A síndroma do brioche

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Ontem no inefável Quest means business, da cnn, Zeinal Bava fazia a apologia das though choices que o governo português teve que fazer. Numa visão optimista, afirmava que Portugal estava a recuperar e que era possível começar a olhar para o futuro com mais confiança, sobretudo apelando para a vastidão geográfica e económica do eixo atlântico – a jangada de pedra dos nossos investidores. É claro, acrescentou, que everyone is feeling the pinch at the moment. No meu léxico, feeling the pinch significa sentir a beliscadura. Não sei se Bava entende como sentir uma beliscadura, perder o emprego e ficar sem alternativas visíveis para ganhar a vida; se sente como beliscadura, reformados que tinham 300 euros e passam ainda a ter menos; se sente como beliscadura os preços da saúde a aumentarem cavalarmente acompanhados com a fanfarra dos banquetes opíparos nas clínicas privadas… Beliscadura será o que sentiu Bava e os seus compinchas nas suas camas forradas de milhões – a esses sim: porventura aplicar-se-á o termo beliscadura.

Mas a frase de Bava não é apenas enternecedoramente sobranceira em relação ao sofrimento alheio. Participa também daquilo que gostaria de chamar a síndroma do brioche. Assim, desta forma mais ou menos axiomática: a beliscadura de Bava está para o brioche de Antoniette assim como a aristocracia plutocrática de Versalhes está para a nova aristocracia multimilionária: ambas vivem da miséria alheia, completamente alheados das suas causas. Ou pretensamente alheados – sim, seria melhor. 

As virtudes do perdão

Há qualquer coisa de asqueroso, cheira a esturro, mete nojo, no mea culpa da troika. Por uma coincidência espantosa, enquanto a troika verga a cerviz perante a evidência da miséria das suas soluções, vem Schauble, o gajo que manda no Eurogrupo, fazer a apologia da austeridade e dizer que a Europa nunca esteve tão bem como agora. Não se desse este desencontro de interpretações em plena época eleitoral, logo de eleitoralismo, e poderíamos ser levados a pensar na existência de opiniões contrastantes entre o FMI, o manda-chuva alemão e o eurogrupo: onde uns viam virtudes inexoráveis no tratamento de choque estariam outros a cobrirem-se de remorsos por serem os responsáveis pela sua aplicação. Hélas, o mundo não é assim nem tão bondoso nem tão escorreito. A declaração da troika é tremendamente apropriada para a época pré-eleições que estamos a viver e não me custa acreditar que tivesse sido proferida em conivência com orientações do governo. O mote? You scratch my back – I scratch yours! Nem mais nem menos. Os representantes dos nossos credores expressam o contentamento desses mesmos credores pela sangria que está a ser efetuada em Portugal prestando uma ajuda ideológico-propagandista ao governo português. Mas em que medida uma tal declaração contribuiria para o resultado eleitoral do psd nas autárquicas? Leva-nos a pensar que a troika em toda a sua humildade técnica reconheceu o falhanço perante o governo português o que significa uma inversão de papéis. De carrascos do pau-mandado governo nacional para cordeirinhos sacrificiais dos portugueses. As vantagens para a imagem imediata do governo são evidentes. Na medida em que ninguém no seu perfeito juízo acredita que os técnicos da troika não saberiam exatamente as consequências do remédio que estavam a propor – desde logo porque havia uma experiência de laboratório controlada na Grécia – esta declaração serve para acalmar os ânimos perante o que aí vem. E nós, como somos dados ao “catolixismo” mais abnegado, defronte de uma contrição sincera só podemos ser chamados a perdoar. E assim perdoamos a troika e por interpostas pessoas o governo que com ela está conivente.

O perfume do jasmim

Blue Jasmine: misto de cinismo wodialaniano com contemplação pequeno-burguesa sobre a vida dos ricos. A verdade é que Allen adora aquele ethos, um ethos que ele esforçadamente elabora e anuncia com as minúcias de um tratadista ou de um colorista de figuras, cujos contornos vai desenhando com esmero num desfile de capitais europeias e agora no regresso à sua América natal. Um traço constante, persistente; uma homologia ideária, portanto. Existe uma sociedade de castas, com as suas regras, limites e proibições, elementos esses que apenas podem ser transgredidos ou por via da iniquidade ou dos afetos, nunca pelas relações ou afinidades normativas. Até porque estas últimas pertencem a círculos excludentes de expressão e mobilização. Os círculos são constitutivamente delimitados pelo dinheiro. Contudo, não se trata de um retrato crítico de uma sociedade de classes e das suas assimetrias. Estas últimas estão lá para demarcar os contornos dos círculos; sobretudo quando nem sequer estamos em presença de uma pluralidade de círculos, passíveis de se intercetarem, ou mesmo encontrarem-se tangencialmente. Dois ou três grandes círculos caracterizam a sociedade assim como é vista por Allen. Ele é, paralelamente, um acutilante observador dos processos de mobilidade social. Mérito lhe seja reconhecido em não ficar pela rama das trajectórias individuais ou colectivas tão ao gosto dos cientistas sociais, antes lhes conferindo um apport literário enlaçando-as numa dimensão moral. É assim que quer as histórias da queda quer da ascensão, no sentido menos religioso dos termos, encerram sempre uma moral do colectivo, do todo, do socius. A interpretação moral que aos filmes de Allen pode ser associada, ao contrário das histórias infantis ou dos grandes poemas clássicos gregos, não estatui, não regulamente, não forma um costume, e por isso não tem uma interpretação directa em qualquer espécie de orientação geral para as condutas humanas. Aliás, os enredos são geralmente inclinados para uma certa e descarada imoralidade, o que não retira coerência à atribuição de uma dimensão moral nas movimentações sociais ascendentes ou descendentes. Exemplos encontramos desde o personagem de Rhys Meyers em Match Point a assassinar a sangue frio a amante para manter a sua segurança ascensional num mundo de riqueza, até Jasmine a inventar uma personae que a convence que ainda vive sob os auspícios encantados da fortuna monetária.

Blue Jasmine efectua este passo em dois movimentos igualmente cínicos. Por um lado, a lição semifranciscana segundo a qual a pobreza pode bater à porta mesmo dos mais ricos. Neste caso, não por despojamento voluntário, como quereria um franciscano na sua ortodoxia do usus pauper, mas como má fortuna que se abatesse sobre alguém à imagem da aleatoriedade dos caprichos dos deuses nos poemas homéricos. Porém, descer à pobreza, comporta uma dimensão moral que se bem que não refaz inteiramente a personagem de Jasmine marca-a com a violência da descontinuidade e expõe-na como ser humano frágil que é (embora o desfecho não seja educativo no sentido da emancipação do ser individual perante a adversidade e da vitória sobre esta última). Por outro lado, e assumindo uma componente cínica sem qualquer remorso, não há nenhuma humanidade que transcenda a posição social, nenhum espaço relacional mundano e espontaneísta onde nos encontremos numa fraternidade ontológico porque percebemos que todos partilhamos de uma mesma posição existencial, nenhum laço emancipatória na fraqueza do humano – nenhuma communitas, por conseguinte. A fachada é o que sobrevive quando os limites são franqueados, e nada mais, nenhuma essência, persiste para além dela. É por isso que Jasmine não reencontra a beleza minimal da partilha humana com a sua irmã pobre e a simplicidade dos seus pares; tão-pouco supera a negatividade da aparência e do artificialismo mediante a ordem dos afectos; e ainda menos “aprende a lição” quando confrontada com a inutilidade de querer ser aquilo que já não pode ser.

Porque não há nenhuma lição para aprender. O cinismo, a mentira, a fachada, tanto pode ruir – o caso de Jasmine e da sua família – como pode resultar na perfeição – o caso do já mencionado Meyers em Match Point, mas também da pseudo-intelectual tagarela de Roma com Amor. Por isso, Allen não é um moralista, muito embora as suas histórias sejam irrigadas pela dimensão moral. Metáfora de uma América cujos anos de dissipação acabaram? Leitura socialista, como na ideia de os 99% contra os 1% ventilada por alguns críticos? Não creio que seja uma nem outra. Para que alguma delas fosse, Allen precisava de ser um moralista – e não é. Allen nutre uma indesmentível admiração pelos 1%, ou 5%, ou mesmo 10%. As classes média-alta e rica são quem ele gosta de filmar, é com quem ele gosta de conversar nos seus enredos; são os seus tiques, posturas e manias que o encantam. À maneira de um Proust contemporâneo e nova-iorquino, as recepções, os salões, as ocasiões de glamour, e os personagens que as habitam, é nisso que se resume a vida, pelo menos aquela que vale a pena viver, segundo a cartilha de Allen. Por isso, nenhuma mensagem política, nem subliminar nem ostensiva, deve ser subentendida em Blue Jasmine. Recreação apócrifa, portanto, do Eléctrico de Teenessee Williams – este sim, repleto de conotações políticas e de crítica social.

O que nos leva ao que parece ser um remake de um Streetcar, mas sem a pulsão sexual ou a crítica social envolvidas no original. As personagens de Allen são um mimetismo simples (por vezes simplista) dos personagens da peça de Williams. Blanche obviamente, Jasmine e as suas alucinações e incapacidade de aceitar que o seu mundo ruiu, acabou, esfumou-se; que a América donde ela proveio deixou de existir. Ora a observação factual de um tal desenvolvimento para a América contemporânea está longe de ser comprovável. Se Blanche Dubois é o resquício de um sul lascivo e langoroso que se esbate perante uma América industrial e operária – como aquela significada por Kowalsky – que tipificações sociais caberão a Jasmine e os outros na “peça” de Allen? Jasmine não é uma tipificação de uma América decadente, até porque ela não representa um lugar na estrutura social em vias de modificação, mas antes um percalço dessa mesma estrutura. Os paralelos são gigantescos evidentemente: o marido de Blanche suicidou-se por causa da sua homossexualidade, o marido de Jasmine suicida-se pela vergonha social de que é alvo; o marido da irmã de Jasmine é o operário bronco que Jasmine odeia e despreza socialmente, assim como Kowalsky é o contraponto à afectação sulista de Blanche; e por aí afora. E claro, o título do filme é retirado da célebre frase proferida por Blanche: (…) I guess you’re not the type that goes for Jasmin perfume… E assim como Blanche, Jasmine é forçada a aceitar a evidência de que o seu mundo acabou, mas fá-lo sempre com a escorreita ajuda da loucura e da alucinação. Mas os paralelos ficam por aqui, ou seja, ficam ao nível da distribuição das personagens e nunca tocam na sua representação enquanto tipos sociais. Pois se Jasmine é uma afectada Blanche Dubois contemporânea, já a América não tem nada de novo para dar. Não existe no filme de Allen nenhum arremedo de luta de classes porque não há correspondência entre as personagens e um putativo lugar histórico que lhes caberia por inerência estrutural. Jasmine é apenas uma mulher caída em desgraça que depende da kindness de conhecidos, neste caso da família. O casal que recebe Jasmine não representa uma nova América, mas apenas uma variação na comédia de costumes que Allen encena tão frequentemente e que põe em contraste (sempre periclitante, diga-se) pessoas de “extracção social” distinta.

Bom, em que é que ficamos então? Ficamos que Blanchete tem uma actuação extraordinária – e não é para admirar porque o que faz é transpor a sua Blanche Dubois que encarnou em 2009 nos palcos da Broadway, dando-lhe um corpo coevo. Uma comédia negra, um tanto preguiçosa, porque excessivamente colada à peça de Tennessee Williams. Não é para rir.