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Conversa com Pilar

Maio 2, 2013

sancho-panza-and-don-quixote-in-the-mountains

Pilar chama-me a atenção para a analogia entre o Quixote de Cervantes e a Jangada de Pedra de Saramago. Analogia deliberada, diz-me Pilar, que passou despercebida à crítica literária. No Quixote, Sancho desloca-se num burro e Quixote num cavalo, e ambos percorrem a Espanha em aventuras e desventuras. Na Jangada de Pedra, os cinco personagens do romance deslocam-se num dois cavalos, um citroên, dos antigos, e percorrem a península. Analogia novelesca e genealógica: Cervantes estaria na história da literatura portuguesa, ocupando o mesmo lugar simbólico que lhe calhou por direito na espanhola. Quando mais não fosse, porque Cervantes é uma das grandes inspirações de Saramago, sobretudo o Quixote, diz-me Pilar. Daí que Saramago seja o mais espanhol dos escritores portugueses, ou vice-versa, o mais português dos continuadores cervantinos. E se a península se despega do continente europeu e vai por esse atlântico fora bordejar outras costas que lhe são mais consentâneas, não o faz apenas como fado social e económico, quiçá cultural em sentido lato, mas num muito específico sentido literário. A península tem Quixote… e Pessoa, e Vieira, e nesse pathos que nos une, as fronteiras entre tradições literárias esborrata-se, torna-se transparente, indefinida. Num borrão, ouvimos Quixote dentro de Saramago, e o sentido dialógico que as conversetas entre Sancho e D. Quixote entretêm encontra-se também na permanente interpelação que Saramago dirige aos seus leitores: “Saiba o leitor”, “O leitor saberá”… etc. A adopção de Saramago por parte dos espanhóis tornou-se por isso relativamente fácil. Saramago falava na linguagem de Quixote, e a sua península com laivos utópicos de procura de ilhas em mares ignotos era-lhes bem reconhecível. A jangada de pedra é o resultado da fusão quase homozigótica entre dois países; fusão não apenas histórica no sentido diacrónico de sucessão de acontecimentos que marcaram e constituíram dois povos, mas de genealogia literária. Teríamos então – e isto não afirma Pilar, sou eu que especulo – um pai Quixote e uma mãe Pessoa que transmitiram ao seu filho o inexorável destino da jangada de pedra: vogar pelos mares ao encontro das suas ramificações por onde as línguas de Pessoa e de Cervantes se vão escutando em desarmonia, porventura, com outros linguajares vernaculares. Quando a Jangada de Pedra parte, deixando para trás o resto da Europa, é Cervantes e Pessoa que abandonam o ocidente porque não lhe pertencem. E assim como Sancho é arrastado por Quixote na busca da mirífica Dulcineia, também os protagonistas montados num dois cavalos da citroên se fazem ao caminho na procura de um poiso que lhes reconheça as origens.

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