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Do excesso

Outubro 11, 2013

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Há um passo de Passos naquela operação de recauchutagem da imagem governamental a que a RTP deu o nome de “O País Pergunta” que me parece digno de nota. A certa altura, uma professora desempregada revela que auferia 1.100 euros por mês. Interrompendo o fio do raciocínio da professora, afadigada que estava esta a concatenar palavras e frases no sentido de compor uma epigramática pergunta ao sr. Primeiro-ministro, dispara este último: brutos ou líquidos? Corando levemente como uma menina apanhada em falso num acto menos púdico, a professora desempregada instada pela figura paternalista do nosso primeiro, divulga sussurrante para um país espreitador de fechaduras que se tratava de 1100 líquidos. Passos pareceu mais descansado. Afinal de contas havia muita fasquia ainda para baixar, como a dizer “ó minha senhora, deixe-se de coisas que há gente bem pior”. Daí que a resposta tenha invocado os esforços abnegados do governo para assegurar o módico necessário para uma vida condigna daqueles que ganham menos de 600 euros. Este é um grupo muito querido pelo governo. Da sua catilinária inicial aos desmandos dos portugueses, passou o governo a dizer que “faz tudo o que está ao seu alcance” – frase tanto mais usada quanto desprovida de sentido – para proteger os de menores rendimentos, leia-se, acarinhar aqueles que se encontram abaixo da fasquia dos 600 euros. Tudo, menos aumentar esses rendimentos. São os nossos pobres de estimação. A possibilidade de dizer às professoras desempregadas que auferiam 1100 euros, “esteja caladinha que poderia estar bem pior”.

E é aqui que se joga toda uma ideologia tão eficaz nas suas articulações discursivas quanto nos seus efeitos práticos. Quem estiver acima dos 1000 euros dê-se por contente porque há ainda muito caminho para percorrer em sentido descendente. A geração dos 500 não é um percalço económico de uma economia contraída – é um efeito necessário a uma ideologia do sacrifício.

Os patrões, é claro que aplaudem. Levam o governo ao colo, em grande gáudio de poupanças esforçadas e puritanos combates contra as atitudes perdulárias. Entretanto 52 restaurantes de luxo abrem as portas a todos os desgraçados afastados das alegrias da riqueza e opulência e oferecem ao mais comum dos mortais aquilo que só as cristinas ferreiras da terra tinham direito até agora de experimentar. 52 restaurantes de luxo só em Lisboa. Em saldo, ainda por cima. Por uns módicos 20 euritos as professoras dos 1100 euros e todos os outros que se encontram agarrados às bóias dos 600 e dos 500 podem partilhar das experiências gustativas de banqueiros, homens da bolsa, jovens empresários de sucesso e quejandos. Ali, enganar-se-ia Pacheco Pereira se visse um potencial insurreccional iminente. Possam os pobres amealhar 20 euros para a esbórnia do fim de semana em cadeirão de luxo. Possam os pobres degustar umas trufas marinadas ou umas ostras gratinadas – e isto só para entrada! A economia cresce a olhos vistos; o fundo em que batemos – assevera o nosso primeiro – distancia-se de nós assim como a sonda curiosity se afastou da superfície da terra em direcção a Marte; e um mundo abençoado onde os restaurantes de luxo são acessíveis a todos é colocado no nosso horizonte. 52 restaurantes de luxo – só em Lisboa! É preciso muita boca de luxo para encher tanta oferta gastronómica. Vá lá senhora professora desempregada dos 1100 euros (pretéritos!, está bem de ver) porque se queixa se vive num país onde os restaurantes de luxo fazem saldos? 

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