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Angola vista de Varsóvia

Abril 30, 2013

Um livro muito bom de Ryszard Kapuściński sobre Angola no após independência. A comparar com “O Retorno” de Dulce Cardoso, também ele bom. Para o primeiro os portugueses deixaram Angola esvaída, encaixotaram o que valia a pena e, Ala que se faz tarde – nem uma cadeirinha por lá ficou. Para Dulce os portugueses perderam tudo e chegaram à metrópole com uma mão à frente outra atrás. A verdade estará algures entre estes dois relatos. Uns, com certeza, chegaram sem nada; outros, teria havido que gamaram o que puderam e puseram-se ao fresco. Mas o livro de Kapuściński demora-se em Angola para além da ponte aérea e dos caixotes de madeira que certo dia invadiram o cais do porto de Lisboa. Esses mesmos caixotes cujos protectores tão bem retratados surgem na história de Dulce Cardoso. Salvaguardadas as distâncias – o primeiro é escrito em estilo de crónica jornalística, mas suficientemente impressionista para ser lido como um bom romance, enquanto o segundo cumpre os preceitos narrativos do registo novelesco, com o seu quê de autobiográfico – as perspectivas sobre o que se passou naqueles fatídicos dias de transição para a independência não podiam ser mais antagónicas. Ou pelo menos, existirem estas nos antípodas uma da outra sem se poder falar verdadeiramente de um antagonismo. Seja como for, não são concordantes. E isto porque para Kapuściński a necessidade de uma Angola liberta do jugo colonial é uma evidência política, social, económica, cultural; enquanto em Dulce Cardoso o olhar é suficientemente ambíguo para não discernirmos qual é a sua posição. Uma coisa é certa, os negros aparecem como os ladrões do património alheio. Para Kapuściński, os negros apenas recuperavam aquilo de que tinham sido espoliados, por rapina e direito de exploração colonial. Depois disso, e para os portugueses, fica um imenso vazio, mitigado apenas no labirinto da saudade. Esse vazio é agora preenchido culturalmente com diversos produtos, tais como o livro de Dulce Cardoso, mas também a série televisiva “Depois do adeus” e outros exemplos haveria que mencionar. É um reencontro com a história que se confronta, todavia, com um muro de silêncio do outro lado. É portanto uma história contada pelo português com raríssimas intervenções do ex-colonizado. Todavia, a fronteira, ou a linha de fractura, se quisermos, complica-se no caso português. Posto que será talvez necessário dar crédito a todos aqueles que vêem no empreendimento português maior ambiguidade do que noutros casos, e esta é de tal forma perseverante que se estende para além da independência de Angola, ou pelo processo independentista enquanto este se desenrolava. Ao longo do livro de Kapuściński vimos que uma parte não despicienda da resistência aos avanços de Savimbi pelo norte e da África do Sul pela Namíbia eram no fim de contas brancos. Brancos do MPLA que nas zonas de guerra mais acirrada continham as forças inimigas e invasoras de Angola. E no entanto, eram brancos que alinhavam de alma e coração com o discurso da opressão ao negro e do racismo de que estes eram vítimas. Esta presteza revolucionária dos brancos do MPLA viria a ser abandonada, em larga medida porque foram eles próprios vítimas de racismo e de posterior perseguição. Mas a forma como o exército angolano, desarticulado que fosse, exibia uma presença disseminada de brancos em lugares de comando, resulta do facto de uma luta por independência no fundamental política e não racializada. Neste ínterim, o português branco entendia-se como angolano assim como o africano negro. A nacionalidade angolana, no entendimento do MPLA, era um projecto político-geográfico e não racial.

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3 comentários leave one →
  1. lurdes silva permalink
    Maio 31, 2013 9:32 pm

    Vivemos num mundo desumanizado, com governos e escritores, respectivamente a implementar e a dissertar sobre teorias, seja o capitalismo selvagem, seja o colonialismo.
    No livro de Dulce Cardoso fala-se de pessoas (será que o autor residente em Varsóvia, sabe o que são pessoas? ). De pessoas cujos antepassados, ou eles próprios, emigraram para Angola como poderiam ter emigrado para França,Venezuela ou Brasil. Acha que essas pessoas tinham a noção do que era o colonialismo? A maior parte partiu com a 4ª classe. Até os que frequentavam as escolas , mesmo as Universidades, o período temporal do estudo da história terminava na revolução industrial, do qual apenas se sabia que havia uma máquina a vapor. Pensa que a guerra se fazia por causa desses colonos ou por causa dos grandes senhores que estavam na metrópole? Não sabe que essas pessoas que trabalhavam em Angola foram duplamente exploradas pelos metropolitanos?Povoavam o território, (era preciso povoar para os metropolitanos explorarem os lucros), ganhavam o seu salário e tudo perderam.
    Deixem-se de teorias e respeitem as pessoas…..principalmente as vítimas do analfabetismo do antigo regime, que tiveram que emigrar. Hoje já respeitam os engenheiros que têm que emigrar para Angola, porquê? Se estes são vítimas do neo-liberalismo pelo menos têm uma cultura mediana que lhes permite saber para onde vão.Os outros eram vítimas do fascismo e para eles Angola era um espaço para onde iam trabalhar.

    • nunocastro permalink*
      Junho 4, 2013 9:42 am

      Lurdes,

      O Angola vista de Varsóvia faz referência ao próprio Kapuściński que era o correspondente de guerra polaco nos dias conturbados da independência de Angola. Por isso, admita-se, possuía um viés resultante do então pacto comunista que se vivia entre o Leste e o MPLA. Independentemente de eu poder concordar consigo no esforço de quem emigrou para as colónias, julgo que não será difícil concluir que se tratava de um regime colonial com as implicações que isso encerra: domínio de um grupo sobre o outro, ocupação de um território pela força das armas, exploração intensiva capitalista dos recursos dos seus territórios.
      A comparação entre os dois livros, para mim, é mais instrutiva no que toca aos períodos sobre os quais cada um se debruça. e se vir bem, não existe grande coisa escrita sobre o pós-independência por alguém de fora da própria esfera do conflito que viria a desembocar numa guerra civil fratricida. Num período em que parece existir tanta apetência pela produção historiográfica e literária referente a esse momento da história de ambos os países, até acho que o livro do Kapuściński devia estar traduzido.

      • lurdes permalink
        Junho 5, 2013 8:56 pm

        O livro do polaco, que não li, fala certamente do colonialismo que é um sistema execrável e que , com algumas exceções, é condenado, á esquerda por ideologia e à direita por ser politicamente correto fazê-lo. Ora os protagonistas do livro de Dulce Cardoso são as outras vítimas do regime, vítimas que por preconceito foram esquecidas ou consideradas cúmplices ou beneficiárias dum regime.

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