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Em defesa de Judite

Agosto 26, 2013

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Chego no rescaldo do assunto Judite de Sousa. Os insultos e acusações diminuíram entretanto de tom, e a capacidade de hostilizar alguém em toada de linchamento colectivo, tão característica das redes sociais, começou a declinar. O que me interessa na “questão judítica” não é tanto o problema da transgressão deontológica que ao que parece se tornou crime de lesa-majestade – muito a propósito, dado que a deontologia jornalística é tantas vezes pontapeada e amarfanhada que se julgará que anda a consciência colectiva em aprazível amnésia -, mas antes o hidden transcript que subjaz às acusações que à jornalista se têm feito. Nem todos os acusadores e censores caem na mesma esparrela populista; porém, numa demonstração de serviço público com parcos recursos, ponhamo-nos a perguntar às pessoas o que tanto as angustiou na atitude da entrevistadora. As respostas são surpreendentes – aterradoramente surpreendentes. E mostram bem como a muralha ideológica neoliberal se implantou nos cerebelos mais genéricos e acampou bem no centro da massa pensante como uma inculcação tão bem-sucedida quanto maligna.

Reza então o auto-de-fé à jornalista que ela ultrapassou os limites da decência, posto que o rapaz supostamente enxovalhado em público não deve nada a ninguém. É então característico deste vozear alterado do público perante as maleitas da comunicação colocar a pergunta sacramental: – E os políticos, caralho? Por que não faz ela isto aos políticos? As justificações, essas, enrolam-se em complacentes intenções em torno do rapazito ultra-milionário: umas porque ele não tem culpa de ser rico; outras porque ele não pediu para ser entrevistado; e outras ainda porque, vejam lá bem, “ele ainda vem largar o guito para o nosso país”.

Desde quando é que o povo, a opinião pública, se tornou tão tolerante com a riqueza – obscena, ostentatoriamente insultuosa – e tão intolerante com os políticos? Pois terá sido há pouco tempo. A sanha da população vira-se contra o aproveitamento que os políticos fazem do erário público – afinal, aquilo para que todos contribuímos -, os enriquecimentos elícitos e fulminantes, a reforma após doze anos de trabalho no parlamento – enfim, contra o sistema de privilégios que os políticos montaram e do qual se servem amíude. Mas se é verdade que este existe, desde quando a riqueza escarrada na face de tantos outros que pouco de seu têm se tornou alvo de uma complacência morna que abriga os super-ricos num chapéu de condescendência babada? Não foi com certeza com os ensinamentos da revolução francesa, onde comer brioches como sugestão aristocrática levou a que muita cabeça rodasse do cadafalso abaixo.

A impressão de que os ricos vivem à custa dos pobres é uma das coisas mais antigas e perenes da história ideológica da humanidade. Ou melhor dizendo, das ideologias que se vão vazendo história e sem as quais o poder não se manteria camuflado quando exercido sobre pontos de pressão precisos. Se a ninguém escandaliza que se convide uma atriz semi-pornográfica pelo preço de 130.000 euros para uma festa de aniversário, quantia que mistura o padrão do acompanhemento de luxo com a pura dissipação de dinheiro, ou que o rapaz se apresente na televisão com arrecadas a descaírem do pescoço abaixo, se a isso juntarmos o relógio de ouro e diamantes, a totalizarem para cima de um milhão de euros, então está tudo louco, ou pior, a sacanisse calou tão fundo nos peitos dos nossos concidadãos que não há resgate possível para a decência.

Deontologia jornalística. Nunca ninguém se preocupou muito em defender a vida devassada dos políticos e outras figuras públicas. Nunca ninguém considerou que os julgamentos na praça pública destes alvos preferenciais da voragem jornalística fossem uma “transgressão” à tão prezada deontologia. Ninguém, excepto os visados. Mas o rapaz prestou-se à devassa da sua vida privada porque é assim que o star system funciona: alimenta-se do glamour destas personagens, e eles por sua vez alimentam-se do eco que esse sistema lhes proporciona. É uma simbiosa. Sem a intromissão babada e grotesca nas suas vidas, estiolavam. E os intromissores morreriam caso não se dessedentassem na vida do dinheiro dos outros.

Será então que apenas com admiração contreita se pode falar desta sinistra combinação? Será que só com orgulho mediado pelo espanto labrego das revistas cor-de-rosa se pode prestar homenagem a tão escorredias personalidades? E se em vez disso alguém disser, Você devia ter vergonha na cara!, é caso para Ai Jesus que a jornalista perdeu o tino?

Judite, nisso estarão cobertos de razão, não faz da crítica política a sua principal arma. A acutilância de Judite confunde-se frequentemente com a subserviência perante a aristocracia à qual ela pertence. Porventura foi a raiva aristocrática ao parvenu luso-brasileiro que moveu Judite na entrevista. A aristocracia tem uma particular desconfiança aos penetras, mesmo quando estes arrotam dinheiro. Mas se alguém poderia fazê-lo, se alguém poderia pôr a nu a obscenidade dos comportamentos daquele jovem, esse alguém era Judite – pela sua posição: porque é rica, porque é uma jornalista conceituada. Por isso, e independentemente das razões que assistiram Judite na sua ofensiva, é bom que estas existam; é positivo que ainda se possa dizer, Isto é um escândalo! Ou pelo menos assim pensava Judite. Evidentemente que se enganou. O povo gosta de incensar os poderosos; excepto quando estes têm – nem que seja tangencialmente – a ver com o exercício da política. Lembra outros tempos. Mal comparado talvez – mas Weimar nutria-se do mesmo espírito. O proto-fascismo começa quando a raiva é assestada às judites deste planeta.  

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