Skip to content

Ossobuco

Abril 29, 2013

 

Imagem

Há certos tipos que são bourdianos até ao osso; até à exasperação. Para eles estudar o Herculano ou Garret são apenas estratégias de distinção dentro de um campo – o campo académico e mais especificamente o campo historiográfico (embora nós nunca saibamos onde terminam os campos que bem podiam cair numa espécie de regressão ao infinito). Mas dito isto, esta obsessão com estratégias de valorização de capitais no campo, não permite pensar (nem sequer admite como possibilidade poética) que um gajo possa genuinamente gostar de Garret e de Herculano e dedicar-lhes uma quantidade do seu tempo de vida. A ideia de que a história que deve ser feita é a do povo, a das coisas comezinhas, porque essa é que nunca teve voz, é bem mais arrogante do que a posição que considera o Garret digno de atenção. Isto porque possui uma implicação novo-riquista (está para além de pequeno burguesa, expressão que actualmente não expressa rigorosamente nada) que é a do afastamento de uma imagem intelectualista que na realidade é completamente desmentido por uma obsessiva prática intelectualista – nos hábitos de consumo, nos temas de conversa, nas expressões e desejos: o intelectualismo é o mediador de qualquer estratagema pensante. Por isso é ainda mais arrogante: aparenta desligar-se das coisas distintivas para se distinguir ainda mais, posto que as formulações com que estes gajos querem tornar as aproximações ao social e à história não têm nada de inocente contemplação dos objectos sociais ou historiográficos, sendo antes complexificações discursivas desses mesmos objectos das quais o comum dos mortais – o povo e as coisas simples e não distintivas – não possuem os códigos. Neste sentido é uma violência disfarçada (diria quase uma violência simbólica, mas não se trata realmente disso porque aqui não existe nenhuma illusio) de humildade académica quando é no fundo a maior expressão de arrogância académica. E sim, é mais interessante estudar Garret, Oliveira Martins, ou Pessoa e a Presença do que os processos de panificação no Baixo Vouga. O que não significa que não possa alguém a isso mesmo dedicar-se. Eles não são, contrariamente ao que os tipos que carregam a canga das estratégias distintivas e reprodução de lugares no campo às costas, mutuamente exclusivos. Há espaço para os dois. 

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: