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12 anos escravo

Janeiro 15, 2014

O que mais me impressionou em 12 anos escravo é a sua total indisponibilidade para o melodrama, a lágrima no canto do olho ou a narrativa da emancipação negra. Veja-se por exemplo Django de Tarantino. Como sempre, o realizador encena uma estrutura de vingança em que o bem vence o mal numa apropriação quase infantil dos tropos básicos da moral cristã. O filme é muito bom, não é isso que está em causa. O problema é que a estrutura narrativa dos filmes de Tarantino é sempre a mesma: a heroicidade de alguém vai revelar-se através de uma vingança apoteótica que reescreve a história assim como nós (infantilizados) gostaríamos que ela tivesse sido. Sacanas sem Lei era: – E se tivéssemos tramado o Hitler? Django era: – E se tivéssemos tramado os donos das plantações? Aquela pequena moral das crianças que diz: – Vais ver o que te acontece quando eu contar ao meu pai! É isso que Tarantino coloca constantemente em cena. De forma brilhante, acrescente-se.

Do outro lado, 12 anos escravo. Não sendo brilhante enquanto filme, é de uma justeza que impressiona e agrada. A economia de meios é quase etnográfica, documental. Recordam-se daqueles grandes travellings de Cor Púrpura ou Amistad? Tudo isso são estratagemas de piscadela d’olho ao épico. E Steve Mcqueen rejeita qualquer incursão no épico. Assim como o registo melodramático não está presente, a lógica do épico – o sofrimento de um povo, a reconciliação com a história através do exercício de contrição pelo grupo opressor – está ausente de 12 anos. E parece-me a mim que deliberadamente. Cru, enxuto, e nem por isso menos poderoso. A escravatura no seu quotidiano: entre o sadismo do opressor e o sofrimento da vítima. É como se Mcqueen filmasse Casa Grande & Sensala de Freyre sem os efeitos edulcoradores da escravatura com que o escritor polvilhou a sua obra.

Gera revolta, o filme. Não estamos perante a banalidade do mal. Antes, estamos perante uma história que merece ser contada, porque apesar de tudo o que sobre ela foi escrito e produzido – a escravatura, entenda-se – acredito que faltava um relato do seu quotidiano em registo fílmico. Roots é ainda uma narrativa de reconciliação da América com o seu passado. É certo que o filme de Mcqueen pode ser interpretado da mesma forma. Mas isso é ler em excesso para além do filme. O que lá fica é um retrato seco de um quotidiano de vil apagamento da humanidade da pessoa. Se o tema central é a desistência da identidade, porque se é forçado a isso, a ponto de uma total desindividualização, o processo desemboca na imersão total numa categoria que não distingue personalidades, aliás, que as esmaga, maltrata, e cospe como não pudessem ser toleradas pelo seu sistema de representação. É por isso que 12 anos escravo fala – mais do que eventualmente os anteriores citados -, não do lugar categorial da negritude e da sua subordinação, mas do lugar individual da pessoa e da sua singularidade.  Não tem por isso nenhuma tentação de historicizar a luta de um povo, como em Amistatd. Nem sequer a noção de povo se ajustaria a esta encenação, porque não é dada a medida do sofrimento de um colectivo, e como tal também a ideia de um destino colectivo é-lhe abstrusa. Se o sadismo humano está bem presente, se a hierarquia moral e humana é perfeitamente delineada pelas linhas de corte da cor da pele, pode esta ser manobrada no interior da contingência individual. Solomon é, para todos os efeitos, um negro que destoa da média dos negros escravizados: tem cultura, educação, estatuto no mundo dos brancos do norte (embora o perca entre os brancos sulistas), e isso faz toda a diferença. Não para a máquina discricionária da escravatura, se assim lhe podemos chamar, para a qual, desde que medido pela cor, tudo lhe é indiferente e toda a proclividade individual deve ser rasurada ante a impiedosa voragem da exploração humana. Exploração física, sexual, e despersonalização forçada.

Lemos no fim do filme que Solomon se dedicou após a sua experiência como escravo às campanhas abolicionistas e a ajudar escravos foragidos a atravessarem a fronteira para o norte. Essa consciência, depreendemos, não existia anteriormente, período no qual Solomon ou desconhecia os horrores da escravatura ou os aceitava dado o estatuto por ele granjeado entre os brancos. Apenas a experiência da escravatura, e não a cor, lhe dão a real dimensão do lugar social que sob certas condições está apropriado à sua origem. Num espaço em que ele é obrigado a apagar-se porque a cor da pele conta mais do que a sua pessoa.

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