O que é natural é bom

É evidente que as palmas nunca foram muito bem recebidas nos templos católicos. Já nos pentecostais, as palmas fazem parte da liturgia, e cantoria e castanholas é o que por mais se lá vê. Mas não nos templos católicos: aí reina a circunspecção, o anelo dos cantares gregorianos, a vertigem perante a seriedade do sagrado. Porém, pouco circunspectas são as palavras dos que vocalizam a palavra de deus quer em meios mais mediáticos como a televisão e os jornais quer na sua casa onde a melopeia das invocações divinas rompe pelas naves das igrejas nacionais em grandiloquente litania. Se não atente-se nas declarações de D. Manuel Clemente sobre a perseguição de que os oficiantes da palavra do senhor são vítimas. Segundo ele, num mundo em que reina a dissolução e anarquia espiritual, em que a “pluralidade” e mesmo divergência no campo da sexualidade são aceites como banalidades, porquê acusar a Igreja quando estes deslizes acontecem? É bem verdade que desde o Circus Maximus que os cristãos são vítimas da incompreensão dos seus concidadãos; e que é pouco provável que o número de crianças desviadas por padres ombreie com o número de cristãos com que os leões se banquetearam. Mesmo assim, cabe perguntar que espécie de cinismo desfeiteador alberga aquela gente na cabeça. Posto que são eles que elevam a cláusula moral no que à sexualidade diz respeito aos píncaros da imbecilidade. Veja-se, por exemplo, os apelos insistentes a um qualquer cumprimento da natureza que padres, doutorados e teologizantes, constantemente esparramam nas páginas dos jornais. Umas vezes, a natureza não autoriza certas condutas; para outras, a natureza deve fechar um olhinho e não ser tão severa. Em que é que ficamos? Bom, ficamos num caldo de hipocrisia asfixiante. Quantas vezes não me rio, à gargalhada mesmo, quando vejo um certo padre pregar as virtudes naturais da natureza – pleonasmo que serve para sublinhar que para aquelas cabeças não apenas existe uma natureza como esta compreende virtudes – quando eles, pela castidade, são os primeiros a contrariar esses desígnios naturalmente implantados. Não nos devíamos sentir todos insultados quando tantos e tão bons pregadores da natureza nem sequer cumprem um dos seus (putativos) desígnios? Com que desfaçatez se enche a boca de injunções “naturais” quando a mais anómala das relações – aquela que passa pela obrigação de separar a vida terrena da espiritual através da castidade – é defendida e praticada por estes cultores do “natural”. Será que alguns destes pregadores da moral sexual pararam para se remirarem no espelho da consciência e analisarem-se enquanto aberrações que são à luz dos seus princípios “naturais”? A natureza manda crescer e multiplicar, reproduzir, e eles asseveram que só bloqueando esse ensejo se aproximam do divino. Que desejo mais contranatura aqui se encontra encerrado? 

Quem tem medo do bloco central?

A pressa com que BE e PCP se precipitaram a congeminar uma aliança de esquerda revela aquilo que toda a gente começa a farejar no horizonte: a eminência de um bloco central em regime antecipado a ser testado nas eleições de 2014.

O PS, pela voz de Carlos Zorrinho, procura resolver a quadratura do círculo ao anunciar que vai votar a favor da moção de censura preparada pelos Verdes enquanto aconchega o traseiro à mesa das negociações com o PSD e CDS-PP.  Oportunamente se excitaram os partidos da esquerda percebendo que a jogada de aproximação não é inocente e que no quadro de distribuição de lugares parlamentares que as sondagens anunciam, nem o PS faz o pleno, podendo alijar o PSD do poder, nem o PSD é tão duramente penalizado como seria expectável. Em verdade, o que se observa é uma difícil geometria negociável que não deixa nenhum dos dois maiores partidos com margem de manobra para poder viver sem o outro. Foi isso que Cavaco anteviu; foi isso que Cavaco propôs. E foi esse anzol que o PS engoliu (e quis fazê-lo) todinho.

A implicação do PS na governação – quando o santo e a senha deste governo e do presidente da república foi sempre mantê-lo à distância para o poder mobilizar enquanto bode expiatória da situação – reparte as responsabilidades de actuação na acção governativa bem assim como introduz o PS no círculo decisório do qual há uns tempos se via arredado. Na certeza de que este estratagema teve o seu tempo a levedar, há pelo menos duas conclusões a retirar desta manobra. Ela não foi efectivamente preparada para sanar a situação de caos político engendrada pelos governos da coligação – se assim fosse, o presidente teria simplesmente dissolvido a assembleia e convocado eleições. Também não responde a um sentimento de crispação crescente entre a coligação e o PS que tivesse deixado o país à beira da ingovernabilidade. Neste capítulo, as relações político-institucionais prosseguiam como de costume: Seguro a dizer banalidades e a cavar alguma simpatia pública, e a coligação a enxovalhar Seguro e o PS dizendo que o estado de coisas actual a eles se devia. Neste sentido, a percepção de que era necessário atrair o PS ao redil da governação não decorre necessariamente do clima de guerra civil que se teria gerado entre os partidos do arco da governação. Decorre sim da partilha de responsabilidades pela assunção de um novo resgate financeiro que manietará ainda mais o funcionamento democrático das instituições. Com efeito, não é tanto uma amplificação da acção governativa, mas antes uma delimitação dos poderes opositivos que se operou nesta convergência forçada. Por isso o pânico da esquerda é inteiramente justificado. Não só se vê preterida na condução dos destinos nacionais, como vê cerceada o poder de contestação através da cooptação do PS para um pacto governamental. Jogada de mestre? Nem tanto. Apenas a aplicação do mais elementar maquiavelismo político. E sem cuspo nas comissuras dos lábios. 

Ouçam o que ele diz, pois está coberto de razão…

Ouçam o que ele diz, pois está coberto de razão. Mas a fractura não fica apenas exposta entre a elite e o povo, ou numa geometria demasiado arrumada, entre os de baixo e os de cima. Até porque estas posições sofrem cambiantes e estão longe de se encontrarem em relações proporcionais e equidistantes entre posicionamentos sociais. O esmagamento dos de baixo não resulta apenas do despudor dos governantes ou da violência exercida e comanditada ao governo pelos grandes grupos económicos. O esmagamento dos de baixo existe quase como constante de uma relação de desigualdade crescente que se impôs em Portugal. Os actores desta imposição não são nem definíveis assim directamente nem circunscritíveis a uma elite. Ou melhor dizendo, eles respondem de facto a uma elite, mas é mais no sentido weberiano do que no marxista onde esta se encontra definida de uma vez por todas na relação estabelecida entre os grupos e as forças produtivas. No sentido weberiano, as elites, plural, são diversas e recobrem múltiplos campos, não necessariamente subsumíveis ao económico, mas cujas estratégias são invariavelmente de fechamento e açambarcamento dos capitais que possuem.

Desta forma, para além da elite económica propriamente dita, a qual podemos situar numa cúpula de poder para efeitos analíticos, temos elites intermédias, cujo exercício de esmagamento não é menos consequente. Médicos, advogados, engenheiros, as designadas profissões liberais (mas não todas, obviamente), que podendo ou não confinar com a elite económica, a do grande capital, exercem igualmente uma violência não despicienda. A elite dos médicos por exemplo – mas seria extensível aos profissionais de saúde com habilitações mais elevadas, tais como psicólogos – goza de uma posição privilegiada ao controlar ambos os sistemas de saúde: o privado e o público. Deste controlo resulta mais-valias monetárias significativas, pelo acúmulo de rendas extraídas dos dois sistemas. Resulta igualmente uma forma de simbiose perfeita entre os dois sistemas em que ambos se retroalimentam tendo a jusante sempre os mesmos destinatários – consulta no público, análise no privado: o mesmo médico em ambas extremidades do processo. A promiscuidade deste sistema não faz com que os preços sejam competitivos, nem num lado nem noutro, ou tão-pouco que a escolha seja mais alargada. Com efeito, tem como consequência um fechamento perfeito e impositivo entre um sistema de saúde para pessoas abastadas e um para gente sem recursos. Mas como as pessoas abastadas não chegam para o incremento progressivo do sistema paralelo privado, o Estado tem que se encarregar do transporte de parte dos utentes do público para o privado, aceitando assumir o ónus dessa transferência – é o que fazem sistemas comparticipados como a adse e outros. Dos dois lados – os mesmos profissionais de saúde.

Quem diz a saúde, diz a justiça. Aqui o problema não se trata certamente da morosidade, como reiterado até à exaustão por tantas vozes críticas. Ou seja, pode até ser um problema, mas não é o PROBLEMA. A perversão na justiça está nos seus preços. Uma justiça incomportável para pessoas de baixos rendimentos, mais uma vez cria uma cisão entre grupos com recursos e todos os outros. O facto de ninguém, para além dos próprios profissionais do sector, perceber a correspondência entre despesas exigidas e serviços prestados faz com esta relação possa ser perfeitamente arbitrária e elástica. Como não existe nada tabelado para além dos serviços que cometem ao Estado, os advogados estabelecem os seus honorários segundo critérios absolutamente obscuros. O resultado é que mais uma vez só acede à justiça quem pode pagar.

É preciso que se diga que estes grupos profissionais não são vítimas inocentes da perversão do sistema ou dos desmandos governamentais: eles são os principais responsáveis e beneficiários. Alimentam, por conseguinte, o estabelecimento e extensão social da desigualdade, através de processos de açambarcamento coercivo (monetariamente falando) de recursos essenciais.

Em suma, podendo estes estar formalmente contra uma qualquer putativa situação de crise que se esteja a viver, em termos reais não são por ela atingidos. Assim como, se o dono do pequeno café terá algo a lamentar, já o dono do restaurante de luxo não se pode queixar: as elites alimentam-se mutuamente – basta que para isso partilhem dos mesmos mercados. Ora é isso que cada vez mais se verifica em Portugal, bem para além do fosso intransponível entre o grande capital e a massa – que não existe nestes termos de oposição absoluta, repito – o que se constata é a justaposição de mercados excludentes com regras cada vez mais estabelecidas e interconectadas baseadas em princípios de fechamento progressivo.

Kinderlieder

Vou reiterar aquilo que disse aqui e aqui. No primeiro aqui, referia-me então ao acto da dissimulação como parte consubstancial do ser político dos agentes da direita parlamentar. Na altura mencionei o facto de algo poder ser uma coisa e o seu contrário, e das cambiantes entre estes dois termos de uma equação cínica, serem tão rápidas que se tornara impossível divisar uma sequência lógica. No segundo aqui, escalpelizei aquilo que afinal foi o cerne da questão nos acontecimentos destes últimos cinco dias. Estamos agora em condições de juntar estas duas linhas de observação.

Recorrendo a uma banal fenomenologia do quotidiano é sempre possível ler os actos não por aquilo que enunciam, mas pelo leque de consequências que abrem ao serem perpetrados. O jogo, aliás, foi de uma clareza atroz e só o pasmo labrosta de comentadores (e tantos! e tão bem pagos!) pode ter induzido a confusão sobre as razões da concatenação de acções a que assistimos recentemente.

Gaspar, homem de uma arrogância tão grande quanto o seu ego e megalomania, confrontou-se, nem assim tão de repente, mas perante uma teimosia irracional o efeito de surpresa foi amplificado, com a colossal possibilidade de um segundo resgate. Perante tamanho descalabro, Gaspar bazou, deu de vilas-diogo, diria o povo, o povoléu, pôs-se a milhas. Quiseram-nos confundir o bestunto com o pretenso desacordo de Paulo Portas perante a escolha da Maria Luís. Segundo esta teoria, Portas não estaria de acordo com a escolha da indigitada a ministra das finanças, e apregoando altissonante esse desacordo, bateu com a porta numa investida “irrevogável” sem a qual colocaria em risco a sua integridade pessoal e a capacidade de dissimulação durante mais algum tempo. Esta foi a teoria. E que bem agitada que ela foi. Porém, se pensarmos um pouco, Portas não dissimula a incapacidade de viver com a escolha da Maria Luís – Portas não consegue mais dissimular a inevitabilidade dum segundo resgate: sobretudo se o ónus deste recair nas pessoas que segurarem o timão do governo quando ele chegar. Era isso que Portas não conseguia dissimular. O que feria a integridade de Portas era ficar cá para fechar a Porta quando a merda nos rebentasse na cara – paráfrase da velha expressão britânica the shit hit the fan – enquanto o Gaspar se punha ao fresco quando o fogo lhe estava verdadeiramente a chegar ao cu. O que Portas terá dito a Passos foi: – o gajo baza e nós levamos com a bomba? Se quiseres aguenta-te tu que eu já fui.

Mas então o que fez Portas regressar? Por um lado, a pressão dos pares do CDS que sabem que uma saída de Portas nesta altura traria no vento uma hecatombe nas eleições autárquicas. Por outro, o desequilíbrio na balança de poder que Passos provocou e a que teve que ceder. Esse desequilíbrio coloca Passos numa posição muito delicada porque a possibilidade de ser ofuscado por Portas enquanto seu vice é muito significativa. Portas está disposto a partilhar o ónus do segundo resgate desde que isso dê dividendos, e grandes, ao CDS-PP e a si próprio. Cordeiro sacrificial, sim senhor, mas em troca dêem-lhe pedras preciosas.

A encenação, mesmo que não perpetrada ao pormenor, serviu obviamente para iludir o facto consumado de um segundo resgate. A nova versão, coonestada pelos trapalhões que passam por comentadores políticos, é muito mais higiénica, crédula, e contenta os incautos. Doravante, foi esta “irresponsável brincadeira de garotos”, como alguns disseram, que catapultou o país para um segundo resgate: e não uma espiral recessiva que toda a gente sabia de antemão que aconteceria. Para a história vai ficar que o segundo resgate se tornou uma realidade porque os membros da coligação agiram irresponsavelmente ao porem os seus caprichos à frente dos interesses da nação. E não, que todos os sacrifícios dos últimos três anos foram baldados, não havendo narrativa que os integrasse e lhes desse uma configuração cognitiva aceitável perante tão colossal falhanço. Agora já há: é a estorinha dos meninos rabinos que um dia se desentenderam e os mercados não perdoaram.

O estranho caso do dr. Brasil

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Certo, certo. Algumas das reivindicações que saíram à rua nestes últimos dias nas principais cidades brasileiras têm imensa razão de ser. Outras, nem por isso. E outras ainda, mostram o total descaso do bolo informe que se vai acotovelando em manifestações sob o pretexto de mudar o Brasil. Ao princípio, parece um paradoxo ambulante: uma multidão que vive num Brasil ultra-capitalista e consumista de repente insurge-se contra a delapidação do Estado. De duas, uma: ou o Brasil ultra-consumista não conhece o Brasil da privação, ou o Brasil que saiu à rua não tem qualquer ligação com o Brasil hiperconsumista. Suspeito, que nem uma nem a outra.

Esta consciência social pode ser considerada natural dentre tradicionais membros da esquerda, com filiações partidárias estabelecidas, munidos de coadas consciências políticas, reflectidas e treinadas em fora sociais e assembleias populares. Porém, o grosso das gentes não tem este perfil e tão-pouco enveredou por trajectos onde a linguagem e o pensamento político façam parte de uma prática quotidiana e de projectos individuais. As manifestações também têm sido massivamente jovens, sobretudo naquilo que pelas imagens parece uma juventude académica. A primeira coisa que ressalta desta juventude é que ela é imaculadamente branca; até em Salvador da Bahia, cidade com mais de 70% de pessoas que se declaram negros, as ruas encheram-se de uma alvura beatífica. Significa que a pobreza não está presente nestas demonstrações anti-governamentais. A favela não está no “movimento” – assim apelidado por não se perceber nenhuma tendência definida: movimento para onde?, para quê? E esta segmentação do protesto também não é estranho: o Maio de 68 também não foi feito pelos necessitados, mas sim pelos jovens universitários munidos de consciência política e social. Sabemos que a promessa de amanhãs que cantam ficou pela pixagem de paredes e belos slogans poeticamente edulcorados. Não quer dizer que a vontade revolucionária não fosse genuína, pelo menos para um determinado espaço-tempo, aquele que demorou a integrar estes jovens no capitalismo consumista mais desabrido.

Diz-se que a classe média é o motor da democracia. Plumitivos de uma suposta esquerda qualquer repetem isto à saciedade – sobretudo com a amplificação de programas televisivos da moda onde a faculdade da palração é testada – reiterando uma consabida teoria lá dos lados liberais da história e teorização da democracia. Ora, para quem conhece alguma coisa do Brasil, sabe que esta classe média em ascensão meteórica se confronta com um dilema, não tão dissimilar ao dilema português. Vê uma fatia considerável do seu contingente chegar a patamares de consumo nunca antes almejados, e outra fatia considerável não conseguir alcandorar-se a lugares tão promissores. A esta última, a promessa Brasil, os benefícios do crescimento, vão sendo gradualmente sonegados pelo movimento exigido pela primeira, a saber, a inflação galopante. Pois apenas se explica o encarecimento brutal de um cabaz de vida mais elementar pela pressão exercida pelos 70 milhões que no espaço de década e meia ascenderam ao consumo. E aqui é que a coisa se complica. A juventude que não tem qualquer saída, olha para a juventude que passa rapidamente de classe média para alta, e rica, e pergunta-se, afinal a quem aproveita todo este crescimento económico?

É por isso que as justificações baseadas na necessidade de um aprofundamento do Estado afiguram-se deslocadas. Desde logo, porque a juventude branca que enche as ruas não estudou no ensino público. A linha divisória entre o Brasil possidente e o desprovido de recursos é tão justaponível à cor que o ensino público é geralmente ocupado pelos mais escuros. O cromatismo das presenças nas manifestações parece medida torpe e imperfeita para aquilatar das suas razões, mas se serve para averiguar dos diferenciais sociais em esferas como a educação e a distribuição da riqueza, porque seria menos efectivo para perceber as invocadas razões para a insurgência?

Ponto assente: quem anda no ensino público não chega à universidade, e quem chega à universidade tem 80% de probabilidade de vir do ensino privado. E são esses, ao que parece pelas imagens, que se insurgem contra a qualidade dos serviços públicos.

A mesma lógica pode facilmente ser estendida para os transportes públicos. Numa sociedade onde o volume de carros cresce a uma velocidade seis vezes maior do que a população (nos últimos dez anos o volume de carros cresceu 75% e a população cresceu 12%) parece um contra-senso agitar uma bandeira revolucionária por um aumento de 20 cêntimos no preço dos transportes públicos. Porém, o movimento passe livre levou a sua avante, o que significa que os poderes neoliberais não conduzem a pauta política dos Estados regionais e que estes têm flexibilidade suficiente para acomodarem reivindicações, sobretudo quando estas são produzidas através de arregimentação popular – algo a que os governos de direita são moral e estruturalmente avessos, embora  a pressão mediática os obrigue a ceder por vezes.

Entre os tópicos reivindicativos brasileiros, surge com grande destaque um desacordo de fundo com os investimentos na copa do mundo. Ora, o país do futebol estar contra a recepção do maior acontecimento futebolístico mundial é por si só uma singularidade. Quem assim se agita – contrapondo ao investimento massivo no evento a necessidade de melhores serviços de saúde e educação públicos – não pertence àquela classe para quem tradicionalmente se atribui um amor desmesurado ao desporto rei e ao carnaval. Daí não vem protesto contra o futebol. Por outro lado, o alvo ser explicitamente o investimento público no futebol ao invés de ser as fortunas que se fazem e desfazem com o futebol entre privados é por si só um sério enviesamento de um caderno reivindicativo. Pois não se dá o caso de um país com um ordenado mínimo que ascende a pouco mais de 200 euros ir assistir a uma transferência de 60 milhões de euros por um jogador seu nacional, naquela que parece ser a transferência mais cara de sempre? Porque razão o país que se incomoda com o perdulário investimento na copa do mundo fica impávido perante a obscenidade de uma tal transferência? Porque é mais fácil acertar no Estado do que nas transferências flutuantes, mutáveis, imponderáveis, muitas vezes indetectáveis, do grande capital. E isto é tão válido para o futebol como para qualquer grande negócio onde montantes avultados estejam envolvidos. O Estado é o siting duck de eleição para o caderno reivindicativo das massas que ocupam as ruas brasileiras.

Então, por que gritam as pessoas nas ruas das principais capitais brasileiras? Por ordem. E essa é que é a palavra assustadora. Ao empunharem em massa a exigência do combate contra a corrupção, a pec 37 e a exigência da implosão do regime de partidos, esta classe média que saiu à rua não consegue articular politicamente as suas reivindicações sem passar pelo estafado slogan populista segundo o qual os políticos e os partidos são todos uns bandalhos. E não verificamos exactamente isso nas manifestações egípcias que festejaram efusivamente a queda de Morssi? Não encontramos os mesmos dizeres contra os partidos, o mesmo ódio à política – parlamentar, partidária, claro está – e os seus representantes? Então é isto que define o movimento, esse monstro de sete cabeças maquiavélico que a todos deixa perplexos. Porém, se o movimento é aquilo que se define contra o Estado e os partidos como pode então pugnar pela ordem? É porque a ordem por ele convocada é de outra natureza. Não é mais a ordem cidadã da inclusão pelo Estado na abstracção do seu manto nacional integrador. É uma ordem que se quer individualizante. A luta contra a corrupção não é uma luta contra a hierarquia das ordens sociais; é antes uma luta contra X que é corrupto, ou Y que corrompeu. É por isso que a corrupção serve de bandeira à direita também – embora os governos de direita sejam geralmente dos mais estruturalmente corruptos como prova à saciedade o ministério Color de Mello. O movimento, arregimentado através das redes sociais, pensa-se da mesma maneira que funcionam essas mesmas redes: através de actos espontâneos onde todos se equivalem basta que sejam caucionados pelo número de aderências que conseguem mobilizar. Assim, os médicos de São Paulo bloquearam ontem a Av. Paulista em protesto contra a admissão de médicos estrangeiros pelo serviço nacional de saúde, enquanto se calam perante a possibilidade de açambarcarem certas modalidades clínicas que dantes eram distribuídas por profissões suas congéneres. Lógica corporativista? Também. Mas é mais do que isso – é a sensação de que as nossas exigências têm prioridade sobre todas as outras e que a sua justificação ética se prende mais com a forma (e a força) com que são expedidas do que com os seus conteúdos.

Nacional situacionismo

Agora que a crise política nacional se desenrola em velocidade de melodrama caseiro, é bom aquilatar, com serenidade analítica, das razões para as trocas e reviravoltas no governo português.

Primeiro, Gaspar vai embora não porque finalmente tenha caído em si e assumido o falhanço “colossal” da sua política, mas porque temia ser salpicado por alguma (eventualmente muita) sujidade do caso dos swaps. É interessante verificar que a grande maioria da imprensa internacional faz referência a isso; enquanto do lado da comunicação social portuguesa, as razões aventadas são bem mais do quilate do pantomina para crianças, chegando os plumitivos mais assisados a chamar de fedelhos os nossos melhores governantes.

Segundo, Portas desaparece de cena para forçar a sua reeleição no próximo congresso do CDS – que não era certa… Só que saiu-lhe o tiro pela culatra. Os próceres do CDS-PP são tão fiéis como Brutos e quando Portas esperava uma arregimentação em massa mediante a sua intempestiva demissão, os bons dos boys dão o dito por não dito e afirmam-se agarrados ao rochedo de prometeu, e mesmo que as rapinas lhes comam o coração, o facto de terem roubado o fogo, desta feita aos homens, é suficiente para que resistam estóica e alegremente ao suplício.

Terceiro, a escolha da nova ministra das finanças compreende-se no âmbito de relações políticas pouco claras onde quem mandava era na realidade Gaspar. E qual a melhor maneira de encobrir pistas sobre um caso que começava em Maria Albuquerque e tinha ramificações em Gaspar? Assegurar que a pasta fique com alguém da confiança de Gaspar.

Agora começa a farsa, como diz Daniel Oliveira? Pois claro. Agitam-se fantasmas de um segundo resgate, quando este estava mais do que consumado entre o governo e a troika.

Portas dá o dito por não dito, como refere um jornal nacional, claudicando após ter atirado com a porta abruptamente? Pois claro. Segundo as fontes do CDS, a última coisa que os seus dirigentes e conselheiros quereriam era ficar associados ao segundo resgate. Bom, mas permanecendo Portas, e dando-se a inevitabilidade de um segundo resgate, como há muito era perceptível, ficaria este a ele associado. De que simulação fala Portas? A de não conseguir conviver com Maria Luís Albuquerque, porém não lhe tirar o sono a convivência com Gaspar? Não, Portas sai, para não ficar associado à tragédia do segundo resgate troikiano.

E o governo moribundo subsiste? Claro! Como num filme de zombies, ele só cai se lhe cortarmos a cabeça… e essa, não é Passos nem Gaspar – chama-se Cavaco.