Angola vista de Varsóvia

Um livro muito bom de Ryszard Kapuściński sobre Angola no após independência. A comparar com “O Retorno” de Dulce Cardoso, também ele bom. Para o primeiro os portugueses deixaram Angola esvaída, encaixotaram o que valia a pena e, Ala que se faz tarde – nem uma cadeirinha por lá ficou. Para Dulce os portugueses perderam tudo e chegaram à metrópole com uma mão à frente outra atrás. A verdade estará algures entre estes dois relatos. Uns, com certeza, chegaram sem nada; outros, teria havido que gamaram o que puderam e puseram-se ao fresco. Mas o livro de Kapuściński demora-se em Angola para além da ponte aérea e dos caixotes de madeira que certo dia invadiram o cais do porto de Lisboa. Esses mesmos caixotes cujos protectores tão bem retratados surgem na história de Dulce Cardoso. Salvaguardadas as distâncias – o primeiro é escrito em estilo de crónica jornalística, mas suficientemente impressionista para ser lido como um bom romance, enquanto o segundo cumpre os preceitos narrativos do registo novelesco, com o seu quê de autobiográfico – as perspectivas sobre o que se passou naqueles fatídicos dias de transição para a independência não podiam ser mais antagónicas. Ou pelo menos, existirem estas nos antípodas uma da outra sem se poder falar verdadeiramente de um antagonismo. Seja como for, não são concordantes. E isto porque para Kapuściński a necessidade de uma Angola liberta do jugo colonial é uma evidência política, social, económica, cultural; enquanto em Dulce Cardoso o olhar é suficientemente ambíguo para não discernirmos qual é a sua posição. Uma coisa é certa, os negros aparecem como os ladrões do património alheio. Para Kapuściński, os negros apenas recuperavam aquilo de que tinham sido espoliados, por rapina e direito de exploração colonial. Depois disso, e para os portugueses, fica um imenso vazio, mitigado apenas no labirinto da saudade. Esse vazio é agora preenchido culturalmente com diversos produtos, tais como o livro de Dulce Cardoso, mas também a série televisiva “Depois do adeus” e outros exemplos haveria que mencionar. É um reencontro com a história que se confronta, todavia, com um muro de silêncio do outro lado. É portanto uma história contada pelo português com raríssimas intervenções do ex-colonizado. Todavia, a fronteira, ou a linha de fractura, se quisermos, complica-se no caso português. Posto que será talvez necessário dar crédito a todos aqueles que vêem no empreendimento português maior ambiguidade do que noutros casos, e esta é de tal forma perseverante que se estende para além da independência de Angola, ou pelo processo independentista enquanto este se desenrolava. Ao longo do livro de Kapuściński vimos que uma parte não despicienda da resistência aos avanços de Savimbi pelo norte e da África do Sul pela Namíbia eram no fim de contas brancos. Brancos do MPLA que nas zonas de guerra mais acirrada continham as forças inimigas e invasoras de Angola. E no entanto, eram brancos que alinhavam de alma e coração com o discurso da opressão ao negro e do racismo de que estes eram vítimas. Esta presteza revolucionária dos brancos do MPLA viria a ser abandonada, em larga medida porque foram eles próprios vítimas de racismo e de posterior perseguição. Mas a forma como o exército angolano, desarticulado que fosse, exibia uma presença disseminada de brancos em lugares de comando, resulta do facto de uma luta por independência no fundamental política e não racializada. Neste ínterim, o português branco entendia-se como angolano assim como o africano negro. A nacionalidade angolana, no entendimento do MPLA, era um projecto político-geográfico e não racial.

Ossobuco

 

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Há certos tipos que são bourdianos até ao osso; até à exasperação. Para eles estudar o Herculano ou Garret são apenas estratégias de distinção dentro de um campo – o campo académico e mais especificamente o campo historiográfico (embora nós nunca saibamos onde terminam os campos que bem podiam cair numa espécie de regressão ao infinito). Mas dito isto, esta obsessão com estratégias de valorização de capitais no campo, não permite pensar (nem sequer admite como possibilidade poética) que um gajo possa genuinamente gostar de Garret e de Herculano e dedicar-lhes uma quantidade do seu tempo de vida. A ideia de que a história que deve ser feita é a do povo, a das coisas comezinhas, porque essa é que nunca teve voz, é bem mais arrogante do que a posição que considera o Garret digno de atenção. Isto porque possui uma implicação novo-riquista (está para além de pequeno burguesa, expressão que actualmente não expressa rigorosamente nada) que é a do afastamento de uma imagem intelectualista que na realidade é completamente desmentido por uma obsessiva prática intelectualista – nos hábitos de consumo, nos temas de conversa, nas expressões e desejos: o intelectualismo é o mediador de qualquer estratagema pensante. Por isso é ainda mais arrogante: aparenta desligar-se das coisas distintivas para se distinguir ainda mais, posto que as formulações com que estes gajos querem tornar as aproximações ao social e à história não têm nada de inocente contemplação dos objectos sociais ou historiográficos, sendo antes complexificações discursivas desses mesmos objectos das quais o comum dos mortais – o povo e as coisas simples e não distintivas – não possuem os códigos. Neste sentido é uma violência disfarçada (diria quase uma violência simbólica, mas não se trata realmente disso porque aqui não existe nenhuma illusio) de humildade académica quando é no fundo a maior expressão de arrogância académica. E sim, é mais interessante estudar Garret, Oliveira Martins, ou Pessoa e a Presença do que os processos de panificação no Baixo Vouga. O que não significa que não possa alguém a isso mesmo dedicar-se. Eles não são, contrariamente ao que os tipos que carregam a canga das estratégias distintivas e reprodução de lugares no campo às costas, mutuamente exclusivos. Há espaço para os dois. 

et ducit mundum per luce

Pacheco Pereira, pessoa de muitos e encadeantes recursos retóricos, espanta-se com o ápodo de radical que homens e mulheres do seu quadrante político decidiram apensar-lhe como o ferrete de um libelo romano. Sem dúvida que Pacheco Pereira é uma das vozes mais inquietadas, e por isso também mais incómodas, com a situação actual. O incómodo que causa não se deve tanto ao conteúdo daquilo que diz, mas ao lugar donde o diz. É como o espinho cravado na goela do gigante, a pedra no sapato ou o tiro saído pela culatra – das hostes de uma congregação não se espera que saia o seu principal crítico. Isto constitui um princípio básico de solidariedade. E quem assim o acusa de radical parece ter mais em mente o processo tragicómico de traição aos atenienses do que as declarações inconsúteis do plumitivo.

Curioso é verificar que o agora estranhado termo radical foi rótulo consequente nas análises que Pacheco Pereira tantas vezes prodigalizou à esquerda. Servia então essa infame palavra para classificar algo que não se dobrava aos ditames do proceduralismo democrático nem acatava o partidarismo de ocasião de uma corja de vampiros. Que a palavra servisse uma intenção política muito concreta nas análises de Pacheco Pereira deveria deixar o plumitivo de imediato sobreaviso pela bênção que agora lhe cabe em sorte. Pois que se afigura o feitiço ter-se virado contra o feiticeiro, quanto mais não seja porque a qualificação de radical possui um propósito moral; ou seja, desclassificar moralmente quem assim é categorizado. Se Pacheco Pereira atribuía em tempos a posição de radical a todo aquele que não se contentasse com a ordem das coisas, era porque estava basicamente satisfeito com essa mesma ordem. O que mudou então? Não o partido, que apesar de Pacheco Pereira insistir na sua linha ininterrupta com a social democracia europeia de antanho, com uma explícita queda para o Estado social, e uma propensão ideológica para o centro-esquerda, bem sabemos que assim nunca foi e que o neoliberalismo reaganiano e tatcheriano sempre teve muitos e fervorosos adeptos dentro do (falso) partido social democrata nacional.

Neste quadro, as perorações de Pacheco Pereira soam de facto radicais pelo seu quê de deslocadas histórica e intelectualmente, aprumadas por um indisfarçável quinhão de falsidade. De maneira nenhuma se pode acusar Pacheco Pereira de “agora” inflacionar as suas críticas ou de as servir como produtos abastardados de uma consciência doente. Tudo o que ultimamente tem dito não apenas é certeiro como as mais das vezes impossível de superar em termos de formulação. Mas o deus mercado e liberdade – o arremedo dum outro tríptico que continha família e pátria – nunca esteve ausente das suas cogitações e menos ainda das intenções programáticas dos seus confrades partidários. O pasmo novo-rico pela liberalização, flexibilização, privatização, as homófonas na moda, sempre por lá pairou como o credo em cruz. E se esse foi o credo, durante tantos e bons anos, que espanto poderá advir de constatarmos a sua hiperbólica redimensionação nos ensejos dos novos empreendedores que ascenderam à condução dos destinos da nação? Gaspar fala mal e arrastado? Relvas é mafioso? Passos acredita naquilo que diz? Idiossincrasias  Alinha tudo pela mesma batuta: mercado e em força. Dizer que isto é ideológico é o mesmo que dizer que as penas flutuam quando caem numa superfície líquida. A separação ideológica entre um putativo quadrante de esquerda e um outro de direita sempre foi traçada aí: quanto de mercado se pode permitir nas nossas vidas. Para o PSD de Barroso, Santana Lopes e Ferreira Leite nunca a dúvida se incrustou na ideia tão urgente quanto displicente segundo a qual soltando-se as forças do deus mercado a iniciativa, a motivação humana conduziria inexoravelmente aos melhores resultados. Digamos que se alguma coisa constituía a ideologia do PSD essa tinha por certo que ver com o simples postular de uma mão invisível. Estranharemos porventura que Barroso evidencie essa mesma cegueira aos comandos da União Europeia? Por certo que não. Acharemos bizarra a extrema coincidência entre os ditames da troika e os desideratos do governo PSD? Só se formos tolos. Mas Pacheco Pereira afecta um incómodo de alguém a quem tendo-lhe sido prometido lebre desossada lhe tivessem acabado por servir gato sifilítico. Talvez seja este desencontro entre expectativas mundanas por algo conhecido e o exagero na reacção quando esse algo acontece que devemos apelidar de radical.

A crise não é como o sol – quando nasce não é para todos.

O espanto de Alvim perante a revelação de José Manuel Sobral segundo a qual Portugal seria o país mais desigual da EU (ex aequo com a Inglaterra, segundo Sobral, o que não é verdade…) mostra bem o grau de inconsciência em que certas pessoas vivem. Não creio que Alvim estivesse a ironizar, a meter aquelas colheradas inoportunas em que é useiro e vezeiro no seu programa. Estou em crer que o espanto era genuíno. O nível de alheamento de uma parte do país relativamente a outra não é de maneira nenhuma mitigado pela aluvião de notícias preocupadas com a catástrofe da crise com que vivemos. Se ela existe, essa aluvião, é facilmente absorvida na torrente de sound bites noticiosos e arrolada ao panegírico de desgraças e desgraçadinhos que é o humos da notícia no Portugal hodierno. Repare-se que mesmo quando tratados casos de sucesso com uma admiração colectiva incontinente é ainda e sempre a crise como pano de fundo que emerge por contraste. Onde medra este caleidoscópio de acontecimentos catastróficos, nenhuma medida de serenidade analítica pode sobreviver. E não nego a presença da crise e a sua efectividade na vida de muitas e de muitos. Pergunto-me apenas, o que acontece quando esta é transformada em material de diletantismo jornalístico com o cortejo de reportagens semi-ensaísticas sobre vidas despedaçadas e sem esperança? Pois torna-se motivo de espectáculo. A espectacularização da crise – que não toca a todos da mesma maneira e muito menos na mesma intensidade – permite que esta, a crise, seja mote reincidente nos mais diversos comentários e disposições pessoais. Note-se que o espectáculo não tem necessariamente que ser divertido. Se assim fosse os reality shows não teriam audiência. O espectáculo pode ser trágico, sem por isso perder a sua espectacularidade. A acção pragmática do motivo crise é uma espécie de epilogismo que termina invariavelmente na desocultação da razão principal: – Pois, é a crise! Em Portugal, se existe tendência disseminada é a de enfileirar em coros de peroração. Se alguém sofre pela crise – sofrer genuinamente, até à dor -, não faltará quem apareça que se junte a tal fado, demonstrando que ainda é mais vítima do que a vítima. E esta obsessão pelo pathos colectivo encobre que muita gente há que não se viu, nem se vê no seu quotidiano, minimamente atingida pela crise. E mesmo que tenha sido alvo das mesmas medidas que ora debelam ora agudizam essa mesma crise, o impacto que estas exercem sobre ela é milhares de vezes mitigado dada a sua condição adquirida.

Este encarneirar nas agruras da crise torna-se assim duplamente enganador. A uma, porque minora o sofrimento daqueles a quem a crise assola verdadeiramente; a outra, porque ao torná-la destino colectivo surge com a inevitabilidade incontornável de um fardo que todos devemos carregar. O que é preciso acentuar é que este carrego não possui o mesmo peso para todos. É obsceno ver figuras televisivas da moda a sentirem a penúria alheia num espectáculo de empatia tão fabricado como degradante. É obsceno ver a maneira como se oferece dinheiro em iniciativas avulsas com a indicação paternalista que aquela quantia vem mesmo a calhar em tempo de crise, quando por vezes as quantias ofertadas equivalem a dois e três meses de ordenado dos seus anunciadores. É ainda obsceno ver como comentadores pagos a peso de ouro se aliam emocionalmente, em diversos meios de divulgação mediáticos, às massas anónimas afectadas pela crise com um paternalismo caritativo de puxar a lágrima ao mais coriáceo dos indigentes sociais. Temos então de nos proteger contra este processo de transformação da crise num estado de latência total incorporado nas dinâmicas representacionais do colectivo. Devemos opor a este facilitismo mental a máxima segundo a qual a Crise quando nasce não é para todos