No princípio já não é o verbo

Houve um tempo em que a linguagem religiosa se confundia com os grandes sistemas filosóficos. E isto não era apenas para o ocidente. Actualmente, a linguagem religiosa assemelhe-se mais a uma língua de trapos, linguajar esse que os crentes fazem ou por tornar obtuso ou por levar a níveis de uma tal leviandade medíocre que nos perguntamos o que é feito das leituras da Bíblia. A crítica é assestada tanto a religiões institucionais, como o catolicismo romano, como a seitas e cultos periféricos, como as miríades de tendências pentecostais.

Esta reflexão foi-me suscitada pelo programa ecclesia, espaço público radiofónico onde as principais confissões têm a oportunidade de se expressarem, e assim fazendo, propagandear as suas opções. Primeiro, a reitora da universidade católica deu o seu testemunho sobre a renúncia do Papa. Um exemplo de humildade e coragem! Como ateu que sou, pergunto-me quando é que os católicos começaram a achar que os outros eram todos parvos, e como é que a força da convicção pode tornar-nos cegos para o óbvio. A fé chega a mover montanhas, mas é péssima para o mais elementar trabalho detectivesco, leia-se, dedutivo. Se analisarmos com a frieza das sequências racionais o que aconteceu, e não com a emotividade dos dogmas alheios, desconfiamos de imediato do timing da renúncia. Deu-se o caso de estar para breve a revelação de um relatório bombástico sobre o Vaticano e algumas práticas sexuais ilegítimas – relatório que nunca chegou a ver a luz do dia. Grande celeuma em torno da posição a ser tomada por Bento XVI. O que faria ele aos prevaricadores? Castigá-los-ia? Revelaria os podres da hierarquia eclesiástica escancarando os escândalos e assumindo uma via sacra de crime e castigo? Revolucionaria as relações internas, as divisões de poder, os apadrinhamentos e silêncios congeminados, dando ao mundo uma Igreja lavada dos seus pecados? Publicaria no facebook do Vaticano fotografias dos devassos e pedófilos? Não. Demitiu-se e remeteu-se ao silêncio. Muito oportuno. O que teria o Papa – entretanto tornado emérito – a esconder, que tal como a Lúcia dos três pastorinhos escolheu penar nas sombras do eremitério em silêncio auto-infligido a sujeitar-se a ser devorado pelas chamas do inferno? 

Muito foi escrito então. O motivo da renúncia é ridículo, mas mesmo assim a Igreja conseguiu vendê-lo da melhor maneira. A última renúncia concretizada tinha acontecido há seis séculos e por um motivo tão comezinho como o famoso cisma do ocidente por ocasião do qual concorriam três papas à mesma cadeira. O motivo invocado por Bento XVI devia fazer qualquer católico corar de vergonha: razões de saúde e falta de vigor físico! Diz a entrevistada que foi uma opção que mostra tremenda coragem, que é um exemplo sobre a perenidade do exercício do poder, um ensinamento, inclusive, para o seu quotidiano, também ela ajoujada sob o pesado fardo do poder. Estranho é que a renúncia por razões de saúde seja vista como um exemplo de humildade. Mas mesmo admitindo que nos tempos da modernidade reflexiva e da individualização líquida as motivações de um papa se sobreponham às obrigações do lugar carismático, porquê o silêncio e o isolamento? A entrevistada justifica-os como o pleno exercício da vontade divina; melhor, como a lição de humildade por excelência: perdido o poder absoluto, remete-se o homem à sua condição humana e esta é frágil e pequena. Porém, o silêncio já teve um significado místico bem mais socialmente significativo do que actualmente. O silêncio nos santos era sinal de cilício, de sacrifício; mas era também sinal de contenção. E assim como a religião ensinava a todos aqueles que pelos seus caminhos seguiam, que a contenção – na carne, no verbo, na imaginação – era o salvo-conduto para o divino, apregoava também que o diabo tem como estratégia a palavra desmedida e a confusão frásica (não por acaso, o demónio quando possui pobres criaturas coloca-lhes na boca a capacidade de falarem diversas línguas em simultâneo). Resquícios de Babel. Todavia, a contenção não é um dos modos de apresentação dos papas nesta época de mediatização absoluta e de constante concitação ao espectáculo. Veja-se o caso de Francisco, para quem a ribalta da comunicação social é-lhe consubstancial ao estilo e à verve. Ao contrário dos santos de antanho, o santo homem que ocupa o lugar máximo da hierarquia católica está longe de prezar o silêncio e a contenção. E nesse sentido não funciona de maneira diferente das insistentes chamadas à visibilidade do star system.   

O que quer que seja que levou Bento XVI a remeter-se ao silêncio, nada tem a ver com uma provação espiritual, tão-pouco com a idiossincrasia papal perante a desmesura da sua acção, humana demasiado humana. O que Bento XVI saberia, foi-lhe sonegado enquanto possibilidade humana de comunicação. Incitado a sair, assim como um líder de um partido político que perde apoio interno porque cai nas sondagens, o Vaticano destinou-lhe uma especular existência porque ele saberia demais. Temos portanto o homem da máscara de ferro a guardar segredos incomunicáveis no coberto de uma inventada missão espiritual.

Porém, se esta urdidura tem as tintas de um mau policial, do outro lado, onde as razões são mais comezinhas, abastarda-se a língua, o logos, caminho e essência do catolicismo. Refiro-me ao espaço consignado à aliança evangélica, onde, num acesso de mau gosto se compara a entrada para o céu com um processo de recusa de um visto de trabalho de imigração. Sabemos que os evangélicos utilizam a técnica do efeito de realidade (o tal dos media) para melhor se aproximarem dos seus públicos. Por exemplo, falando para um considerável número de cidadãos brasileiros, com certeza, a analogia entre a entrada no céu e a passagem da fronteira nacional de forma legal, é muito eficaz. Assim temos que da mesma forma como o casal cujo exemplo era invocado se viu recambiado para o seu país de origem porque não tinha os papéis em ordem ao chegar à fronteira, também o crente (ou descrente) que não proceda modelarmente em vida verá o seu legítimo desejo de entrar para o céu, preterido. Uma questão burocrática, por conseguinte. Este abastardamento das linguagens da Bíblia não anda longe da espetacularização das relações humanas e dos seus afectos que em muito se aproxima da mediocrização. Não estamos a falar de uma cegueira dogmática, que melhor ou pior se confundia por vezes com convicção. Estamos a falar de uma coisa mais subterrânea. De um controlo que se expande através não da linguagem e da adesão a esta, mas a uma conduta escrutinada, ponderada e avaliada por uma voz que se afirma enquanto superior pela possibilidade, não de invocar o verbo divino, mas de servir de modelo de vida. A superioridade moral dos pregadores pentecostais não lhes advém do labor com o verbo e da capacidade de invocação divina através da palavra, mas de uma identificação com os casos concretos, com a experiência imediata, com as rotinas de um quotidiano. Por conseguinte, não lhes advém o poder, da percepção que este é dimanado pela transcendência, mas sim do contacto com o mundano. É a celebração do profano. Para tal a linguagem tem que se dessacralizar. Fazê-lo, e isto para os pentecostais é ponto assente, significa que não é através do verbo e da sua manipulação que se acede à comunidade dos crentes, mas sim pela adesão incondicional a uma presença ritualizada. Mas as linguagens são antagónicas. Se a religião do inefável possui uma firme base no misticismo e nalguma forma de ascetismo (o comportamento do papa emérito pode ser lido com um regresso a esta identidade do santo), o ritual dos pentecostais é uma formulação totalmente empírica. A palavra apenas está lá, não para significar o absoluto, como é o caso do catolicismo romano com as suas intrincadas analogias, ou para estabelecer a ligação eterna entre a palavra e o espiritual, mas para esclarecer as formas e os modelos de alcançar prosperidade terrena. Assim, a comparação feita entre a entrada no reino secular do destino migratório e uma agora sua congénere entrada no reino dos céus ganha toda a sua dimensão. A prosperidade prosseguida na terra através da procura de melhor vida num país que não é o nosso, funciona como o equivalente da entrada no reino dos céus enquanto promessa materialista. A associação entre as estratégias de consumo da sociedade do entretenimento e mensagem de um espiritualismo comercial nem sequer é disfarçada. Nesta medida, a bíblia é exaustivamente citada, em fragmentos com parecenças com a fragmentação do sujeito pós-moderno, só que desta feita enquanto um receituário modelar a utilizar como código de conduta. Longe do ascetismo dos santos, mas perto da religião popular e do seu núcleo pagão de negociação com o divino? Nem por isso. A lógica é sobretudo de expressividade individualista, sob a aparência de uma relação congregativa. Riqueza e saúde são os dois signos maiores que encontramos na procura dos pentecostais. A salvação é por conseguinte terrena; o amor a deus não é função transcendental que une a comunidade dos crentes. Assim também o verbo, único dispositivo de invocação desse amor intangível, é substituído pela prática, pelo fazer, pelo exercício do humano sobre a matéria. A vontade individual pode mais do que a divina.  

Felizmente há luar

Olha João, não me conheces e por isso enfileiro nas resmas de comentários mais ou menos anónimos que se juntaram ao teu desabafo. Uns com apupos pusilânimes e cobardes, outros com inegável apoio e solidariedade.

Para os primeiros, foste brando nos termos. Mas assim está bem para um país onde o insulto é coisa de uso em caixa de comentário, onde a destilação de azedume e os sentimentos mais ignóbeis se fazem desporto nacional. Um país de gente adiada, pois então. Adiada na inveja e na imbecilidade. Um país que colecciona vozes de gente anã – sem desprimor para os anões, mas invente-se a metáfora para que as coisas possam ser ditas! – e mentalmente capada.

Admiro a música do teu pai; do Fernando Tordo. Admiro a maneira como ele musicava as letras em labaredas alinhavadas pelo Ary. Admiro como tanto e tão bom saiu daquela fábrica de ideias que foi a joint venture entre o Tordo, o Ary e o Carmo. Tordo, Ary e Carmo sociedade em comandita pelo embelezamento da música e a revolução em progresso! Por vezes há coisas assim num país. Não muitas. E o país fez por esquecer o talento e contributo do teu pai. O país está mais preocupado em saber se o teu pai gastou o dinheiro em putas e vinho verde em vez de o encarreirar para as prestimosas folhas de excel do gaspar. Esse país não se pergunta como é que um cantor/músico/compositor da estatura do teu pai ficou à míngua. Não, num país onde a Teresa Guilherme ensina a populaça a espreitar pelas fechaduras em voyeurismo onanista (ora aqui está uma bela combinação de palavras), as consciências estão sobretudo preocupadas em saber se o teu pai surripiou o dinheiro para ir viver que nem um nababo para o outro lado do Atlântico. Nada que os preocupasse se fosse uma grande fortuna futebolística. Isso sim, são coisas de mérito! E eu adoro o futebol, não me entendas mal. Fico nauseado é com a hipocrisia.

Fizeste bem em escrever a carta. Aqueles que perguntam especiosamente se a partida do teu pai era assunto de monta para escreveres essa carta, devolvamos-lhe a pergunta, indagando se acham que vale a pena escarrarem a pobre verborreia com que exibem os seus dotes opinativos em caixas de comentários. Esta gente é sobretudo palradora – lembra-te do que dizia o Mário de Carvalho. Gosta de, em bom vernáculo, cagar sentenças. Mas assim como as caga, sobe-lhes à cabeça a medida da importância da sua dejecção, e como bons marxistas inconscientes que são confundem quantidade com qualidade. Não o teu pai. E isto não é graxa. Porque foram tantas e tão belas que é difícil não assumir que o golpe d’asa lhe fez companhia durante a sua vida de criador. Espero que o continue a acompanhar lá por terras de Vera Cruz. E em boa hora deixa esta merda.

Permite-me, por fim, justificar este meu tom de familiaridade. Não me estou a pôr em bicos dos pés para fazer parte do coro de defesa do teu pai – mais uma voz no caudal de emoções à tona! Simplesmente não estive para me registar nas caixas de comentários do Público. E assim como há essa falsa, artificial, familiaridade criada pelo efeito de presentismo dos media, também ela se pode reproduzir aqui. Enfim, acho que é isto. 

Os pudicos

Henrique Raposo fica indignado com o efeito de proximidade dos media. E distribui acusações moralizadoras contra a cnn e os jornalistas que fizeram a cobertura dos temporais em Portugal. Vasco Pulido Valente indigna-se que altas personalidades do PSD venham dizer que existe uma “fracção” dentro do partido sequestrada por interesses económicos e considera que ou os acusadores provam o que dizem ou o silêncio jornalístico perante tal descaso é cúmplice desta podridão no seio da democracia partidária.

Há, para ser honesto, uma certa demonstração de falso pudor nestas declarações. Raposo acordou para o “efeito de proximidade” dos media por ocasião das reportagens nos paredões e na orla costeira; VPV acordou para as “fracções” dentro dos partidos por ocasião das acusações proferidas por Capucho e Soares. Tanto para um como para outro, ou entraram há vários anos num sono cataléptico de que só agora se libertaram, ou a pudicícia do véu da ignorância não lhes permitia enfrentar a luz da realidade. Seja como for, tem muito de tique de direita: moralizadores insuspeitos, revigorados no conservadorismo neoliberal – espécie híbrida que ombreia no bestiário medieval com o grifo – que consideram que vivem no melhor dos mundos possíveis, não fosse a falta de uns acertos.  

Mas também me parece fruto de um extremado descaramento não ter consciência das coisas mais simples e terrenas do nosso quotidiano. Que o jornalismo actual pratica um efeito de realidade, através da proximidade, ou suposta proximidade aos acontecimentos, é descobrir a pólvora na época da fissão do átomo. E isto vindo de uma pessoa que escreve diariamente num jornal nacional… enfim, que haverá mais para dizer. Que um homem que integrou o partido político em questão (PSD), tendo sido deputado em regime de tirocínio, se espante com a existência de uma “fracção” dentro do partido, é grande espanto para nós, seus leitores. E vejam como tais afirmações podem ser especiosas. Levanta-se o historiador contra o uso do termo “fracção” por Pacheco Pereira, relembrando-lhe a retórica estalinista; mas que outra coisa pode o fenómeno enunciado por PP ser senão uma “fracção”?

Depreende-se pelo que escreve VPV que este estado de coisas seja insustentável; que plutocracias partidárias é coisa de galáxias longínquas; e que, em particular a revelação de que este psd segue uma agenda plutocrática, é algo para surpresa e consternação geral. O que competiria então fazer aos jornalistas perante tamanha descoberta? Para VPV o silêncio dos jornalistas mostra que enfiam a carapuça. Mas qual carapuça? A de que os homens fortes do psd têm ligações de torna-viagem com o colosso JP Morgan? Que Gaspar foi colocado aqui pelas estruturas do FMI qual homem providencial ou o nosso homem em Havana? Seria perante isto que os jornalistas deveriam rasgar a pele em desvario neurótico? Nem vale a pena. Tal como a descoberta do efeito de autenticidade por Raposo, o pasmo perante a revelação de “fracções” partidárias de VPV manipuladas pelos colossos do capital são reacções panglosianas de quem julgava que tudo estava pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. Mas  a estes dois, não os tomo nem por cândidos nem por horticultores.   

Do Miró ao Totó

Imagem

A petulância do novo pundit da direita conservadora erudita irrita. Não por ser petulante – isso é expectável e convive naturalmente com certos personagens – mas por tão frequentemente se enredar em contradições inadmissíveis.

Ontem, naquele passeio dos famosos com intenções politiqueiras chamado “Governo Sombra”, Mexia defendia a venda dos quadros do Miró pela simples razão de que não há dinheiro; fazendo, a este propósito, lembrar um deputado da nação que com veemência autoritária dizia no hemiciclo: – O que é que os senhores não perceberam? Não há dinheiro!

Para Mexia, a venda dos quadros decorre inevitavelmente do buraco do BPN e acompanhado que estava pelo seu prócere Miguel Tavares defendia que faria todo o sentido se explicado racionalmente como operação de tapagem de buracos. Ora se o BPN tem um buraco sem fundo, venda-se os quadros para calcetar um pouco os rendilhados da avenida. De Miguel Macedo, Passos Coelho e outros da maioria que nos governa, uma tal explicação é esperada. De Sir Mexia, a coisa complica-se. Desde logo, porque este último foi director interino da Cinemateca, instituição que não dá dinheiro cujo orçamento tem que ser sistematicamente esticado pelo orçamento do Estado. E bem. Porém, seguindo Mexia, se não há dinheiro por que razão financiar, sustentar, preservar espaços, artefactos ou obras culturais? Se fosse consequente ter-se-ia esperado que a primeira medida de Mexia ao assumir o cargo na cinemateca fosse alugá-la para inaugurações de peças de design de cristal ou lançamentos de telenovelas, ou ainda de encontros do Rotary. O espaço é bonito, aprazível, e guarda ainda aquela panache dos tempos em que a cultura era uma coisa tida por património… partilhável. Mas vejam bem, Mexia confessou então que ficou chocado com os sacrifícios que a actual situação financeira implicava para a gestão da cinemateca. Ficou chocado, note-se, não sugeriu vender o edifício para hotel de estilo lisboeta com direito a ocupar capa de revista de viagens nos aviões da Aeroflot. Apesar disso, Mexia achava que passar filmes cheios de mofo que apenas fazem a delícia de uma minoria de cinéfilos entediados em tardes de domingo, até valia a pena. Com o Miró, ele é mais expedito. Despache-se a coisa e faça-se uns trocos que aquilo também não serve para ninguém. Dir-me-ão: – Uns trocos, porco sujo: 35 milhões de euros, não são trocos. Tendo em conta que o banco foi vendido ao desbarato por 40 milhões, o que aconteceu foi que o comprador adquiriu um banco pelo preço de uma colecção do Miró. Para mim a equação é simples: como considero que o Miró vale mais do que o banco, ia-se o banco e ficava o Miró. Mas se a preocupação é tão grande com o buraco, porque não vender em leilão o património pessoal de quem estafou o banco em negociatas? Por que não ir-lhes às casas, quintas, contas bancárias em off shores e deixar o Miró em paz?

Para pessoas como Jorge Barreto Xavier (assim como o Mexia) mais Miró menos Miró em território nacional tanto faz. Estas coisas perdem o brilho se forem vistas no museu do Chiado em vez do Metropolitan de Nova Iorque ou do Pompidou de Paris. Para eles, homens do mundo, a cultura não tem pátria; e quão melhor é aproveitar um fim de semana para dar um pulinho a Londres e ver o que realmente interessa.

Todavia – e nova contradição – faz espécie que noutras ocasiões se tenham demonstrado tão defensores das virtudes pátrias, que tenham se ufanado publicamente de serem portugueses, mas quando é para defender a legitimidade da riqueza cultural mandam tudo para as urtigas. Tanta conversa com as infindas capacidades atractivas de Lisboa e de Portugal enquanto destinos turísticos, e quando há a possibilidade de ter uma jóia da coroa, vende-se ao desbarato porque o buraco do banco deve ser pago por tudo e todos menos por aqueles que o causaram.  

Resta-nos ficar com Jorge Barreto Xavier que tantas parecenças tem com uma criação de Miró. Não dá para ser leiloado? 

Guilherme Tell

A Europa acordou sobressaltada. Bruxelas está indignada com o facto de os suíços terem aprovado medidas iguais àquelas que os restantes países da Europa praticam há décadas relativamente aos imigrantes de países terceiros. A chamada contingentação, ou quotas de imigração, é política que qualquer estado soberano europeu que se preze colocou em prática; sobretudo ao abrigo dos acordos de Schengen que mais não faziam do que abrir duas avenidas para a circulação de pessoas: uma rápida e expedita para os cidadãos nacionais dos países signatários; a outra lenta e cheia de escolhos para os restantes desgraçados. Mas mesmo esta divisão peca por exagerada porque dentro desta segunda faixa de rodagem – visto que seria eufemístico designá-la por avenida – há muito que existem condições assimétricas. Assim, temos os ricos, os detentores dos visa gold que o nosso governo tanto apregoa ultimamente, a quem são dadas todas as condições para se instalarem, circularem, empregarem, despedirem, e com toda a naturalidade isentarem-se de contribuição cidadã obtendo condições especiais em matéria de impostos. E depois temos todos os outros, a quem se exige que se apresentem periodicamente aos serviços de estrangeiros e fronteiras dos respectivos países, a quem se define períodos limites de permanência no desemprego, a quem se exige a aprendizagem das línguas oficiais dos países que os recebem, etc.

As quotas são uma realidade para os imigrantes de fora da Europa desde a Sicília até Helsínquia. Foram estabelecidas em Portugal, Espanha, França, Alemanha, e por aí fora. A novidade que os suíços introduziram foi quotas para os EU movers, que nem sequer recebem o epíteto de imigrantes porque de facto estatutariamente estão numa situação bem mais confortável do que os restantes. Em Portugal por exemplo, as quotas foram estabelecidas e flexibilizadas de acordo com as necessidades, à boa maneira de uma política instrumentalizadora das motivações humanas. Mas nisso fomos acompanhados por todos os nossos congéneres europeus. Em maior ou menor grau as quotas foram draconiamente cumpridas ou elasticamente entendidas conforme as tendências e necessidades do mercado de trabalho. Até aqui o cinismo dos defensores dos direitos humanos sentados em Bruxelas peca por histérico. Afinal de contas os suíços aplicaram o mesmo remédio aos “outros” de dentro, e o que perturba em boa verdade Bruxelas é pela primeira vez um Estado ter deslocado as fronteiras dos habituais suspeitos para aqueles que eram considerados os mesmos. Para os suíços contudo, isto é indiferente. Nunca se sentiram bem europeus; quanto muito, cidadãos do mundo, pátria do cosmopolitismo bancário que tanto recebe os milhões árabes como os canadianos. Por este lado, a suíça sempre foi país de portas abertas – judeus, nazis, fascistas ou comunistas, desde que com dinheiro foram sempre bem-vindos à federação helvética. Para aquele país imensamente rico, onde a manutenção da pureza do capital se confunde com a preservação do escol humano que por lá habita, chegou uma altura em que tanto faz que sejam marroquinos como portugueses ou italianos. Convenhamos, essa é que é a verdadeira equatitividade. Porque para quem não se sente particularmente ligado a uma qualquer ideia de Europa ou de partilha de um espaço mais inculcado em repetidas lavagens ao cérebro do que real, por que raio diferenciar?

Por isso não me provoca nenhuma indignação o referendo suíço. Causa-me sim arrepios de repugnância o cinismo dos representantes das comunidades portuguesas que choram lágrimas de crocodilo pelos nossos enquanto por cá nos preparamos para aplicar corredores de luxo para imigrantes ricos dando um chuto no cu a todos os outros.

Porém, pode Bruxelas dormir descansada. Porque no território da insónia por onde vagueiam os espíritos irrequietos da burocracia europeia brota uma luz de esperança. A medida suíça não surge agora por acaso. Vem no seguimento da preparação de medidas mais vastas – das quais Cameron fez de cicerone – com intuito de criar um sistema de triagem para aqueles que sendo geograficamente europeus pouco interessa aos países ricos que andem para aí a circular: os pobres de leste, os ciganos, as massas de desempregados da Bulgária e da Roménia, os altamente qualificados polacos que não arranjam emprego na sua terra. É contra essa “escumalha” que a Suíça já se precaveu. Que inveja deve fazer aos parceiros europeus atados de pés e mãos por acordos incómodos.