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O regresso do reprimido… e desinteressante

Março 28, 2013

E lá apareceu o Sócrates, apesar dos atenienses lhe terem dado cicuta a beber, o homem tem mais vidas que um gato e resistiu estoicamente. A entrevista foi, previsivelmente, um enfado. Sócrates nunca foi um grande orador; tão-pouco um animal político como gostam de o classificar. A sua conversa arrasta-se, é um portento de lugares-comuns e de déjà vu políticos, e nesse aspecto não surpreendeu ninguém. Julgar-se-ia que os anos de passeatas pela rive gauche a consultar cartapácios compulsados com a avidez de um maître a penser o teriam devolvido ao mundo dos mortais purificado, lustral, imortal. Mas não: aquilo foi mais do mesmo. Desta feita sem a pressa moralizadora dos lugares institucionais, sem o peso tribunício dos cargos governamentais, enfim sem razão de Estado atrelada aos interrogatórios do grande inquisidor da opinião pública. Diga-se que o trabalho dos jornalistas fez jus a esses tempos. Em que entrevista se viu tamanha sanha na perseguição da presa? Que momento duma velha entrevista a Passos Coelho se aproximou sequer daquela vontade de sangue exibida ontem pelos dois chacais? Bem, e isto já seria cair na esparrela da narrativa da vitimização a que Sócrates lança mão como se de uma segunda pele se tratasse.

Os encómios que lhe foram prodigalizados  – meu deus! Que disparate insano. Uns era porque uma mão atrás dos arbustos insinuava verve poética; outros, era porque a sua endurance notável o fazia ir em crescendo até uma apoteose de pirotecnia política. Não sabem mais o que dizer. Facto é que a entrevista foi sensaborona, tal e qual um Sócrates que nós já nem no horizonte de expectativas pressentíamos. A mão atrás dos arbustos sugere qualquer coisa entre o voyerismo e o onanismo, mas nunca poesia. O crescendo de Sócrates é um crescendo por exaustão, porque os jornalistas actuaram como se lhes tivessem atirado para a arena um bom naco de lombo. E por aí afora. Depois foi a ênfase dada ao uso do termo narrativa – ora porque foi estudado, ora porque tinha com certeza segundas intenções. Ninguém pensou – porque ninguém pensa – que aquilo é o reflexo de um modismo intelectual, que nas lides das filosofias políticas e suas adjacentes, é narrativa para cá e narrativa para lá, e que na sua intenção expletiva, Sócrates tenha comezinhamente usado o palavrão com a taumatúrgia das invocações do (verdadeiro) nome de Deus!

Esperemos então que, no futuro, Sócrates se desinvista do papel de primeiro-ministro e calce os velhos coturnos do comentador oficial do regime. Só isso faria a sua aparição suportável. Uivemos –disse o cão.

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