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A morte de Eusébio

Janeiro 7, 2014

Eusebio20140105

O que é um símbolo? – perguntou-se Lévi-Strauss grande parte da sua vida. E chegou lá através do conceito de função simbólica. A este se liga um outro que circunscreve uma sua possível heurística: a eficácia simbólica. A noção de eficácia simbólica remete para a ideia de eficácia obtida através da mediação de símbolos, onde eficácia significa a produção de efeitos reconhecidos e esperados e onde símbolo representa algo capaz de sintetizar uma realidade mais vasta ou uma entidade abstracta. Neste sentido, é uma eficácia absolutamente real e concreta obtida através de um agente imaterial. Eusébio não era imaterial enquanto homem; mas na sua função de símbolo adquire a imaterialidade que lhe permite ser eficaz para além do espaço e do tempo da sua vivência comum. Símbolo de uma nação, quando adquirida a imaterialidade da morte impôs-se com toda a força à comunidade que nele se revê como factor de unidade. Todos juntos em torno do desaparecimento de Eusébio – assim se faz o colectivo, através de liames emocionais que permitem espaços e ocasiões para identificações fortes e unitárias.

Em Portugal, onde o símbolo Eusébio é reclamado enquanto português prestou-se pouca atenção ao seu lastro africano. Mas em África, para quem tivesse atento, não se passou assim. Na sua terra natal – Moçambique – o presidente de república Armando Guebuza enalteceu o facto de Eusébio ter levado o nome de Moçambique ao mundo e disse: O Pantera Negra projectou o nome desta Pátria de Heróis à escala planetária. Ao mesmo tempo, demonstrou que, com auto-estima, determinação, criatividade e muito trabalho nós, moçambicanos, podemos realizar os nossos sonhos transformando desafios em oportunidades. Isto soa-nos familiar. São qualidades dos símbolos: deslocarem-se, ajustarem-se, serem manipuláveis. Onde, a uma distância de mais de 16.000 Km, se proferia o nome de Eusébio como a estrela que colocou Portugal nas bocas do mundo nos idos de sessenta, não se sonhava sequer em emprestar o seu carisma nacionalista a um concorrente nacional. Noutros tempos coisas comezinhas destas poderiam levar a uma guerra. Usar uma insígnia indevida ou agir em nome de alguém a quem não se tinha o direito de reclamar protecção, era motivo para refrega e quem sabe porfia destruidora. Actualmente em tempos de globalização a ginástica que os símbolos fazem é bem maior e não são constrangimentos nacionalistas que circunscrevem a sua acção sobre as pessoas.

Para além do símbolo moçambicano, Eusébio surge representado por outra imprensa como um símbolo de escala e magnitude diferentes: um símbolo pan-africano. Aqui a identificação ultrapassa fronteiras e não se restringe a pathos nacionalistas e profissões de fé sobre os destinos pátrios. A pantera negra é tomada à letra e a sua negritude celebrada como sinal de mudança dos tempos e das geografias coloniais. É um artigo na Aljazeera, onde Eusébio é tomado pela sua representatividade africana, negra, não mais confinado à sua verdade nacional. A africanidade de Eusébio é então matéria ilustrativa de como a Europa se africanizava lentamente, através do desporto, por exemplo, e de como a presença dos Magriços em Inglaterra, mais do que anunciar a grandeza portuguesa, prefigurava a entrada africana no panorama internacional. Entrada já não em lugar subordinado, mas antes como actor de pleno direito, dando cartas se não na economia (ainda não, pelo menos) certamente no âmbito desportivo.

Num artigo publicado no Público, Nuno Domingos fazia alusão ao aproveitamento pelo Estado Novo e a sua retórica da multirracialidade da simbólica da negritude carregada por Eusébio – não uma negritude emancipatória, como a que sublinha o artigo da Aljazeera: uma negritude que se ajustava sobremaneira à intenção de demonstrar nos aereópagos internacionais que Portugal praticava um colonialismo doce, onde a diferença racial nunca tinha marcado as hierarquias sociais. Ali estava Eusébio para mostrarmos que um negro podia simbolizar uma nação europeia. Que melhor prova da unidade nacional d’além-mar do que um miúdo moçambicano erguido ao panteão dos gigantes do quinto-império?

Regressa Eusébio hoje, na sua morte, como símbolo da unidade nacional. Leio no Correio da Manhã: “Eusébio uniu todos os portugueses”. Seguramente, uniu para além das divisões clubistas, divisões essas que são para o mundo fantasiado de horizontalidade futebolística as únicas que importam. A união dos portugueses traduzida em cascóis do benfica amontoados com cascóis do sporting… até do FCP! E Eusébio lá seguiu para a sua última morada. Eu, que nunca o vi jogar ao vivo e que olhando para as imagens de arquivo me parece que os guarda-redes actuais não deixariam passar metade daqueles golos, fico um pouco constrangido perante a acusação de incompreensão do génio futebolístico de Eusébio. E com toda razão, na medida em que esta se deve à mais pura das ignorâncias futebolísticas! Vai Eusébio a enterrar e até o pseudo-esquerdista RAP surge com lágrimas ao canto do olho. O futebol é dos poucos bastiões onde as nações vivem com a força de outrora. O problema é que já não é a sério, é tudo no reino da fantasia. Eusébio não tem culpa. Foi apanhado na lógica dos símbolos-chave como alguém os designou para os distinguir de sinais mais comezinhos como os do código da estrada.

Descansa pois em paz Eusébio. Ouvi dizer que foste o maior do mundo. Pelo menos carregas esse fardo aos ombros; mas que te será leve posto que a morte é-te imponderável.

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