De homens e de deuses… neoliberais

Um dos fenómenos mais interessantes da compulsão neoliberal é a forma como o mundo do trabalho se encontra ausente das suas produções culturais e imagéticas. O mesmo não acontece com o mundo do investimento. Do marketing à comunicação social de massas, a ideia de investimento é de tal forma amplificada e propalada, e com uma tal sistematicidade, que estamos perante uma verdadeira hegemonia simbólica. Mas não o trabalho, naquilo que tem de repetitivo, monótono, exigente e até mesmo desesperante, esse encontra-se judiciosamente escondido pelos aparelhos de produção ideológica. O trabalho declina-se geralmente como serviço. Nós vêmo-lo, mas não o equacionamos com o esforço, até porque se há coisa que o neoliberalismo, e o seu aliado prático, consumismo, não toleram é a exibição do trabalho enquanto esforço. Note-se que não é o trabalho enquanto sacrifício. Esse está na ordem ideológica do dia e remete para os primórdios capitalistas da ética do esforço enquanto salvação terrena. É o trabalho enquanto desgaste, frequentemente contra a vontade e dignidade da pessoa que o exerce. Esse trabalho, que é o de tantas mulheres e tantos homens, não possui o condão de ser atractivo para o imenso espelho onde a lógica de celebração do investimento se remira. O que passou a ser considerado digno de atenção, aliás de toda a atenção, é um tipo social emergente que tem por cognome “o empreendedor”. O empreendedor, neste newspeak globalizado, é aquele que não fica à espera que as coisas aconteçam – faz o seu próprio mundo. A forma que medeia o mundo e a sua acção é tipificada enquanto investimento. Que este último fosse celebrado nos círculos onde os seus proventos eram colhidos, há muito que se tornara uma realidade cultural. Agora a compulsão para o representar como o único tipo merecedor de celebração, é algo relativamente novo, sobretudo quando se estende ao corpo social que adquire avidamente esta representação como senso comum. Somos então bombardeados diariamente com histórias de sucesso de empreendedores e empreendedoras que empreenderam sobre o mundo não se deixando acomodar aos círculos restritos das zonas de conforto. E o trabalho? Esse não tem qualquer interesse; muito embora, assim como a velha máxima predestinava que por detrás de um grande homem estivesse sempre uma grande mulher, diremos que por detrás de um grande empreendedor estarão sempre vários (quando não muitos) trabalhadores. A lógica é simples: os empreendedores não existem sem os trabalhadores que levam a bom termo os seus empreendimentos. E mesmo que admitamos que no início um empreendedor se fará quase em isolamento, a sua iniciativa só será reconhecida enquanto bem-sucedida quando o potencial da sua ideia se materializar em crescimento da sua estrutura – e esta exige trabalhadores.

Esta admiração por quem empreende e investe, subordinando toda e qualquer imagem ao espírito arguto de homens e mulheres singulares, omite deliberadamente as relações de poder que se tecem entre quem empreende e quem produz. É uma reverência babada pelo patrão e pela ideia mítica de um patronato prometeico que se encontra aqui em jogo. Com esta vem uma completa desatenção ao esforço do trabalho e por isso uma total ausência da justiça da sua retribuição. Na medida em que a única imagem moral que esta ideologia aceita é dos benefícios do investimento, estes reverterão sempre para quem se encontra moralmente ligado ao sucesso do empreendimento. Logo, quando uma outra relação está oculta, ou seja, quando quem trabalha para esse mesmo sucesso não faz parte da sua imagem de sucesso, a esbulha do quinhão que é por direito seu pode ser consumada. E de facto é-o. Nas mais diversas ocasiões. A flexibilização é um termo técnico para a ocultação desta relação de usurpação do produto do esforço do trabalho. O que se flexibiliza não é nunca o produto directo do investimento que cabe ao investidor, mas sempre a proporção da participação do trabalhador nesse produto. Por isso é que as empresas para manterem as margens de lucro despedem pessoas. Não é que não tivessem capacidade para as manter, é que só as manteriam à custa da redução dos proventos de quem investe. No esquema cultural de deificação do investidor, esse sacrifício só pode ser efectuado sobre os homens e não sobre os deuses.

As duas Vienas

As duas Vienas… encontram-se através da linha do metro. Mas pouco mais. Uma Viena elegante; traços de moderno rústico, uma mescla imponente – entre o monumental de outrora e a megalomania arquitectónica da actualidade. A outra, a dos imigrantes, dos austríacos de poucas posses, das famílias modestas, dos infindáveis bares de putas e das associações culturais, declináveis em tantas línguas quantas as que se podem surpreender a andar pelas ruas da cidade ou parado a beber um café numa artéria principal.

Para ser franco, apenas existem numa linha de continuidade através dessa outra linha, a do metro. Se não fosse isso, distavam estilos de vida, dinheiro, e pergaminhos que nunca se encontrariam como em duas linhas paralelas. Mas como o metro liga tudo com tudo, o resto da cidade com o resto da cidade, uma ponta a outra, ou também por isso, as duas Vienas cruzam-se, bailam juntas uma valsa desencontrada, um par que tem que coexistir mas que não acerta o compasso. Eis as duas Vienas: uma rica e absorvida em si mesma; a outra modesta e perdida numa batalha para ascender à primeira.

Reflexões sobre um cadáver esquisito

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Quem passear pelos corredores da Assembleia, sobretudo lá para as bandas dos gabinetes dos partidos da coligação governamental, apercebe-se rapidamente que este país está a ser governado por uma clique de tios e tias. Os tios e as tias são pessoas como as outras e merecem o seu quinhão de respeito humanitário como aquele que prodigalizamos aos nossos compatriotas de vizinhança ou ao nosso animal de estimação. Isto poderia ser dito por Teresa Guilherme ou José Castel Branco, e não deixa por isso de possuir um inegável pendor de imperativo moral. Dá-se o caso no entanto de os tios e as tias terem ideias sobre as coisas que nos rodeiam, sobre o mundo, a vida, a sociedade, o futuro e o passado. E aí começa o problema; quando não é razão para se instalar o pânico.

A mundividência destes tios e tias não está bem à altura de uma Weltanschauung no sentido mais pristinamente marxista do termo. Ou seja, não há dúvida que ela é ideológica, profundamente ideológica; mas trata-se de uma ideologia descosida, sem pontos de sutura bem definidos, sem o labor retórico das grandes ideologias, sem a coerência poderosa dos grandes planos humanos. O lado desta mundividência mais fascinante, que se deixa ler enquanto objecto de fascínio, é justamente a sua leveza, a sua quase que imponderável natureza – do apego, da adesão, da fé. Em verdade, o que mais espanta de quem dela se abeirar é a sua volatilidade: tudo pode ser uma coisa e o seu contrário. A mundividência dos tios e das tias, contrariamente ao que apregoam as máximas mais caras do conservadorismo, é de uma volatilidade estonteante. E o estonteamento é provocado pelo facto de uma coisa que é afirmada com um zelo de peremptoriedade imarcescível pode estar a ser desmentida cinco minutos mais tarde. O processo não tem a ver com as astúcias da retórica, os meandros da hipocrisia, os desvios de um Catão, e os abusos da paciência da velha República. Está localizada muito pragmaticamente numa concepção assaz poderosa da vida e das representações que sobre esta se podem produzir: aquilo que se diz ou se pensa não é importante, mas aquilo que se faz, sim.

À primeira vista estaríamos prestes a surpreender um certo pragmatismo à maneira dos velhos pragmatistas norte-americanos, para quem as acções possuem prioridade ontológica sobre as ideias. Mas não. Esta forma pragmática de estar no mundo é tão pragmática quanto valdevina. Esta palavra é interessante e carece de substrato  porventura passível de ser encontrado em alguns exemplos. Por exemplo, tanto são capazes de fazer rasgados elogios à capacidade aventureira dos portugueses, indo lá pr’a fora, com a mala de cartão, correndo esse mundo na demanda do gral terreno, e espalhando-se aos quatro ventos; como cinco minutos volvidos, malharem nos professores portugueses porque são incapazes de se movimentarem – leia-se saírem daqui e ir à procura da sorte (uma qualquer) noutra parte do mundo. Resultado: retiram aos professores o seu quinhão de portuguesidade genética que os abalançaria à irresistível gesta dos navegadores e a ir à procura de encarar o mostrengo noutros cabos mais esperançados. Outros exemplos poderiam ser dados, tantas são as contradições surpreendidas num cavaquear descontraído sem grandes exigências argumentativas. Mas o que interessa aqui relevar é que quando se diz que este governo é fraquinho, fraquinho, como afirmava ontem MRebelo de Sousa, porque se vê enleado em contradições sistemáticas, toma-se a nuvem por Juno. As contradições sistemáticas não são o resultado de uma fragilidade estrutural ou cognitiva qualquer deste governo e dos seus membros – é o ethos dos tios e das tias que lhe têm as rédeas. O seu impressionante arcaboiço gestionário obriga-os a dizer coisas para cumprir o calendário mediático, mas no fim de contas só fazem aqueles que lhes aprouver  Se não vejamos, quantas vezes claudicou este governo nas suas medidas? Várias, se tomada a anunciação das mesmas como medida analítica. Contudo, se tomarmos a implementação das mesmas, constatamos rapidamente que foi tudo a eito, independentemente dos protestos, dos lamentos, das invectivas, das chamadas de atenção à legalidade… E por aí se vê como a retórica da contradição é consubstancial a estas cabeças. Porque, assim como um patrão se está nas tintas para aquilo que diz ou como é interpretado porque a vontade final será a dele, também este governo age com essa impunidade patronal perante os seus trabalhadores. Os primeiros sinais estavam na assunção de que os portugueses eram descartáveis porque o show (business) must go on, que é como quem diz a única coisa que interessa é o business – imigrem, mexam o cu seus parasitas: façam-se à vida! A zona de conforto como material explosivo simbólico afeita-se a diversas situações e contextos de guerra preventiva… social. Mas os sinais vão-se sucedendo, e a impunidade é de tal forma adquirida que não importa a quantidade de contradições, tão-pouco a profundidade ou gravidade destas, o que interessa é governar fazendo! Habermas, no seu sonambulismo liberal do pós-guerra, não viu chegar as lógicas não argumentativas neoliberais com o seu desprezo sobranceiro pela comunicação idealizada. O pacto argumentativo foi definitivamente rompido, o que em termos habermasianos devia implicar uma pane generalizada do proceduralismo democrático. E na realidade já provocou. A contradição, deliberada ou desleixada, é o inferno de qualquer mecanismo de racionalidade procedimental. O problema é que ao contrário de um governo completamente em ruptura, feito galinha tonta e em estado comatoso, tenho a impressão que eles estão perfeitamente cientes disso mesmo.

Sem retorno…

Quando se fala do retorno obtido com o Estado social para quem é que se está a falar? Academicamente, dentro de uma lógica de justiça redistributiva, faz todo sentido. A moral da redistribuição deve ser a prioridade de qualquer colectividade humana. Na prática nada disso faz sentido, e é desmentido até à saciedade pelo nosso quotidiano. Vem isto a propósito de uma defesa do Estado social feita nos moldes do retorno em educação, saúde etc que deste decorreria. Em educação, argumenta-se, o nível crescente das habilitações dos portugueses seria impossível não fora pela acção do Estado social; na saúde, indicadores terríveis como a taxa de mortalidade infantil (terríveis por aquilo que indiciam em termos do desenvolvimento de um país) foram assinalavelmente mitigados – ao ponto da não expressão – pela actuação do Estado social. Em termos estatísticos tudo isso é muito claro. Mas o Estado social não precisou dos ataques deliberados dos novos governantes e do seu férreo pendor neoliberal para se ter vindo a debilitar gradualmente. A própria mobilidade social da classe média é um dos factores que mais delapidou o Estado social – caso em que o processo se iniciou pela base para depois ter confirmação e reforço no topo. Por um lado, a classe média e média-alta abandonaram as estruturas públicas reforçando a tendência de privatização em marcha. O neoliberalismo enquanto ideologia possui essa determinação inexorável de avanço para um Estado mínimo, o mais rápido e em força, como uma declaração de guerra. É um facto. Porém, a retirada dos filhos da classe média e média-alta das escolas públicas evidenciando uma clara preferência pela iniciativa privada ou a transferência progressiva – e agressiva – dos rendimentos dessa mesma classe média-alta para a oferta particular de saúde colocaram em movimento o processo de erosão pela base do Estado social. Por isso, quando se fala do retorno obtido pelo Estado social, para quem se está a falar? – repito a minha interrogação inicial. Com certeza que estamos perante um caso de dissonância cognitiva com estilhaços classistas. Onde a classe média-alta da academia vê necessidade de defender e mesmo incrementar as capacidades do Estado social, opera essa mesma classe uma prática que em tudo o contradiz. Ambiguidade latente numa classe que quer estar de bem com a sua consciência social e simultaneamente proporcionar-se os benefícios das lógicas do consumo. Agora, estes movimentos são sempre descoincidentes e bifurcam cada vez mais. A transferência de rendimentos para a saúde privada – através da aquisição de seguros e outros modalidades de privatização – esvazia a estrutura de saúde pública dos únicos utentes que a podem pagar. Estaríamos equivocados se achássemos que esta retirada é fruto de uma chantagem dos poderes económicos e políticos. A estratégia de retirada não resulta de uma manipulação de vontades, assim como a transferência de alunos da escola pública para a privada não é uma obrigação face à mediocratização do ensino na primeira. O que provoca a depauperação da escola pública é justamente a transferência dos seus melhores para o ensino privado.

Confrontamo-nos com uma transformação acelerada de um tipo social de utente em direcção a um tipo social de consumidor. Este estatuto foi abraçado avidamente por grande (ou pela maior) parte da classe média e média-alta. Não vale a pena iludir a dimensão dos factos. No registo consumidor-cliente as pessoas gostam e aderem à possibilidade que lhes é oferecida pelo poder monetário da escolha. Quem tem dinheiro – mesmo sem ser rico – gosta de poder utilizar o seu voto monetário na potencial escolha que lhe está acessível. É por isso que a conexão estado-social e representatividade – ligação que balizou muito do pensamento político do pós-guerra – encontra-se actualmente equivocada. E é por isso também que os eleitores quando são chamados a pronunciarem-se não penalizam quem afectou essa mesma conexão. Porque ela não se encontra na mediação da escolha individual. O voto monetário substitui o voto político. A representação não tem um equivalente na reivindicação; pelo contrário, quem ainda pretende que estes dois termos funcionem em conjunto são aqueles que estão fundamentalmente arredados do voto monetário.

Conversa com Pilar

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Pilar chama-me a atenção para a analogia entre o Quixote de Cervantes e a Jangada de Pedra de Saramago. Analogia deliberada, diz-me Pilar, que passou despercebida à crítica literária. No Quixote, Sancho desloca-se num burro e Quixote num cavalo, e ambos percorrem a Espanha em aventuras e desventuras. Na Jangada de Pedra, os cinco personagens do romance deslocam-se num dois cavalos, um citroên, dos antigos, e percorrem a península. Analogia novelesca e genealógica: Cervantes estaria na história da literatura portuguesa, ocupando o mesmo lugar simbólico que lhe calhou por direito na espanhola. Quando mais não fosse, porque Cervantes é uma das grandes inspirações de Saramago, sobretudo o Quixote, diz-me Pilar. Daí que Saramago seja o mais espanhol dos escritores portugueses, ou vice-versa, o mais português dos continuadores cervantinos. E se a península se despega do continente europeu e vai por esse atlântico fora bordejar outras costas que lhe são mais consentâneas, não o faz apenas como fado social e económico, quiçá cultural em sentido lato, mas num muito específico sentido literário. A península tem Quixote… e Pessoa, e Vieira, e nesse pathos que nos une, as fronteiras entre tradições literárias esborrata-se, torna-se transparente, indefinida. Num borrão, ouvimos Quixote dentro de Saramago, e o sentido dialógico que as conversetas entre Sancho e D. Quixote entretêm encontra-se também na permanente interpelação que Saramago dirige aos seus leitores: “Saiba o leitor”, “O leitor saberá”… etc. A adopção de Saramago por parte dos espanhóis tornou-se por isso relativamente fácil. Saramago falava na linguagem de Quixote, e a sua península com laivos utópicos de procura de ilhas em mares ignotos era-lhes bem reconhecível. A jangada de pedra é o resultado da fusão quase homozigótica entre dois países; fusão não apenas histórica no sentido diacrónico de sucessão de acontecimentos que marcaram e constituíram dois povos, mas de genealogia literária. Teríamos então – e isto não afirma Pilar, sou eu que especulo – um pai Quixote e uma mãe Pessoa que transmitiram ao seu filho o inexorável destino da jangada de pedra: vogar pelos mares ao encontro das suas ramificações por onde as línguas de Pessoa e de Cervantes se vão escutando em desarmonia, porventura, com outros linguajares vernaculares. Quando a Jangada de Pedra parte, deixando para trás o resto da Europa, é Cervantes e Pessoa que abandonam o ocidente porque não lhe pertencem. E assim como Sancho é arrastado por Quixote na busca da mirífica Dulcineia, também os protagonistas montados num dois cavalos da citroên se fazem ao caminho na procura de um poiso que lhes reconheça as origens.