóia da coroa, vende-se ao desbarato porque o buraco do banco deve ser pago por tudo e todos menos por aqueles que o causaram.  

Resta-nos ficar com Jorge Barreto Xavier que tantas parecenças tem com uma criação de Miró. Não dá para ser leiloado? 

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