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A crise não é como o sol – quando nasce não é para todos.

Abril 5, 2013

O espanto de Alvim perante a revelação de José Manuel Sobral segundo a qual Portugal seria o país mais desigual da EU (ex aequo com a Inglaterra, segundo Sobral, o que não é verdade…) mostra bem o grau de inconsciência em que certas pessoas vivem. Não creio que Alvim estivesse a ironizar, a meter aquelas colheradas inoportunas em que é useiro e vezeiro no seu programa. Estou em crer que o espanto era genuíno. O nível de alheamento de uma parte do país relativamente a outra não é de maneira nenhuma mitigado pela aluvião de notícias preocupadas com a catástrofe da crise com que vivemos. Se ela existe, essa aluvião, é facilmente absorvida na torrente de sound bites noticiosos e arrolada ao panegírico de desgraças e desgraçadinhos que é o humos da notícia no Portugal hodierno. Repare-se que mesmo quando tratados casos de sucesso com uma admiração colectiva incontinente é ainda e sempre a crise como pano de fundo que emerge por contraste. Onde medra este caleidoscópio de acontecimentos catastróficos, nenhuma medida de serenidade analítica pode sobreviver. E não nego a presença da crise e a sua efectividade na vida de muitas e de muitos. Pergunto-me apenas, o que acontece quando esta é transformada em material de diletantismo jornalístico com o cortejo de reportagens semi-ensaísticas sobre vidas despedaçadas e sem esperança? Pois torna-se motivo de espectáculo. A espectacularização da crise – que não toca a todos da mesma maneira e muito menos na mesma intensidade – permite que esta, a crise, seja mote reincidente nos mais diversos comentários e disposições pessoais. Note-se que o espectáculo não tem necessariamente que ser divertido. Se assim fosse os reality shows não teriam audiência. O espectáculo pode ser trágico, sem por isso perder a sua espectacularidade. A acção pragmática do motivo crise é uma espécie de epilogismo que termina invariavelmente na desocultação da razão principal: – Pois, é a crise! Em Portugal, se existe tendência disseminada é a de enfileirar em coros de peroração. Se alguém sofre pela crise – sofrer genuinamente, até à dor -, não faltará quem apareça que se junte a tal fado, demonstrando que ainda é mais vítima do que a vítima. E esta obsessão pelo pathos colectivo encobre que muita gente há que não se viu, nem se vê no seu quotidiano, minimamente atingida pela crise. E mesmo que tenha sido alvo das mesmas medidas que ora debelam ora agudizam essa mesma crise, o impacto que estas exercem sobre ela é milhares de vezes mitigado dada a sua condição adquirida.

Este encarneirar nas agruras da crise torna-se assim duplamente enganador. A uma, porque minora o sofrimento daqueles a quem a crise assola verdadeiramente; a outra, porque ao torná-la destino colectivo surge com a inevitabilidade incontornável de um fardo que todos devemos carregar. O que é preciso acentuar é que este carrego não possui o mesmo peso para todos. É obsceno ver figuras televisivas da moda a sentirem a penúria alheia num espectáculo de empatia tão fabricado como degradante. É obsceno ver a maneira como se oferece dinheiro em iniciativas avulsas com a indicação paternalista que aquela quantia vem mesmo a calhar em tempo de crise, quando por vezes as quantias ofertadas equivalem a dois e três meses de ordenado dos seus anunciadores. É ainda obsceno ver como comentadores pagos a peso de ouro se aliam emocionalmente, em diversos meios de divulgação mediáticos, às massas anónimas afectadas pela crise com um paternalismo caritativo de puxar a lágrima ao mais coriáceo dos indigentes sociais. Temos então de nos proteger contra este processo de transformação da crise num estado de latência total incorporado nas dinâmicas representacionais do colectivo. Devemos opor a este facilitismo mental a máxima segundo a qual a Crise quando nasce não é para todos

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