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O mundo que o brasileiro criou

Janeiro 10, 2014

Há muito que me preocupa “o mundo que o português criou”. Recentemente cheguei à conclusão de que existe uma continuidade epistemológica entre a representação literária e poética de Portugal e dos portugueses e as teorias que Freyre deixou para a posteridade sob a designação de lusotropicalismo. O que digo não é novo. Mas gosto de pensar que assim me aproximo melhor de um qualquer âmago da obra e projecto de Freyre. Primeiro o Vieira. Se a história surgia como predestinação e se para decifrarmos o futuro de Portugal precisávamos apenas de saber ler nas entrelinhas das escrituras, para Freyre a história do Brasil surge como predestinação no emaranhado singular do complexo tropical. O Brasil é o país predestinado para levar ao mundo novas civilizações – e com elas um sentido do humano radicalmente diferente – porque contém in nuce um homem novo. Não é político este “homem”. Ou pelo menos não o é no sentido de uma revolução social: esta já se apresenta no seu sentido mais acabado por via genética, orgânica, natural. A natureza do complexo tropical chamado Brasil anuncia o futuro da humanidade. Aqui a natureza encontra-se com o social numa relação simbiótica sem ser necessário passar pela política, pelo institucional. O que quer que seja o destino ele está inscrito no sangue do povo – sangue miscigenado, pois então; sangue que faz brotar o equilíbrio daquilo que de melhor a humanidade pode dar.

Depois o Camões, a quem Freyre concede um espaço especial num opúsculo brilhante de título, Camões : vocação de antropólogo moderno? Não somente o peso da mestiçagem como uma heurística dos trópicos é aí reiterado, como a estrutura conceptual da socioantropologia de Freyre é vertida, quase sem esforço, na figura literária de Camões. Figura literária, no seu duplo sentido: tanto como o genial criador de Os Lusíadas, como personagem histórico cuja biografia ascende ao material de fábula lusotropicalista pela pena de Freyre. Em que sentido?

Primeiro, Camões veste literalmente o binómio conceptual que tinha sido o eixo de entendimento de toda a heurística lusotropicalista: a imbricação entre aventura e rotina. Surge assim um Camões feito compromisso entre a sua natureza dionisíaca de homem dado a arroubos amorosos e a refregas passionais e o estudioso, de uma disciplina franciscana, devotado ao anverso da sua natureza turbulenta, a dimensão apolínea. E também aqui, neste Camões transmudado em arquétipo da “brava gente” lusa, a convergência entre estas duas naturezas encontra o seu paroxismo na pulsão libidinal que assiste, segundo Freyre, ao homem ibérico. Camões e os seus amores interraciais representam os primórdios da mestiçagem enquanto modelo de colonização. O fervor sexual que aparentemente o poeta reservava para as mulheres de pele mais escura contém, na opinião de Freyre, os prolegómenos à pulsão libidinal que esteve na base da organização social do Brasil.

Há um erro de análise na empresa lusotropical da administração portuguesa no período do Estado Novo. Tomaram Freyre como um exaltador da singularidade portuguesa, quando aquilo que ele pretendeu foi arranjar um lugar sui generis para o Brasil. A nação brasileira cumpria na carne aquilo que tinha sido profetizado na literatura. É o Brasil que contém a promessa de futuro; Portugal é a matriz passada cuja latência apenas se faz vida no trópico brasileiro. 

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