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Quem tem medo do bloco central?

Julho 16, 2013

A pressa com que BE e PCP se precipitaram a congeminar uma aliança de esquerda revela aquilo que toda a gente começa a farejar no horizonte: a eminência de um bloco central em regime antecipado a ser testado nas eleições de 2014.

O PS, pela voz de Carlos Zorrinho, procura resolver a quadratura do círculo ao anunciar que vai votar a favor da moção de censura preparada pelos Verdes enquanto aconchega o traseiro à mesa das negociações com o PSD e CDS-PP.  Oportunamente se excitaram os partidos da esquerda percebendo que a jogada de aproximação não é inocente e que no quadro de distribuição de lugares parlamentares que as sondagens anunciam, nem o PS faz o pleno, podendo alijar o PSD do poder, nem o PSD é tão duramente penalizado como seria expectável. Em verdade, o que se observa é uma difícil geometria negociável que não deixa nenhum dos dois maiores partidos com margem de manobra para poder viver sem o outro. Foi isso que Cavaco anteviu; foi isso que Cavaco propôs. E foi esse anzol que o PS engoliu (e quis fazê-lo) todinho.

A implicação do PS na governação – quando o santo e a senha deste governo e do presidente da república foi sempre mantê-lo à distância para o poder mobilizar enquanto bode expiatória da situação – reparte as responsabilidades de actuação na acção governativa bem assim como introduz o PS no círculo decisório do qual há uns tempos se via arredado. Na certeza de que este estratagema teve o seu tempo a levedar, há pelo menos duas conclusões a retirar desta manobra. Ela não foi efectivamente preparada para sanar a situação de caos político engendrada pelos governos da coligação – se assim fosse, o presidente teria simplesmente dissolvido a assembleia e convocado eleições. Também não responde a um sentimento de crispação crescente entre a coligação e o PS que tivesse deixado o país à beira da ingovernabilidade. Neste capítulo, as relações político-institucionais prosseguiam como de costume: Seguro a dizer banalidades e a cavar alguma simpatia pública, e a coligação a enxovalhar Seguro e o PS dizendo que o estado de coisas actual a eles se devia. Neste sentido, a percepção de que era necessário atrair o PS ao redil da governação não decorre necessariamente do clima de guerra civil que se teria gerado entre os partidos do arco da governação. Decorre sim da partilha de responsabilidades pela assunção de um novo resgate financeiro que manietará ainda mais o funcionamento democrático das instituições. Com efeito, não é tanto uma amplificação da acção governativa, mas antes uma delimitação dos poderes opositivos que se operou nesta convergência forçada. Por isso o pânico da esquerda é inteiramente justificado. Não só se vê preterida na condução dos destinos nacionais, como vê cerceada o poder de contestação através da cooptação do PS para um pacto governamental. Jogada de mestre? Nem tanto. Apenas a aplicação do mais elementar maquiavelismo político. E sem cuspo nas comissuras dos lábios. 

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