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A Oeste muito de novo

Janeiro 22, 2014

Foto de Marion Le-Pen, terceira geração da Frente Nacional Francesa

É preciso entender a subida da extrema-direita europeia pela sua capacidade de mediatização. Os entendimentos clássicos que veem a emergência de tendências radicais à direita como resposta ao espaço popular deixado vazio ou pelos tradicionais partidos da esquerda ou pelo desencantamento com as sistemáticas traições à social-democracia (versão repetida incessantemente pelos opinion makers da esquerda) estão ultrapassados. Outros dizem que se trata da linguagem dos afectos. Contra a tecnocracia e burocracia invisíveis, as massas desafectas recolhem a expressões simbólicas fortes que possam ainda relevar da lógica dos apegos primários, tais como a família ou a comunidade. Há uma certa verdade nesta última, sobretudo porque esta pulsão se expressa em termos identitários, em particular, nacionalistas, e é reconhecível em qualquer protofascismo. No entanto, isto não chega. É preciso perceber qual o veículo actual que difunde esta linguagem dos afectos. Sem o percebermos podemos cair no erro de considerarmos que estamos a assistir a reencenações de dramas antigos, quando na verdade o que presenciamos é algo de muito original.

Os movimentos nacionalistas tradicionais, de extracção populista, caracterizam-se pela  arregimentação de massas em dispositivos colectivos que exibem a força da unidade. Os mecanismos retóricos implicam sempre a criação de uma força poluente a essa unidade, um intruso, um estranhamento de algo que existe no nosso seio mas que não é organicamente compatível com ele. A força dessa retórica, e a sua aparição, mantém-se quase intocável nos movimentos actuais, mas a forma como a arregimentação é realizada e a ideia colectiva que se lhe encontrava subjacente diferem radicalmente. Os actuais movimentos de extrema-direita quando aparecem na cena política não são particularmente estruturados e nisso distinguem-se o suficiente dos seus antecessores partidos fascistas, com hierarquias marcadas, lugares-tenentes de grupos e grupúsculos, manifestos estudados como bíblias e a palavra do líder escutada religiosamente. A rotinização do carisma de que falava Weber era aqui um imperativo da máquina partidária com pretensões hegemónicas.

As máquinas dos novos partidos de extrema-direita são organizações leves, rápidas a medir flutuações eleitorais, pouco estruturadas, policentradas em matéria de vozes e figuras carismáticas (embora exijam ainda a identificação com um líder) com intelectuais orgânicos não arregimentados partidariamente, antes com graus de liberdade suficientes para se deslocarem na oferta mediática. São por conseguinte máquinas mediáticas. A linguagem dos afectos decorre, pois, mais da sua exorbitância mediática do que de princípios primordiais ressuscitados.

Certo, nada disto é novo. Adorno associou melhor do que ninguém a publicidade ao fascismo. Mas a publicidade como era pensada por Adorno pertencia ainda aqueles grandes mecanismos de arregimentação de massas – uma sociedade massificada por mensagens únicas. O pesadelo Orwelliano poderia entrar aqui. Mas não estas novas forças. Veja-se o caso da Holanda de Fortuyn e da sua lista, a LPF. Fortuyn era um conferencista, versado na arte da performance, as suas palestras chegavam a atingir os 7.000 euros por aparição. No mundo do espectáculo não é grande coisa, mas na política é um valor considerável. Emergem como novidades retumbantes no amorfo mundo da política democrática. Haider tinha aparições espectaculares onde punha tudo e todos em causa. Fortuyn a mesma coisa. Le Pen, talvez o mais canhestro dos três, criava um halo de inconformismo nas suas aparições. Mas veja-se a nova superstar televisiva Marianne Le Pen – essa sabe perfeitamente manipular a arte da performance. Aquilo que eles fazem não é muito diferente do que fazem os profissionais do marketing ou os speakers que arrastam audiências em torno de uma ideia: vendem um produto. E nisso diferem fundamentalmente dos seus antecessores. Enquanto os grandes líderes fascistas construíram ideias alternativas de civilização (por mais terríveis que estas fossem), os novos pundits da extrema-direita agarram em ideias e transformam-nas em sound bits, bons produtos marketizados, e a forma como o fazem é típica das estratégias mais básicas de mercado: a diversificação. O que estas stars políticas fazem é escolher temas fracturantes e explorá-los intensamente. Diversificam o mercado da oferta política.

Quer isto dizer que a relação que têm com a sua própria agenda é postiça, obedecendo apenas a desideratos de mediatização? Não, porque os temas fracturantes são também aqueles dos quais se sabe que é possível maximizar audiências. A Golden Dawn acompanha a retórica anti-imigração e os frequentes surtos de violência contra estrangeiros e refugiados com iniciativas de carácter popular que parecem saídas do Dr. Phil, tais como a Doctors with Borders, rede de médicos financiada pela facção neonazi que aceita pessoas a custo zero – excepto imigrantes ou refugiados. Marion Le-Pen, a terceira geração da extrema-direita francesa, tem um facebook onde vai postando as intervenções dos membros da FN ou notícias que lhes são favoráveis intercalando com fotografias onde ela faz poses de anjinho francês, ou diremos, Vraiment nationale!

O que me parece fascinante nesta constelação mais ou menos variada é que não são recrutados de organizações paramilitares ou de uma burguesia rural e anticosmopolita. As suas trajectórias políticas são precedidas por ligações ao mundo dos negócios. O líder do Jobbik, partido húngaro de extrema-direita, antes de enveredar pela política trabalhava na KPMG. Marine Le-Pen era advogada parisiense e casada com um CEO francês, também ele membro da FN. Mas o mais caricato é o ultrapatriótico José Luís Roberto, presidente do Espana 2000. Dono de empresas de segurança, ginásios, e em tempos secretário-geral da Associação Nacional de Empresários de Locais de Alterne, já foi investigado por ter negócios pouco claros com máfias russas, e claro, é sócio em negócios com os russos. Fortuyn fazia parte do Think Tank holandês Speakers Academy conhecido por espalhar pelo mundo os seus arautos do empreendedorismo e do social media em apresentações tão estilisticamente refinadas quanto morbidamente inócuas.

À partida,os perfis empresariais desta gente emprestam-lhes um ar transnacional que se molda mal à histeria nacionalista. Estas forças gostam do povo assim como Teresa Guilherme gosta de quem lhe telefona durante a transmissão do Secret Story: em formato de audiência. Tal como nos reality shows, os líderes destes movimentos gabam-se de falarem as coisas simples e de interesse para as pessoas, e não as abstracções tecnocratas de Bruxelas. Tratando-se de veículos diferentes, o populismo tem o mesmo registo. No caso do reality show, o discurso que o sustenta – quer da parte de quem os produz quer das suas audiêncas – serve-se muito de lugares comuns tais como:  porque as pessoas identificam-se com outras pessoas como elas, ou seja, com os mesmos problemas, ou porque retrata pessoas simples que apenas exibem a realidade que nos é tão próxima. No caso da mensagem da extrema-direita, os problemas que os preocupam são os do homem comum, do pequeno comerciante, dos trabalhadores da velha indústria… ou seja, o anónimo perante a máquina do Estado ou as tecnocracias avulsas. É que o discurso destas facções, contrariamente aos seus antecessores, não possui qualquer pendor estatizante; são aliás profundamente críticos do Estado, no caso particular do chamado Estado de bem-estar e da sua acção. A novidade é uma defesa intransigente das linguagens do neoliberalismo, tais como a celebração do empreendedorismo e da autonomia. A velha ideologia, é somente recuperada pela imersão no manto nacionalista que cobre as suas ideias e intervenções. Assim os empreendedores franceses são vítimas das sanguessugas imigrantes que vivem à custa do Estado e nada fazem para empreenderem e tornarem-se autónomos. O Estado é, para estas vozes, uma realidade improdutiva. O que quer que de genuinamente orgânico deva brotar do amplexo nacional, está intersticialmente ligado à autonomia individual. Por isso a extrema-direita actual faz o pleno: reinventa o mecanismo de criação de bodes expiatórios – propriamente colectivo e nesse plano enunciado – dentro da linguagem dos pundits dos negócios e do neoliberalismo mais assertivo, espaço enunciativo onde o colectivo é apenas equacionado como um obstáculo a superar.

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  1. nuno permalink
    Novembro 25, 2014 4:35 pm

    Mas ninguém te comenta ?

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