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O cínico

Outubro 25, 2013

Pode um homem discorrer durante mais de uma hora sobre o estado político, social e económico de Portugal sem nunca utilizar o termo neoliberalismo? Pode. E Pacheco Pereira é justamente o homem para isso.

Eu já suspeitava que a sanha de PPereira contra o governo de Passos decorresse mais de uma postura elitista do que de uma crítica fundada. Mas depois de o ouvir fiquei com a certeza de que assim é. O que encanita PPereira não é a voragem neoliberal selvagem que se esconde em qualquer acto deste governo. Não. O que o incomoda é a falta de pergaminhos dos novos políticos, a impreparação das lideranças, a falta de pedigree de Passos, Seguro e respectivos próceres. Para Pacheco o mal nasceu nas formações partidárias, na exclusiva socialização aparelhista que segundo o intelectual é a marca deste novo escol parlamentar, na falta de cultura erudita – quantos livros escreveste? quantas teses de doutoramento? – na falta de pensamento político, enfim. Mas será mesmo assim?

Há um discurso, do qual PPereira se faz veemente porta-voz que insinua que os aparelhos partidários estão podres porque não têm abertura à sociedade civil, ao exterior – que é como quem diz, não são suficientemente arejados. A mediocridade das lideranças, assim como dos que os assessoriam é então questão de fechamento partidarista, gerador de um autismo em relação ao país real que desequilibra, torna medíocres, as opções políticas, em última análise, o próprio sentido de Estado. Todavia, seguindo as biografias da maioria destes actores políticos não observamos um excessivo fechamento nas estruturas partidárias. Pelo contrário, se alguma coisa, o que se constata é uma permanente promiscuidade entre negócios – por vezes de magnitudes muito consideráveis – e vida partidária. Não é preciso muito escavar em vida alheia para observar o óbvio: Passos salta para a ribalta política pela mão de Ângelo Correia, depois de estagiar longamente nas suas empresas. Como Passos, também Relvas andou a gerir empresas antes de aparecer no governo. Ou melhor, ambos fizeram carreiras partidárias aliadas a carreiras empresariais com um denominador comum: redes do PSD. E isto é recente? Não se poderá dizer o mesmo de Cavaco? Quem é que aparece nos negócios da SLN senão a entourage cavaquista dos seus anos de ascenção? Pacheco, saliente-se, tal como o seu comparsa de comentário Marcelo, fala, fala, mas não diz absolutamente nada. O nome desta promiscuidade é justamente neoliberalismo. Nos seus aspectos políticos, o que o neoliberalismo, enquanto programa e ideologia, faz é contaminar a política pelos negócios. Contaminação biunívoca entenda-se, dado que onde a primeira se reforça através da segunda (dinheiro gera divulgação), sustenta-se a segunda à custa da primeira (política proporciona negociatas). Se quisermos ser rigorosos, este estado de coisas vem desde os tempos em que os grandes escritórios de advogados forneciam elementos para a política e as estruturas partidárias arregimentavam pessoas dos grandes escritórios de advogados. Ora isto, este estado de promiscuidade sistemático, é o mais distante que se pode ter de uma socialização político-partidária. Onde esta última existe – onde não há interesses para serem capitalizados – é nos partidos de esquerda. Por isso a consciência social é muito maior nestes do que nos seus congéneres de direita. Não são os aparelhos partidários que deturpam as acções políticas. É a indistinção entre estes e a esfera dos negócios. Onde os limites se encontram traçados com o afastamento pragmáticos dos dois mundos, a política é tomada a sério. Por isso, falta objectivamente socialização política, pensamento político, acção e envolvimento político, e este pode ser adquirido (embora não exclusivamente) nas melhores escolas para o efeito: os partidos. Todavia, os partidos e as suas ideologias, têm que ser partidos para o governo do povo (não me interessa se tal termo tem uma correspondência empírica ou não – deixo isso para os obcecados da história categorial) que tenham em conta as suas massas constituintes, o poder que os constitui e não, como são PSD, PS e CDS-PP partidos para os arranjos e para o estabelecimento de alianças capitalizáveis em mercados exteriores ao político. A grande diferença não se encontra por conseguinte – como quer este discurso populista de rebaixamento dos partidos – entre independentes e militantes, mas sim na natureza das militâncias.

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