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De homens e de deuses… neoliberais

Maio 30, 2013

Um dos fenómenos mais interessantes da compulsão neoliberal é a forma como o mundo do trabalho se encontra ausente das suas produções culturais e imagéticas. O mesmo não acontece com o mundo do investimento. Do marketing à comunicação social de massas, a ideia de investimento é de tal forma amplificada e propalada, e com uma tal sistematicidade, que estamos perante uma verdadeira hegemonia simbólica. Mas não o trabalho, naquilo que tem de repetitivo, monótono, exigente e até mesmo desesperante, esse encontra-se judiciosamente escondido pelos aparelhos de produção ideológica. O trabalho declina-se geralmente como serviço. Nós vêmo-lo, mas não o equacionamos com o esforço, até porque se há coisa que o neoliberalismo, e o seu aliado prático, consumismo, não toleram é a exibição do trabalho enquanto esforço. Note-se que não é o trabalho enquanto sacrifício. Esse está na ordem ideológica do dia e remete para os primórdios capitalistas da ética do esforço enquanto salvação terrena. É o trabalho enquanto desgaste, frequentemente contra a vontade e dignidade da pessoa que o exerce. Esse trabalho, que é o de tantas mulheres e tantos homens, não possui o condão de ser atractivo para o imenso espelho onde a lógica de celebração do investimento se remira. O que passou a ser considerado digno de atenção, aliás de toda a atenção, é um tipo social emergente que tem por cognome “o empreendedor”. O empreendedor, neste newspeak globalizado, é aquele que não fica à espera que as coisas aconteçam – faz o seu próprio mundo. A forma que medeia o mundo e a sua acção é tipificada enquanto investimento. Que este último fosse celebrado nos círculos onde os seus proventos eram colhidos, há muito que se tornara uma realidade cultural. Agora a compulsão para o representar como o único tipo merecedor de celebração, é algo relativamente novo, sobretudo quando se estende ao corpo social que adquire avidamente esta representação como senso comum. Somos então bombardeados diariamente com histórias de sucesso de empreendedores e empreendedoras que empreenderam sobre o mundo não se deixando acomodar aos círculos restritos das zonas de conforto. E o trabalho? Esse não tem qualquer interesse; muito embora, assim como a velha máxima predestinava que por detrás de um grande homem estivesse sempre uma grande mulher, diremos que por detrás de um grande empreendedor estarão sempre vários (quando não muitos) trabalhadores. A lógica é simples: os empreendedores não existem sem os trabalhadores que levam a bom termo os seus empreendimentos. E mesmo que admitamos que no início um empreendedor se fará quase em isolamento, a sua iniciativa só será reconhecida enquanto bem-sucedida quando o potencial da sua ideia se materializar em crescimento da sua estrutura – e esta exige trabalhadores.

Esta admiração por quem empreende e investe, subordinando toda e qualquer imagem ao espírito arguto de homens e mulheres singulares, omite deliberadamente as relações de poder que se tecem entre quem empreende e quem produz. É uma reverência babada pelo patrão e pela ideia mítica de um patronato prometeico que se encontra aqui em jogo. Com esta vem uma completa desatenção ao esforço do trabalho e por isso uma total ausência da justiça da sua retribuição. Na medida em que a única imagem moral que esta ideologia aceita é dos benefícios do investimento, estes reverterão sempre para quem se encontra moralmente ligado ao sucesso do empreendimento. Logo, quando uma outra relação está oculta, ou seja, quando quem trabalha para esse mesmo sucesso não faz parte da sua imagem de sucesso, a esbulha do quinhão que é por direito seu pode ser consumada. E de facto é-o. Nas mais diversas ocasiões. A flexibilização é um termo técnico para a ocultação desta relação de usurpação do produto do esforço do trabalho. O que se flexibiliza não é nunca o produto directo do investimento que cabe ao investidor, mas sempre a proporção da participação do trabalhador nesse produto. Por isso é que as empresas para manterem as margens de lucro despedem pessoas. Não é que não tivessem capacidade para as manter, é que só as manteriam à custa da redução dos proventos de quem investe. No esquema cultural de deificação do investidor, esse sacrifício só pode ser efectuado sobre os homens e não sobre os deuses.

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